A história do Vítor (para terminar)

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No post sobre o 11 de Setembro contei por alto a história de Vítor Jorge, o Mata-Sete, o assassino da praia do Osso da Baleia, o maior mass-murderer da história criminal portuguesa, o homem que na noite 3 de Março de 1987 matou sete pessoas, entre elas a mulher, a filha mais velha, a mulher por quem estava apaixonado, o namorado dela e três amigos. Recebi, depois, vários comentários a pedir-me para contar o final da história. Não era o objectivo do post, mas, pronto, não quero que fiquem aí cheios de curiosidade, por isso, cá vai. (quem não leu o post vá ler, para ficar com um melhor enquadramento)

Em todo o período que esteve preso, o Vítor Jorge nunca foi tratado à esquizofrenia. Foi seguido por psicólogos, chegou a ser medicado, mas nunca recebeu um tratamento adequado a um doente esquizofrénico. Na altura, em 2001, entrevistei o advogado dele, que me disse, a medo, que temia que mal saísse da cadeia o Vítor pudesse voltar a fazer uma coisa do género, já que continuava a ter manifestações de dupla personalidade e a revelar alguns laivos de ódio e rancor. Era precisamente por aí que estava a pegar a minha história, por esse medo do advogado, que se estendia à população, aos vizinhos e, sobretudo, à filha mais nova, que naquela noite escapou incrivelmente à morte.

Mas muito mais interessante do que a minha reportagem é a história do que se passou naquela noite. Quando era miúdo, lembro-me perfeitamente do terror que sentia quando se falava no “Mata-Sete”. Lembro-me da figura daquele homem de bigode a quem chamavam monstro. Por isso, quando me fiz homenzinho, e desenvolvi uma paixão pela escrita e por cinema, resolvi apresentar uma proposta de guião para uma minissérie sobre este tema. Um canal de televisão ficou muito interessado, pediu-me uma sinopse e um guião, e eu enviei-lhes tudo. Chegámos a acordo, fechámos negócio, o projecto começou a andar, mas, por questões burocráticas (leia-se problemas de dinheiros) empancou e ainda hoje está numa produtora à espera para ser produzido.

Para quem acha a história verdadeiramente interessante, deixo a sinopse que entreguei ao canal de televisão, e que eles compraram. É um texto a modos que grandinho, mas está lá a história toda.

vitor-jorge

MATA-SETE
Sinopse

O primeiro episódio começa alguns meses antes do crime da praia do Osso da Baleia.
Vítor é casado com Carminda e pai de duas raparigas, Sandra, de 14 anos, e Anabela, de 17, e de um rapaz, Manuel, de 10. Respeitado e admirado na aldeia da Amieira, onde vive, Vítor é constantemente vexado pelos colegas no local de trabalho. Como contínuo do Banco Espírito Santo da Marinha Grande é alvo de chacota de muitos funcionários do balcão. Apesar de nunca se manifestar contra esta situação, nutre um ódio profundo pelo gerente. Este ódio vai crescendo, ao ponto de Vítor começar a pensar em matá-lo. A ele e a várias outras pessoas com quem trabalha e que o rodeiam.

É por esta altura que Vítor Jorge começa a escrever um diário secreto. Passa para o papel tudo o que o corrói por dentro. Fala da vontade em matar que cresce dentro de si. E a revolta não é apenas contra alguns. É contra a sociedade, contra a forma como a sociedade corrompe as pessoas boas. Exemplo disso são as suas próprias filhas. Vítor não suporta a ideia de a sua menina mais velha, Anabela, poder ter namoricos. No diário, manifesta a vontade de livrar a filha dessa sociedade que considera doente e acrescenta que a única forma de o fazer é matando-a. A ela, à sua mulher, Carminda, a quem nunca perdoou o facto de não se ter casado virgem, e à sua mãe, Maria da Piedade, que em criança obrigou Vítor a dormir na mesma cama em que ela fazia amor com o companheiro.

