10 dicas para quem vai fazer a primeira corrida de 10 quilómetros

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Evitem correr carregados de gadgets: isso vai tornar a experiência pior

Muitas vezes perguntam-me quando é que comecei a correr. Honestamente nem sei. Tenho memória, e fotos, de uma corrida na escola quando andava no quinto ano, ou seja, tinha 10 anos. Lembro-me de que quando jogava andebol, entre os 12 e os 20 anos, ser sempre dos que mais aguentavam nas provas de resistência, a correr, naquela fase de pré-época. Também me recordo de participar em corridas pequenas em Setúbal quando era um jovem teenager, aí com 13 ou 14 anos.

Sei que corri a minha primeira meia-maratona, a de Setúbal, quando andava no 11.º ano, ou seja, em 1992, teria uns 16 anos. Depois disso, nunca mais parei. Nuns anos corri mais, noutros menos, mas a corrida foi sempre uma coisa presente na minha vida. Já completei 13 maratonas, uma ultra-maratona, já perdi a conta às meias e às provas de 10 km. Talvez por muita gente me reconhecer como
uma pessoa que aprendeu com a experiência das corridas, recebo frequentemente pedidos de ajuda pelo Facebook, ou pelo Instagram, de gente que está a começar a correr e precisa de algumas dicas. Hoje, vou tentar deixar algumas úteis, práticas, um pouco diferentes daquelas que costumam ler em revistas ou sites especializados.

Podem pô-las em prática já este domingo na Corrida Montepio, onde vou estar. É uma prova de 10 quilómetros, com um percurso lindo junto ao Tejo, e uma corrida muito importante para mim, que tento correr todos os anos. Tal como nos anos anteriores, vou levar os miúdos para correrem a Corrida Pelicas, para as crianças, para ver se os estimulo, de pequeninos, a praticarem desporto, e para ver se ganham um gosto especial pela corrida. Por isso, este domingo, 22 de outubro, espero vê-los na partida e na meta. Quem ainda não se inscreveu, pode fazê-lo aqui.
Aqui ficam as dicas.

1. Como não ficar com bolhas nos pés

É um dos problemas mais frequentes entre os iniciados nesta coisa das corridas. Aconteceu-me várias vezes acabar provas com os pés em sangue e num sofrimento atroz por causa de bolhas nos pés. Desde que percebi que existia uma solução que nunca mais, nem por uma vez, tive uma bolha. E o que é que fiz? Comprei um creme gordo e passei a espalhar o creme, abundantemente, pelos pés. E foi isto.

Disseram-me muitas vezes que o problema era de ter os sapatos muito apertados, que era das meias que não eram boas, que precisava de ter sapatilhas dois números acima, que era da palmilha, mas a única coisa que fiz foi passar a usar creme gordo. Mais nada. E nunca mais tive uma bolha, nem em provas de 10 quilómetros, nem em ultra-maratonas. Experimentem.

2. Como não chegar à meta de rastos

Não há coisa pior do que terminar uma corrida num estado lastimável. É o primeiro passo para não querermos repetir a experiência. É importante que sintamos que a coisa custou, porque assim até dá mais prazer, que conseguimos superar-nos, mas que ao mesmo tempo estamos bem. Aqui, diria que o mais importante é aprender a respirar.

Quando inspiramos, estamos a trazer oxigénio para o sangue, que depois o leva para os músculos, e é fundamental que consigamos continuar a oxigenar bem o corpo, para que as nossas pernas mantenham a força. Por isso, e para que a cadência cardíaca se mantenha, e não andemos com o coração aos saltos, descontrolado, é muito importante que saibamos respirar corretamente. E como é que isso se faz? Simples: encontra-se uma cadência, e mantém-se essa cadência. Como é que eu faço? Marco a cadência com a passada. Ou seja, por exemplo, bato com o pé esquerdo no chão e expiro, depois inspiro lentamente e volto a expirar quando volto a bater com o pé esquerdo no chão, ou faço isto de duas em duas passadas (normalmente no início da corrida, ou quando vou mais devagar). Vão
ver que se vão sentir muito melhor. Para fazerem isto, evitem correr a mascar pastilha, a falar muito ou a cantarolar. Foco na corrida.

3. Definam um objetivo

Correr sem objetivos tem muito menos graça. É fundamental que se estejam sempre a desafiar. Nos treinos, muitas vezes o objetivo é a distância. “Hoje, vou correr 8 quilómetros”. Nas provas, a distância está definida, por isso, é importante procurar outros objetivos, como o tempo. Vejam mais ou menos a que velocidade costumam correr em treino e exijam mais de vocês numa prova. Exemplo, se costumam
fazer, em treino, 10 quilómetros numa hora, então, em prova, tentem baixar esse valor para os 58 minutos. O objetivo deve ser alcançável, realista, e não muito distante do vosso valor. Em corrida, a evolução deve ser progressiva, e faz-se tudo step by step, sem pressas. Lembrem-se: vocês não são profissionais da coisa.

4. Não se encostem ao passeio
Quem corre a ritmos mais baixos tem muitas vezes a tendência para se chegar a um extremo da estrada, para dar espaço a que os mais rápidos passem pelo meio. É um erro. Quem corre mais rápido tende a tentar fugir das multidões precisamente pelas faixas, pelos passeios, e nunca vai a ziguezaguear pelo meio. Por isso, e se não quiserem ser atropelados pelas lebres, corram pelo meio da estrada. Os rápidos
encontram forma de passar por vocês.

