A capa (e os tomates) do i

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Ontem de manhã o assunto viral do dia foi uma capa de um jornal. Um jornal, sabem, aquela coisa feita num papel que suja ligeiramente as mãos e onde jornalistas publicam notícias e histórias. Pois, isso mesmo.

A capa era esta, e era do jornal i, onde já tive o privilégio de trabalhar há uns anos.

Capa i.jpg

Eram dezenas as pessoas a partilhar esta capa no Facebook. Tenho centenas de amigos jornalistas, e muitos deles estavam deliciados com a escolha editorial, quer do tema, quer da foto, quer da frase em manchete. Mais do que uma notícia, uma história, o i vendia um statement.

Claro que a euforia durou apenas uma ou duas horas, até alguém ter colocado a circular esta mesma imagem, mas numa capa de uma revista espanhola chamada “Refugiados”, publicada em 2007. Outros jornalistas foram atrás da identidade da foto para tentar perceber de quando era, exatamente, e perceberam que a foto era de 2002. Pronto, de repente o jornal i passou de genial a copião. Podem ver aqui as duas capas:

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Eu fui um dos muitos que partilharam a capa, mal a vi, logo bem cedo. Achei tudo perfeito. A foto, a frase, a opção editorial de não colocar mais nada na capa. Percebi o tal statement, o posicionamento, e foi isso, sobretudo isso, que me deixou impressionado. Admito que não fiquei totalmente surpreendido por uma razão: há muitos anos que o i faz capas brilhantes, geniais, por isso, esta era apenas mais uma, particularmente feliz e bonita.

A única coisa que me fazia confusão era o facto de nenhum outro jornal ter puxado por uma foto tão boa. Como é que havendo aquela imagem nas agências só o i teria tido o bom senso de a puxar para a capa. Não percebia. Entendi depois.

Quando começou a circular a capa da outra revista, com a mesma foto, senti um ligeiro desapontamento, que durou alguns segundos. Foi o tempo de conseguir interiorizar o assunto. Sou jornalista há muitos anos, já fiz centenas de capas de jornal, sei como as coisas funcionam, sei o que é isso de ter de escolher uma foto, e percebi rapidamente que os responsáveis do i não se agarraram à tragédia do dia, quiseram, sim, falar da tragédia do momento, que já começou há muitos anos. Para ilustrar esta continuada e gravíssima crise que se vive no Mediterrâneo, procuraram a melhor imagem. E a melhor imagem é a que escolheram. Interessa muito pouco se tem um dia, uma semana, um ano. É a foto. Não acho que a repetição da imagem retire valor à opção do jornal. Essa, é louvável. Numa altura em que os jornais dependem cada vez mais das vendas, em que se procuram os assuntos mais sexy para aumentar a circulação, o i teve o mérito de, por um dia, esquecer tudo isso e alertar toda a gente para o que se vive no Mediterrâneo. Neste dia, não houve tricas políticas, BES, futebol, governo e António Costa. Houve uma não notícia, uma chapada na cara, uma wake up call, e isso vale mais do que uma foto que, vai-se a ver, e não é do dia. É também preciso entender que a foto, não sendo nova, foi-o para quase toda a gente. Se em cada mil leitores do i houver um que já a conhecia diria que é muito. Ou seja, valeu a pena surpreender a manhã de 4.995 pessoas e defraudar ou cinco que já deviam conhecer a imagem.

Numa altura em que se discute tanto a função do papel, das publicações em papel, da importância do papel, da guerra entre o papel e o digital, são capas como a que o i fez que nos fazem querer muito que o papel continue, que os jornalistas que fazem papel continuem nesta luta. Há dias em que vale a pena, como o de ontem.

Um abraço de parabéns aos meus ex-companheiros do i.

18 Comentários

  1. Será que vale mesmo? Não seja idiota, pois é óbvio que não vale, nem nunca valerá!

    Podia enumerar um rol de razões pelas quais nunca poderia valer o mesmo, mas basta apenas apontar que nunca, mas nunca, esta vida irá produzir seja o que for pela Humanidade!

    Enfim uma grande patacoada digna de um verdadeiro pasquim….

  2. Não concordo com a capa. É sensacionalista e não discute o problema. Traz demasiada sensibilidade, quando é necessário ter tomates para olhar além disso e conseguir discutir o problema com sobriedade e seriedade (e sem cair no argumento ad Hitlerum -> “És um Nazi”).

    A vida daquele senhor vale 5.000€. É o valor que pagou a alguém sem escrúpulos para o levar até determinado sítio, contando que entra na Europa porque os europeus o irão salvar.

    A perspectiva de salvamento e de que a Europa não virará costas, levará a que outros tantos paguem 5.000€ para ter esta possibilidade, enriquecendo ainda mais “o” alguém sem escrúpulos, ou pior, alguém que utilizará o dinheiro para o próximo atentado em solo europeu.

    Sendo trágico, é altura de parar este movimento para não alimentarmos quem se aproveita da miséria humana. E é por isso que vejo com bons olhos a ideia de um ataque militar que destrua os barcos utilizados para este efeito.