“Estou cansado de ocultar e fingir. Cansado de tanta infelicidade. Revolto-me contra tudo e contra todos. O ódio instalou-se no meu coração e substituiu de forma implacável o já pouco amor nele existente. Como posso tentar viver em paz quando desejo liquidar as pessoas da minha família?”. A frase é de Vítor Jorge, está escrita no seu diário e revela bem a guerra interior que este homem enfrenta.

Mas estas palavras também têm um efeito no próprio Vítor Jorge. Nos seus momentos de maior lucidez, ele percebe que está doente. E recorre a um médico a quem pede ajuda. O clínico começa por ignorar as queixas do paciente e recomenda-lhe apenas que se distraia. Mas Vítor conta-lhe tudo, inclusive da vontade que tem em matar pessoas. O médico passa então à fase da chacota. E sugere mesmo a Vítor que arranje uma amante para valorizar as coisas boas da vida. Mas Vítor sabia que estava doente.

Por esta altura são frequentes as mudanças bruscas de personalidade deste homem, que percebe que dentro dele vive uma outra pessoa. E que é essa pessoa que deseja espalhar a morte. Aos poucos Vítor vai perdendo forças para lutar contra o seu alter-ego, contra “o outro”, como ele próprio lhe chama.

Ainda no primeiro capítulo, Vítor Jorge conhece Leonor, por quem se apaixona loucamente. O primeiro encontro é num baptizado, onde Vítor está a trabalhar como fotógrafo amador, ocupação que tem para ganhar mais algum dinheiro. Desde o momento em que percebe que é o alvo das atenções de Vítor, a mulher entra no jogo da sedução. Durante vários dias, encontram-se, telefonam-se e dentro de Vítor vai crescendo a esperança em vir a ficar com esta mulher. Mas o sonho dura pouco. Vítor descobre que é apenas alvo de uma brincadeira, já que Leonor está de casamento marcado com José Pacheco, um militar com quem namora há muitos anos. O desgosto faz com que Vítor se deixe vencer de vez pelo “outro”.

O Vítor de quem toda a gente gosta na aldeia da Amieira deixa de existir. Foi consumido pelo Vítor do diário, o homem que só pensa em matar, “o outro”. Esta desilusão marca o ponto de viragem na história. O monstro ocupa o lugar de Vítor Jorge.
Como que a pedir desculpas por ter alimentado esperanças a Vítor, Leonor convida-o para a festa do seu aniversário, numa pequena casa em Ilha, perto da Praia da Osso da Baleia. Vítor aceita ir. Ou melhor, “o outro”, aceita ir. Vai, mas leva uma caçadeira e uma enorme faca na mala do carro.

O segundo episódio tem início com uma viagem pela infância de Vítor Jorge. No seu diário, ele conta como nasceu de sete meses, sem pai, e como foi criado pelos avós. Aos oito anos acabou por ir morar com a mãe para Lisboa, onde viveu verdadeiros pesadelos. A mãe, Maria da Piedade, obrigava-o a dormir na mesma cama que ela e que o marido, Manuel Fernandes. “Era obrigado a participar visualmente nos actos sexuais deles”, escreveu Vítor no seu diário, muitos anos mais tarde.

Com 15 anos, o pequeno Vítor tenta encontrar a sua independência financeira e arranja um emprego numa mercearia. O padrasto descobre e brinda-o com uma valente tareia.

Aos 18 anos, Vítor atravessa uma depressão profunda e muda-se para casa dos avós maternos. A situação é de tal modo grave que o rapaz chega a chamar um padre para lhe dar a extrema unção. Muito fragilizado, ainda tem forças para ir a Fátima rezar. É aí que descobre uma razão para viver: conhece Carminda, a rapariga com quem se casará dois anos depois.