5. Cuidado com as garrafas no chão

As zonas de abastecimento são fundamentais (não falhem nenhuma, mantenham-se hidratados) mas podem ser perigosas. É provável que sintam que estão em perigo quando vão tentar apanhar uma garrafa, e passa por vocês alguém a abrir ou vos dá um encontrão. Há também quem grite para os atletas que vão a beber tranquilamente a sua água, pedindo-lhes que não bebem junto da zona de abastecimento, porque podem estar a atrapalhar outros atletas. Eu acho que o perigo maior está no chão, na quantidade de lixo que costuma acumular-se. Muitos
atletas atiram garrafas meio cheias para o chão, muitas vezes tapadas. Se alguém as pisa sem vê-las pode perfeitamente torcer um pé. Já me aconteceu numa meia-maratona, e fiz um entorse que demorou oito meses a curar. Por isso, muita atenção quando passarem no abastecimento. E depois de beberem água esvaziem a garrafa e nunca a tapem antes de a deitarem fora. De preferência, atirem-na apenas
para os caixotes do lixo que há nas zonas de abastecimento, mas se as atirarem para o chão nunca as tapem. Assim, se alguém as pisar elas são facilmente esmagadas e ninguém se magoa.

6. Cuidado com as assaduras

Domingo, na Corrida Montepio, devem estar uns 20 graus, o que pode ser uma temperatura elevada para muita gente. Pensem que vão correr durante 50 minutos a uma hora, que vão suar muito, e, provavelmente, vão poder ficar com algumas zonas assadas, sobretudo nas áreas onde há mais fricção, como as axilas, virilhas ou mamilos (no caso dos homens). O que faço sempre é usar o mesmo creme gordo que uso nos pés (para as bolhas) para o espalhar por essas áreas, abundantemente. Resolve o problema. No caso dos mamilos, outra opção é colar uns
pensos para evitar a fricção. Também o faço, sobretudo em provas longas, como maratonas ou meias-maratonas.

7. Aprendam a destralhar

Há cinco ou seis anos, corria com quase todos os gadgets possíveis. Levava o telefone num armband, auriculares nos ouvidos para ouvir música, relógio, pedómetro, boné, uma cena no pulso para as chaves e sei lá mais o quê. Problema: ia o tempo todo com preocupações extra corrida. Ou a música parava, ou o relógio não apanhava sinal, ou os auriculares estavam a fazer mau contacto, ou a chave ia a saltitar e fazia barulho, os óculos embaciavam. Isto levou a que não conseguisse desfrutar realmente da corrida. Então, comecei a destralhar, a livrar-me de tudo. Primeiro foram os óculos, depois os auriculares, depois o telefone, e a verdade é que hoje corro apenas com um relógio, nada mais. É tudo o que preciso. Não uso aplicações de redes sociais durante a prova, não ouço música, não me preocupo com nada, apenas em correr, sentir a prova, as pessoas, ouvir os ruídos da corrida, viver verdadeiramente a corrida. E sou muito mais feliz assim. E vou muito mais despreocupado. Outra consequência: comecei a correr muito mais
depressa, porque me consigo focar unicamente no que é importante e não na música que está a passar ou no mau contacto dos auriculares.

8. Não corram contra ninguém

“Eu não acredito que ali à frente vai aquele senhor que deve ter uns 80 anos”. É, pensava muitas vezes isto quando corria. Olhava para os outros, via-os melhor do que eu, e isso de alguma forma frustrava-me. Aprendi isto: na corrida, nunca julguem alguém pela aparência, porque o que verdadeiramente interessa vocês não sabem, que é o que aquela pessoa treinou para estar ali. Na corrida não há milagres: corre mais e melhor quem treina mais e melhor. Se vai um senhor de 80 anos à vossa frente é porque esse senhor treinou muito mais e melhor do que vocês, conformem-se. Querem ir à frente dele, treinem mais. Ainda na última maratona de Lisboa isso me aconteceu. Fui ultrapassado por muitas pessoas que, aparentemente, tinham pior condição física do que eu. Mas não tinham, prova disso era estarem a ultrapassar-me. Por isso, o mais importante é correrem convosco, ou contra vocês mesmos, e não contra quem quer que seja. Definam um objetivo e lutem por ele, não tentem ultrapassar aquele gordinho que vai 100 metros à frente ou a avozinha que acabou de passar por vocês. Cada um corre a sua corrida, e correr é, sobretudo, uma luta interior e pessoal.

9. Peçam a alguém para vos esperar na meta

Ter alguém à nossa espera, sabermos que vamos ter uma pessoa especial a puxar por nós no percurso é um fator de motivação crucial, que pode muitas vezes fazer a diferença entre superarmos ou não superarmos o nosso objetivo. É fundamental que os portugueses percebam que as pessoas que correm são pessoas que procuram ser mais saudáveis, procuram levar um estilo de vida mais equilibrado, são pessoas que procuram superar-se, que estão a lutar na estrada por um objetivo, e não são apenas uns malvados que se juntaram e que obrigam a que o trânsito esteja cortado. É uma tristeza ver como em Portugal continua a ver-se como um frete esta coisa de ir para a estrada puxar pelos corredores. Lá fora, os corredores são heróis. Há sempre milhares de pessoas a puxar por nós, a chamar pelo nosso nome, há cartazes de apoio, gente a levar-nos água, uma coisa inexplicável. Cá, é possível corrermos 20 quilómetros sem que exista um português a aplaudir os corredores (digo português porque na Maratona de Lisboa 70 ou 80 por cento das pessoas que nos estavam a incentivar eram estrangeiros, uma vergonha).

Agora, corram, divirtam-se e domingo estamos lá na Corrida Montepio.

Texto escrito em parceria com o Montepio.

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