    Por último, todos somos capazes de olhar para a foto e ficarmos sensibilizados por ela, mas somos verdadeiramente sensíveis ao acolhimento e integração de emigrantes? E aceitamos facilmente que seja gasto dinheiro em emigrantes numa altura em que se cortam apoios sociais em todos os países?
    Acho que não encaramos (ou queremos encarar) estas questões porque esta realidade se passa em Itália, Grécia…relativamente longe.

  3. O objetivo de reutilizar a capa não terá tido como objetivo lembrar às pessoas do mundo ocidental (neste caso especificamente de Portugal) que as vidas de pessoas não brancas pouco nos importam?Perdemos uns segundos a ficar triste ou chocados e depois esquecemos. Basta ver a importância que demos e que os media deram à tragédia do avião da german wings (não estou a dizer que não foi terrível) e a atenção que demos ao massacre numa universidade no Quénia feita pelo Boko Haram.

  4. Eu compreendi o que o Arrumadinho quis dizer e concordo inteiramente. Está-se cada vez mais a perder a prática de comprar jornal em papel. Eu sou uma acérrima defensora dos jornais e revistas em papel. Acho até, no que às revistas diz respeito, que se perde imenso lê-las online, sobretudo pelas imagens, parece que há sempre qualquer coisa que não passa. Há até hábitos que se criam com a leitura em papel. Ler o Expresso aos Sábados de manhã numa explanada, chegar a casa e desfolhear curiosa uma revista que adoro, são simples prazeres que, na minha opinião, desaparecem com as versões online. Espero, mesmo, que as versões em papel não despareçam, até porque acho que há e haverá sempre um público para as mesmas.

  5. Vindo de alguem que lançou uma revista… Digital, é um comentário… Estranho.
    Jornal é jornal, seja em papel, digital, ou papiro. O que interessa é o conteúdo, a informação, a isenção. Que se diga, são características afastadas do jornalismo de hoje, mais preocupado com agendas e favores do que em exercer o 4º poder com responsabilidade.
    A foto? Puro populismo e choque barato. Ver o senhor pendurado na boia é para o lado que durmo melhor. Preocupam-me mais os que morrem no deserto, e desses nem números há. Mas pronto, a teleobjectiva não chega lá, por isso não são preciso tomates para encarar esse problema.

  6. Desculpe a mudança de tema, mas o que aconteceu à NIT? Agora é só no facebook? Gostava muito….agradeço informação.

  7. Não queria parecer irónico. Queria apenas lamentar o facto de, hoje, ninguém ler jornais em papel, que achem, inclusive, que os jornais em papel não fazem sentido ou já morreram. Tenho pena que assim seja.

  8. Não conhecia a fotografia, e a sua utilização pelo i está muito bem conseguida (e muito melhor posicionada que a outra publicação).

    No entanto, estou em profundo desacordo contigo (desta vez) quanto à irrelevância da data da fotografia. Porque num mundo cada vez mais sentimental, alimentado por sound-bytes e sedento de informação rápida e fácil (já “mastigada”, de preferência), as imagens valem muito. E se, neste caso, a imagem contiunua a reflectir uma situação actual, outras haverá que não o fazem, em que aquilo que se reporta “precisa” de uma fotografia jeitosa.

    Imagina uma fotografia do 25 de Abril a simbolizar a manifestação de hoje da Carris. Ou as urgências de um hospital de há 20, 10 anos como se fosse a Estefânia. Exemplos extremistas, é certo, mas o meu ponto é que não vale tudo para vender, não vale tudo para equiparar situações, porque por detrás está algo subjectivo que é a selecção da fotografia “adequada”, não real – apenas com imagens reais podes tentar passar (e mesmo assim é tentar!) a realidade. Se nem nisso podemos confiar, o que nos resta?

    A comunicação social já deixa tanto a desejar a nível de rigor, acho um perigo abrir-se a porta para que distorça a opinião pública através de imagens ecolhidas a dedo. Repito, neste caso não altera em quase nada, mas haverá tantos outros em que isso não é admissível que eu não consigo concordar com a prática. Se não é justificável em todos os casos, não deveria ser em nenhum.

  9. Eu sigo o teu blog e leio-te já há algum tempo. Mas às vezes desapontas-me com alguns “à partes” sem sentido.
    “Um jornal, sabem, aquela coisa feita num papel que suja ligeiramente as mãos e onde jornalistas publicam notícias e histórias. Pois, isso mesmo.” – o que é isto?!?!? Tudo bem que hoje em dia há muita gente que lê jornais online, mas isso não quer dizer que sejam tontinhos e já não se lembrem do que é um jornal em papel. Ou só te lêem miúdos de 15 anos que já não são da geração “em papel” e é para eles que te diriges? Desculpa, mas parece que estás a chamar burros, tontos, desatentos, esquecidos, parvos aos teus leitores e não gostei. Parece que te sentes superior ao escrever estas frases disfarçadas de ironia fingida. “As pessoas não entendem ironia”, aposto que é o que estás a pensar. Às vezes cai mal. Não és o único jornalista no mundo, para achares que podes dizer coisas destas e muito menos a única pessoa no mundo que sabe o que são jornais em papel. Querias parecer irónico, só pareceste pedante.