O dia do casamento acaba por ser traumático para Vítor. Carminda escondeu-lhe sempre que não era virgem e a revelação só não pôs um fim à relação porque Vítor estava “demasiado preso” à mulher, como escreveu no diário. Num flash, vemos o jovem Vítor a assassinar a mulher com uma facada. Esta cena é imaginária e espelha apenas a vontade que o homem tinha na altura e o desejo que tem em 1987. Este flash antecede o regresso à actualidade, à noite de 1 de Março de 1987.

Vítor vai na sua Renault 4L a caminho de Ilha, onde se realiza a festa de aniversário de Leonor. Pelo caminho recorda a infância e vai tendo visões da mãe, da mulher e das filhas a serem mortas. “Vou tentar assassinar de uma forma brutal duas ou três raparigas e em seguida as minhas filhas”, tinha sentenciado Vítor Jorge no seu diário semanas antes.

Quando chega à festa, Vítor conhece Luís, Maria do Céu e Isabel, amigos de Leonor e José Pacheco. Mas nem por isso convive muito. Na festa, Vítor, dominado pelo monstro, é um homem completamente ausente, com olhar frio, distante. José Pacheco, o namorado da sua Leonor, é obrigado a sair mais cedo do aniversário pois tem de apanhar o último comboio na estação da Guia, por forma a estar a horas no quartel onde cumpre o serviço militar. Vítor oferece-se para o levar até lá, mas todo o grupo mostra vontade de o acompanhar. Os seis encavalitam-se na Renault 4L de Vítor, que carrega na bagagem a caçadeira e a faca de caça. Os seis vão até à estação, mas quando lá chegam percebem que o comboio está atrasado e que a espera ainda será grande. Vítor sugere, então, um passeio até à Praia do Osso da Baleia, que não fica muito longe da estação. Metem-se de novo no carro e vão até à praia.

Quando chegam, os cinco amigos saem do carro e deitam-se na areia. Leonor e José Pacheco beijam-se apaixonadamente. Luís, Maria do Céu e Isabel, já meio embriagados, divertem-se a rebolar e a atirar areia uns aos outros. Ninguém se lembra de Vítor. Ele é o único que não sai do carro. E quando sai é para matar. Abre a bagageira, tira a caçadeira e a faca. Mata primeiro José Pacheco, a tiro, e depois Leonor, com outro disparo. Aponta depois a arma ao outro grupo e aperta o gatilho mais duas vezes. Mas Luís, Maria do Céu e Isabel não morrem de imediato. Vítor persegue-os e bate-lhes com um barrote de madeira, primeiro, e mata-os, depois, com a faca de mato. O homem lava o sangue das mãos com água do mar, volta para o carro e escreve a última folha do seu diário. Arranca-a, vai até junto do corpo de Leonor e coloca-a no bolso da mulher. De seguida, Vítor agarra nos corpos de Isabel e Leonor e empurra-os para o mar. Os outros deixa-os estendidos na areia. Volta ao carro e regressa a casa.

No caminho, Vítor é um homem sério, sereno, sem o mínimo sinal de remorsos. Tem a camisa e a cara completamente ensanguentados. Chega a casa ainda antes das duas da manhã. Entra, vai até ao quarto e a mulher assusta-se quando o vê coberto de sangue. Vítor, dominado pelo monstro dentro de si, diz à mulher para se vestir porque precisa que ela o vá ajudar a recolher o corpo do homem que acabou de atropelar na estrada. A mulher acompanha-o, em pânico. Passa pelos quartos dos filhos e despede-se deles com um beijo na testa. Entra no carro de Vítor e fazem-se à estrada. Vítor pára pouco depois do sinal que indica o início da freguesia de Amor, a poucos quilómetros de sua casa, à beira de um pinhal. Vítor diz à mulher que o corpo do homem está junto às árvores. A mulher entra na escuridão, o homem vai atrás. Ele liga a lanterna apenas para a ver e mata-a à facada. Regressa ao carro, marca o local onde deixou o corpo da mulher com um tijolo, que deixa na berma da estrada. Vítor volta a casa.

