A demissão de Vítor Gaspar

24
355

A notícia que muita gente queria ouvir, mas que, penso, poucos esperavam chegou ontem com a demissão do ministro das Finanças, Vítor Gaspar. As redes sociais encheram-se de piadas e toda a gente festejou esta saída como se a mesma significasse o fim da crise ou um regresso à normalidade, quando a normalidade sempre foi, e muitos parecem não querer ver isso, uma vida com grandes dificuldades, pensões baixas, salários baixos e uma economia lenta – isto, antes das Troikas e de Passos Coelho.

Não vejo Vítor Gaspar como o grande culpado de todos os problemas do País. Acredito que tudo o que fez foi para bem do País, porque acreditava que a política que estava a seguir, embora nos levasse por trilhos duros, e nos obrigasse a grandes sacrifícios, no fim, no pós-Troika, deixar-nos-ia com uma Economia mais forte e com umas Finanças mais equilibradas. Mas Vítor Gaspar errou. Errou muitas vezes. Enganou-se quase sempre nas previsões que fez, não conseguiu cortar no défice nem no desemprego, não conseguiu equilibrar os cortes com o crescimento económico mas teve o mérito de pacificar a Troika e, com isso, passar aos mercados uma imagem de um Portugal cumpridor e diferente da Grécia, que foi, talvez, das únicas vitórias pessoais e políticas que teve nestes dois anos.

Mas esta é outra questão: muita gente não sabe do que se fala quando se fala de reforma do Estado. Exigem isso, mas não querem despedimentos na Função Pública, não querem cortes em nenhum sector, acham que o problema da despesa pública se resolve se os deputados passarem a beber água da torneira em vez de água engarrafada e se os ministros passarem a andar de transportes públicos em vez de usarem carros de serviço. A grande fatia da despesa do Estado é com salários, e a reforma do Estado só se faz, e só tem efeitos, com uma reforma de toda a Função Pública, que terá de ser reduzida. Agora, quem é que tem a coragem de fazer isto? Passos Coelho achava que sim, mas, agora, acho que pensa duas vezes. Lembro-me de o ter entrevistado, antes de ele ser primeiro-ministro, e muita da nossa conversa andou à volta disto: da retirada, progressiva, do Estado da Economia, da redução efectiva de trabalhadores do Estado, princípio básico do liberalismo, que ele defende. Mas uma coisa é defender esses princípios, outra, bem diferente, é pô-los em prática. Acredito, sinceramente, que será esse o caminho a seguir caso Passos Coelho tenha tempo, mas não acho é que ele venha a ter esse tempo.

Os problemas de Portugal não se podiam resolver nestes dois anos em que estamos dependentes da Troika. Mesmo que todas as previsões de Gaspar tivessem sido correctas, mesmo que o desemprego não tivesse chegado aos 18 por cento e andasse pelos 14 ou 15, mesmo que neste Governo estivessem os melhores ministros do Mundo, tenho a certeza de que, hoje, o País exigiria a demissão do Executivo e estaria insatisfeito com as políticas, porque ninguém está satisfeito com uma política de cortes, com diminuição de salários ou pensões.

Ou seja, muito honestamente, acho que é absolutamente indiferente a saída de Vítor Gaspar. Acho que não vai mudar rigorosamente nada na situação do País nem na vida das pessoas. Um ministro das Finanças debaixo de um plano de ajuda externa é apenas um gestor de fundos, um negociador com a Troika, e nunca um elemento activo na execução de uma política. Por isso, Maria Luís Albuquerque vai ser o mesmo que Gaspar foi: lenha para a fogueira. Dou um mês para que se comecem a ouvir coisas como: esta é pior que o outro. O sound-byte virá do PS, do PCP ou do Bloco e irá chegar cá fora, será repetido por todos. Fazer política é, também, isto.

A melhor capa dos jornais de hoje vai, como quase sempre em que é preciso ser criativo, para o i, um jornal em que me orgulho de ter trabalhado e que ainda tem gente muito talentosa nos seus quadros. Parabéns a quem pensou e executou esta capa

24 Comentários

  1. Texto muito bem escrito! O que me preocupa é a alternativa que se nos apresenta a este Governo… Não creio que o Seguro faça melhor! Entre estarmos como estamos/estávamos e passarmos a ter o Seguro à frente do Governo, acho que estávamos melhor com o Passos Coelho!

  2. Texto muito bem escrito! O que me preocupa é a alternativa que se nos apresenta a este Governo… Não creio que o Seguro faça melhor! Entre estarmos como estamos/estávamos e passarmos a ter o Seguro à frente do Governo, acho que estávamos melhor com o Passos Coelho!

  3. despedir na função publica? o poblema é que querem despedir dentro dos 500mil funcionarios que ganham no máximo 1000€ mas os restantes 250mil que ganham aos 2500 e por aí acima até aos gestores que ganham balurdios como 200mil e que distorcem a média esses não se fala nada…

  4. Acho que tens razão em parte, mas Gaspar e Coelho foram péssimos precisamente porque nunca fizeram aquilo que defendes. Aliás, desbarataram todo o capital de boa vontade e sacrifício que os portugueses até podiam ter quando o governo entrou em funções em aumentos sucessivos de impostos que asfixiaram o sector privado. Que belo liberalismo este… E ao fim de 2 anos (!) é que se lembram que a reforma do Estado terá de passar inevitavelmente por despedimentos na função pública? A sério? E que tal desde o dia zero negociar com a troika fundos para indemnizações a FP's, assegurando que de facto estávamos comprometidos a fazer uma reforma real e duradoura? Agora é um bocado tarde para a ladaínha do "não nos deixaram levar o barco a bom porto…"

  5. Concordo quando diz que Gaspar foi um gestor de fundos…Aliás foi um gestor de interesses dos credores.Aliás a unica coisa que ele fez bem foi satisfazer a troika(para quem tinha trabalhado e para voltará).Falhou tudo o que era previsão importante para o país. Honestamente acho que foi incompetente.