  10. A foto pode ter 13 anos, e ter sido reutilizada pelo i; e o que mais entristece e’ que o que retratava em 2002 continua a espelhar o que se passa nos dias de hoje.
    Isso, sim, incomoda. Enfurece – e e’ e de aplaudir a decisao do jornal em querer debater algo que muitos ja parecem querer esquecer, dias apos centenas terem morrido no mar, como muitos ja morreram, e vai continuar a acontecer..

  11. Confesso que não conhecia a foto, e mal dei com essa edição do I, parei para a ver melhor. E mais, fiquei tão curiosa que comprei o jornal, uma coisa que não faço habitualmente. Por isso, e independentemente da foto não ser actual, o objectivo foi conseguido. Estou certa que não fui a única a parar, impressionada, a olhar para a capa. E qualquer coisa que nos arranque uma emoção, como esta capa tão bem faz, só pode ser algo que valeu a pena, não é?
    Quanto ao I, concordo contigo quando dizes que têm algumas das melhores capas. Ok, já escrevi capa uma carrada de vezes mas teve mesmo que ser. :p
    Como disse não compro jornais habitualmente, mas quando o faço a escolha recai invariavelmente sobre o I ou sobre o Diário de Notícias.
    P.S. Estou feliz que tenhas voltado aqui ao blog de forma mais assídua. 🙂
    http://www.letirose.com

  12. Desta vez estou em desacordo contigo. Apesar de não conhecer a imagem e estar a ter conhecimento da situação em primeira mão através deste teu post, discordo que em alguma circunstância valha a pena defraudar um leitor que seja apenas.
    As pessoas estão cansadas de ser enganadas no seu dia a dia, seja pelo governo, OCS, marcas, outras pessoas, o que seja, e por isso estão pouco tolerantes (e com razão) quando acham que as estão a tentar enganar.
    A não ser que a reportagem seja a falar da crise que se vive no Mediterrâneo há anos e não especificamente da tragédia do último Domingo, sou da opinião que um jornal como i tinha a obrigação de ter em atenção a imagem, uma vez que esta também faz parte do conteúdo da notícia, apesar de o essencial ser alertar para a situação dramática que se vive. Até porque muito provavelmente não devem faltar imagens relativas à tragédia que se viveu no último Domingo…
    Abraço

  13. Adoro a capa e o propósito de “chapada na cara” funcionou muito bem. mas nas quatro páginas que deram ao tema deviam mencionar quando a foto foi tirada. O tema permanecia actual, mas nenhum leitor se sentia enganado. Acho que foi a única falha!

  14. Adoro a capa e o propósito de “chapada na cara” funcionou muito bem. mas nas quatro páginas que deram ao tema deviam mencionar quando a foto foi tirada. O tema permanecia actual, mas nenhum leitor se sentia enganado. Acho que foi a única falha!

  15. As prioridades deste mundo andam invertidas é essa a conclusão a que chego. De repente é mais importante o jornal ter usado uma foto antiga do que a mensagem que passou.
    Esquece-se logo a tragédia e passa a ser tema de conversa a indignação sobre um possível plágio, a meu ver sem sentido, porque a capa fantasticamente conseguida é uma mensagem não uma notícia, é um alerta, um abre olhos, um abanão.
    As pessoas têm tanto medo de falhar, de não serem vistas, ouvidas e reconhecidas que gastam o seu tempo a apontar os erros dos outros de forma destrutiva.
    Atiram pedras e pedregulhos a todos os que se atravessam ou acham que se atravessam no seu caminho e desdenham de quem tem sucesso, moem-se de inveja e espumam impropérios a toda a hora e momento como se fossem os juízes do universo ou como se o universo lhes devesse alguma coisa.

  16. Boas!

    Faço parte das pessoas que acharam a capa do i genial. E faço parte das pessoas que ficaram desapontadas com a existência de uma capa anterior. Não apenas pela imagem como pelo texto que é semelhante. Vi uma foto boa (não tão brilhante) actual que “ninguém” usou, o que é pena. E acho que este tema não pode ser resumido à imagem. Isto na minha modesta opinião.

    A reacção das pessoas, defendendo que isto é irrelevante, mostra que o tema mexe com as pessoas. As pessoas focaram-se na temática e relegaram para segundo plano a importância da capa.

    Agora, se o tema fosse outro, tenho a certeza de que o i seria “atacado” e ofendido. E isto deixa uma questão no ar: o que aconteceu é desculpável nesta situação ou em todas?

    homem sem blogue
    homemsemblogue.blogspot.pt

  17. Com esta polémica do plágio o que tenho mesmo pena é que se tenham desviado as atenções do assunto que realmente importa e que apesar de tudo, infelizmente, é actual. Para mim, o principal ponto negativo foi mesmo esse.

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