Quando entra, já a filha mais velha, Anabela, está a pé, preocupada porque os pais sairam tão tarde. Assusta-se quando vê Vítor ensanguentado. O pai conta-lhe a mesma história. Fala-lhe do homem que atropelou e pede-lhe para ir com ele, para ajudarem a mãe, que está no local. Anabela veste-se à pressa e acompanha o pai. O fim não é muito diferente. O corpo de Anabela fica estendido ao lado do da mãe. Mas a facada do pai não foi suficiente para matar a filha. Anabela não morreu de imediato e lutou pela vida mais uns minutos. Vítor regressa a casa e, minutos depois, volta ao pinhal, acompanhado por Sandra, a filha mais nova. Leva-a para o interior da mata e é então que Anabela, num último suspiro, grita para Sandra fugir. A menina vê a irmã coberta de sangue e a mãe morta e desata a fugir. Vítor persegue-a de faca em punho.

O terceiro episódio começa nos dias de hoje, em 2001, com Vítor Jorge a sair do Estabelecimento Prisional de Coimbra. Condenado a 20 anos de prisão, cumpriu apenas 14 e foi libertado, por bom comportamento. À sua espera está Manuel Jorge, o filho mais novo, agora com 24 anos. Vítor, que narra a história, conta como Manuel sempre foi a pessoa que mais amou no mundo e como era a única que pretendia poupar naquela trágica noite de 1 para 2 de Março de 1987.

A acção regressa ao passado, ao pinhal, onde Vítor persegue a filha. Sandra foge durante algumas dezenas de metros mas o pai apanha-a. Quando se prepara para a matar, a miúda pede piedade e apela ao coração do pai que está em cima de si, com uma faca encostada ao seu pescoço. Pela primeira vez, “o outro” é vencido por Vítor Jorge. Há um momento de grande tensão. Vítor vai ou não matar a filha? Sandra usa o argumento fatal. Sabendo que a pessoa que o pai mais ama é o irmão Manuel, a rapariga apela a Vítor Jorge para a deixar sobreviver, porque o mano mais novo precisa que alguém tome conta dele. “O outro” é derrotado por Vítor Jorge. O homem liberta a filha, desata a chorar e pede à miúda para ir chamar a GNR à localidade mais próxima. Vítor fica em profundo desespero, sozinho, no meio da mata, a chorar e a questionar-se sobre o que tinha acabado de fazer. Vítor diz que quer morrer, que merece morrer. O homem ainda tem tempo para ir a casa, agarrar no seu diário e metê-lo num envelope. Cola uns selos, leva-o consigo e sai novamente de casa.

A acção é retomada no dia seguinte, na Praia do Osso da Baleia, com a polícia a descobrir quatro corpos, três nas dunas, um dentro de água. Só o corpo de Leonor não aparece. Vemos depois a GNR a recolher os cadáveres de Carminda e de Anabela, no pinhal, em Amor. A pequenita Sandra está a ser acompanhada por um guarda, a quem vai contando tudo o que se passou.

Inicia-se a caça ao homem. Acompanhamos em seguinte, e numa rápida sequência de cenas, o enorme impacto mediático que o caso teve em Portugal. Vemos várias capas verdadeiras dos principais jornais diários da altura, com destaque para o “Correio da Manhã”. Vemos ainda as aberturas do “Telejornal” e do “Jornal da Tarde”, da RTP, que acompanharam o caso.

GNR, PSP e Polícia Judiciária unem esforços para apanhar o “Mata-Sete”, alcunha que os jornais deram a Vítor Jorge. Amigos, vizinhos e colegas dizem desconhecer o paradeiro do homem mais procurado do País. A polícia procura também o corpo de Leonor, que continua desaparecido. Vemos então Vítor, ensanguentado, embrulhado num casaco comprido, a meter o envelope num marco do correio.