  6. Concordo com o que diz, em particular quando fala que não são os cortes na agua engarrafada que resolvem a crise, mas na minha modesta opinião (que pouco percebo de política) acho que não ficava nada mal que tivessem sido feitos (pequenos) cortes nessas áreas, só para demonstrar ao povo, aos contribuintes que não são apenas eles que estão a pagar, a fazer sacrifícios. Apesar de tudo, de não concordar com algumas das políticas deste governo, não e com a saída de Vítor Gaspar que se resolve a crise, muito pelo contrario. Como já foi dito num comentário, se estávamos a beira do abismo, com a saída de Vítor Gaspar e Paulo portas, demos mais um passo em direcção ao mesmo.
    João Sampaio

  7. Concordo com o que diz, em particular quando fala que não são os cortes na agua engarrafada que resolvem a crise, mas na minha modesta opinião (que pouco percebo de política) acho que não ficava nada mal que tivessem sido feitos (pequenos) cortes nessas áreas, só para demonstrar ao povo, aos contribuintes que não são apenas eles que estão a pagar, a fazer sacrifícios. Apesar de tudo, de não concordar com algumas das políticas deste governo, não e com a saída de Vítor Gaspar que se resolve a crise, muito pelo contrario. Como já foi dito num comentário, se estávamos a beira do abismo, com a saída de Vítor Gaspar e Paulo portas, demos mais um passo em direcção ao mesmo.
    João Sampaio

  8. Claro que o problema passa pela dimensão do Estado, nomeadamente com o funcionalismo público – e não pelos interesses obscuros das parcerias público-privadas, ou com o resgate de bancos e seus esquemas fraudulentos, and so on. Não, o problema está nos salários.
    E sim, o povinho só quer receber, o povinho (que são sempre os outros, nunca nós, credo) não paga impostos e por isso não tem que reivindicar receber nada em troca. O povinho tem é que pagar e não bufar.

  9. Parabéns ao i pela capa. Concordo com algumas das coisas que escreves. Quanto à demissão, acho apenas que é mais um exemplo de que este Governo não tem pernas para andar e que está a esticar a corda ao máximo.

    homem sem blogue
    homemsemblogue.blogspot.pt

  10. Nunca te faltou na vida… Há muita gente honesta que sempre trabalhou e agora tem muitas dificuldades para sobreviver. Pessoas que tinham 500/600 euros para governar uma casa e agora nada. Falas de barriga cheia. Enquanto formos governados por uma classe politica cheia de interesses, etc, é impossível melhorar.

  11. Que buracao que Portugal escavou para sim mesmo. Nao sei como e que vao ser os proximos anos mas penso que nao vou ficar para descobrir.

  12. Concordo com tudo o que disse. O que Vitor Gaspar fez quase a sangue frio, podia ter sido feito, em doses mais suaves, pelos seus antecessores, mas sabemos perfeitamente que não são as medidas de austeridade que ganham eleições. Desengane-se quem pensa que se o PCP ou o Bloco de Esquerda estivessem no poder, as coisas seriam diferentes. Uma coisa é a demagogia politica usada por toda a oposição com os chavões "o mais importante são os trabalhadores", "vamos acabar com o desemprego", "vamos baixar os impostos", etc…outra coisa é a realidade pura e dura que vivemos neste momento, resultado de uma governação despesista, que usou subsidios para encher os bolsos dos ricos e fazer auto-estradas em vez de criar infra-estruturas industriais que gerassem riqueza ao país, e que levou o país ao buraco financeiro que constatamos hoje. É duro o que nos têm feito passar nos últimos tempos, mas cada vez me convenço mais que tinhamos de passar por isto, para criarmos um futuro melhor para os nossos filhos.

  13. Gaspar (como este Governo) trabalham para a Europa (e interesses privados) e não para Portugal. Por isso Gaspar cumpriu a sua missão e rapidamente iremos vê-lo ser recompensado por isso quando for conhecido o seu novo cargo/função.

    As políticas têm como objectivo tudo menos o interesse do País. O estado em que nós ficamos é irrelevante para o que move este Governo que é, claramente, um fantoche de outros interesses.

  14. Mais uma vez uma opinião ponderada e correcta. Sem duvida alguma que as coisas poderiam ser melhores se a grande maioria pensasse ou formasse uma opinião equilibrada como a tua. E o problema de muita gente: pensam a quente e não se informam!

  15. Para mim o balanço do Gasparzinho acaba por ser positivo. Os erros nas previsões pesam muito menos do q tudo o resto que fez. As pessoas não gostam dos cortes? Claro que não. Mas também não percebem que estamos a um passo do abismo.
    Para mim esta saída não e indiferente. Para mim esta saída e um passo na direção do abismo. Do desnorte.

    Tudo o que não precisamos e de uma crise politica e de corrida desenfreada pelo poder. Mas e o que infelizmente agora vai acontecer mais mês menos mês.

  16. Concordo com praticamente tudo, e digo mais: não sei por que razão o Passos Coelho não foi mais longe em algumas das suas políticas, o que eu sei é que basta o homem dar um passo para ser acusado de ser fascista. O que o povinho quer é receber, receber, receber sem ter de dar nada; toda a gente com direito a tudo, ninguém com deveres de nada.

DEIXE UMA RESPOSTA