Vítor é encontrado ao fim de três dias de buscas. Está ferido, desnutrido, desidratado, às portas da morte. Escondera-se atrás de um barracão velho, nas traseiras da casa onde os seus avós viviam. Foi encontrado por uma vizinha, a dona Matilde Pinheiro, que sempre desconfiou dos barulhos estranhos que ouvia vindos do barracão. A mulher avisa a polícia e Vítor Jorge é detido e internado de urgência no hospital. É nesse dia que, em Lisboa, na redacção do “Correio da Manhã”, um jornalista recebe o envelope de Vítor Jorge. Coloca-o num cesto de correspondência, não lhe dando qualquer importância.
Vítor Jorge recupera ao fim de três dias e é de imediato interrogado pela polícia, que quer saber o que ele fez ao corpo de Leonor. Vítor não diz nada. Está arrasado psicologicamente e não é capaz de articular uma palavra. Os interrogatórios continuam, sempre sem resultado. Vítor é presente a um juiz, que lhe decreta a prisão preventiva. Fica a aguardar julgamento no Estabelecimento Prisional de Leiria.

É então que em Lisboa um outro jornalista do “Correio da Manhã” vê o envelope de Vítor Jorge no cesto das cartas. O aspecto sujo e as manchas que aparentam ser de sangue chamam à atenção do repórter, que resolve abrir o subscrito. Vê o diário e começa a folheá-lo. Incrédulo, solta um grito de entusiasmo, alertando os chefes para a descoberta. Vemos depois a primeira página real do “Correio da Manhã” em que o jornal noticia que tem em seu poder o diário.
Onze dias depois do crime, o corpo de Leonor dá à costa na Praia do Osso da Baleia.

Em Dezembro de 1987 o País pára para assistir à primeira das quatro sessões do julgamento do “Mata-Sete”. O crime está fresco na memória de todos os portugueses. Numa rápida sequência de entrevistas de rua, vemos várias pessoas a pedir pena máxima para Vítor Jorge. Muitas dizem mesmo que o mais justo seria ele morrer. Era o País a pedir a condenação deste homem. Para defender “o monstro” da Praia do Osso da Baleia o tribunal chamou um advogado estagiário, Mário Ferreira, que tinha terminado o curso três meses antes. Em conversa com o cliente, Mário fica a saber que Vítor se considera inocente e que responsabiliza “o outro” pelos sete assassinatos. O rapaz percebe de imediato que está perante uma pessoa perturbada, doente. Em tribunal, apresenta a tese da inimputabilidade do cliente e pede a uma junta médica, dirigida pelo conceituado psiquiatra Eduardo Cortesão, do Hospital de Coimbra, que analise o seu cliente. Os testes duram mais de uma semana. O resultado é claro: Vítor Jorge é doente esquizofrénico e, como tal, não pode responder pelas suas acções. Quando chamado a depor, o próprio Vítor Jorge garante que não fez mal a ninguém e responsabiliza sempre “o outro” que vivia dentro dele pelos assassinatos.

O colectivo de juízes não se deixa impressionar e ordena que seja feita uma contra-análise clínica no hospital de Leiria, área de jurisdição do tribunal. Um dia apenas duraram estes testes. E o resultado foi contraditório com o primeiro: Vítor Jorge foi considerado imputável e, por isso, responsabilizável pelos seus actos.

O tribunal aceita esta análise e condena Vítor Jorge a 20 anos de prisão. Voltamos a ver as primeiras páginas dos jornais no dia seguinte à leitura da sentença.

A acção volta novamente a 2001 e à altura em que se iniciou este episódio. Manuel e o pai Vítor abraçam-se em frente ao Estabelecimento Prisional de Coimbra. Num curto diálogo percebe-se que Vítor é um homem perturbado. “O outro” continua a existir dentro dele.

1 Comentário

  1. Relembrei agora toda a historia… estive nessa praia esta tarde!!
    Conhecia bem o José (que tratava por Israel), era vizinha da Mª do Céu e conhecia a Leonor dos HUC… O Luis também conhecia de vista…
    Não lembro bem os rostos… foi há tanto tempo e marcou tanto…

  2. Hello.
    Também tive essa mesma vontade de fazer um "filme" ao ver uma imagem que remetia a um criminoso…
    é engraçado como as melhores ideias, muitas vezes, surgem de instantes assim 🙂

  3. Só um esclarecimento. O José Pacheco era namorado da Maria do Céu à vários anos e era com ela que estava de casamento marcado, e não com a Leonor. A Leonor era uma amiga que a Maria do Céu conheceu quando, nas férias escolares, foi sua colega de trabalho.

  4. Encontrei isto por acaso e não pude deixar de comentar. A Sandra, filha mais nova, tem um filho com 6anos, o Francisco, e não dois filhos. Conheço-os pessoalmente, ela, o companheiro e o filho.

    Na Páscoa de 2008, ela recebeu o Pai em sua casa, sem medo. Foram inclusive juntos ao café, ela, o Pai, o marido e o filho.

    Tanto a Sandra como a Mãe dele são pessoas fáceis de contactar e encontrar, toda a gente as conhece, mas preferem não aparecer e nunca, mas nunca se fala no tema.

    São pessoas muito frágeis e muito atormentadas. A Sandra é uma mãe super-hiper-mega protectora e nunca mais se recompôs totalmente, mas está a tentar.

  5. como psicologa quero deixar um reparo a um dos comentarios. os psicologos nao prescrevem medicacao. tal cabe aos psiquiatras. ja agora obrigada pela correcta aplicacao do termo mass-murderer. parabens pelo blog. andreia.

  6. Diagnósticos a garnel! É esquizofrenia, é dupla personalidade (que ainda não está comprovado como patologia, bem pelo contrário!)… O dificil é aceitar que alguém é capaz de matar, é muiiiito mais fácil fazer um diagnóstico à pressão, e a esquizofrenia é tão útil nestes casos! E ainda vem outra dizer que "concorda com o diagnóstico"…
    Pelo amor da Santa!
    "É perturbado"…é muito mais agradável do que pensar que era um parvalhão qualquer que tinha tendências homicidas e um dia, por ciumes, pimba! Quantos não andarão por ai!

  7. Eu vivi esta história de muito perto, ele e a filha foram fotógrafos do casamento da minha madrinha, eu vivi 30 anos em Amor, o meu pai trabalhava na altura na Amieira. Nos dias em que andou desaparecido eu escondi o medo de ele estar escondido num sotão ou num barracão perto de nossa casa!
    Ganhei um respeito enorme pelas perturbações mentais,quando conheci a lista do diário fiquei incrédula…Respeito, muito respeito
    Sandra

  8. Já agora, picuinhice era embirrar com o facto da sinopse estar escrita em comic sans, que é uma font que, no meu modesto entender, nunca deveria ser usada em ambiente profissional. Como vê, também sei ser picuinhas.

  9. Ora de nada Arrumadinho, não precisa de agradecer.
    Quanto ao facto de um blog ser ou não um órgão de comunicação social, acho desnecessário pronunciar-me; mas sempre achei que a correcção técnica fosse uma mais valia para qualquer trabalho, mesmo uma sinopse. Como escritor e jornalista que afirma ser, julguei que sabia que a verosimilhança é uma característica essencial de qualquer trabalho. Ou seja, se me ponho a escrever sobre paleontologia e não sou paleontólogo, é boa ideia investigar e até, quiçá, pedir uma revisão a um paleontólogo. Até o José Rodrigues dos Santos o faz, nos seus livros.

    Se os jornalistas, escritores e guionistas tivessem mais cuidado nesta preparação, talvez se evitassem palermices televisivas como as que tive oportunidade de assistir no Liberdade 21, por exemplo (escrito por alguém que tem luzes de direito, mas muito pouca prática, direi eu. Até os adereços eram errados: uma beca num escritório de um advogado? Vários exemplares das mesmas obras teóricas nas prateleiras? I don't think so):

  10. Em vez de agradeceres as correcções e poderes aperfeiçoar a tua sinopse, criticas um comentário onde podes aprender. E acho tão negativo que seja essa a atitude. Que o conhecimento seja visto como "um pormenor", uma "mesquinhice".
    Mas há alguns blogues onde reina este tipo de consideração pelo que pode enriquecer o conhecimento. Onde o que é escrito "é sagrado" os autores idolatrados. E é uma pena.

  11. Concordo com o diagnóstico de esquizofrenia.Por detrás destes quadros estão infâncias como a do Vítor que implicam grandes humilhações e muito sofrimento que desestruturam o funcionamento mental e a gestão das relações e afectos. Não estudei o caso nem li os resultados dos testes e relatórios da avaliação (pareço os comentadores da Tv…) mas não me parece psicopata até porque não creio que tenha um nível cognitivo elevado. O que aparenta ser uma premeditação não passa de uma sucessão de actos desajeitados, irreflectidos e fruto de uma crescente angústia. Como psi este caso é para mim deveras interessante. Sobretudo a questão do "outro". Ele ouvia uma voz que o "comandava" ou via-se como dois Vítores? Uma história horripilante mas um case study interessante para mim…

  12. Arrumadinho, era miuda e recordo-me dessa história no Telejornal. Mais um excelente post. Sem comentário possível aos comentários dos anónimos! O que retiram desta história de vida impressionante são os termos menos correctos… Enfim mudam-se os tempos, mas as vontades permanecem, como a mesquinhes por exemplo…

  13. Caro Anónimo. Este blogue não é um órgão de comunicação social, e o que eu escrevi não foi uma peça jornalística. Abordei, por alto, o caso, sem entrar em pormenores ou linguagem técnica. Se o que retirou de um post com uns 20 mil caracteres foram duas deficiências técnicas da linguagem, óptimo, admiro o perfeccionismo. Mas o objectivo era mesmo falar de uma história humana. E essa não precisa de detalhes técnicos. É por dizer "análise" e não "avaliação" que o post perde o sentido? É por dizer "junta médica" e não "corpo médico" que não foi feita pesquisa? Enfim…

  14. "Contra-análise clínica"? Fizeram-lhe análises ao sangue, foi? Ou uma perícia médico-legal, na área da psiquiatria forense? Por favor, informe-se e pesquise antes de publicar.
    Outra: a observação por junta médica é ordenada por uma autoridade pública. Se foi o arguido a pedir e a apresentar um relatório médico/psiquiátrico, não foi a uma junta médica. Pediu uma perícia particular, realizada por 3 médicos. Ou então foi realizada uma perícia ordenada pelo tribunal, realizada por 3 médicos (esta última hipótese não parece credível, visto que de seguida o tribunal terá pedido outra perícia).

    Também há que esclarecer que há diferentes tipos de perícias, conforme a finalidade. Pode destinar-se a eventualmente ponderar a medida da pena, ou a imputabilidade do arguido.

    Os jornalistas têm um dever de informação, e deviam também informar-se antes de escrever.

  15. ontem vi um filme muito bom: "o segredo dos seus olhos".marcou-me tanto que, por associação de ideias acabei por estabelecer um certo paralelismo entre o que escreveste e o que a personagem principal queria escrever. ambos relatam crimes ocorridos no passado apesar de, na ficção, o narrador ter estado no desenrolar dos acontecimentos.
    sem mais delongas, não sei se viste. caso não, acho que irias gostar.
    pode ser que um dia este guião tenha o seguimento que merece: ser, finalmente, materializado no audio-visual
    🙂

  16. Pergunta: Como não foi medicado? Pelo amor da Santa, então os psicólogos medicavam com o quê, calmantes? Anti-depressivos? Nesse caso eu levava os psicólogos a tribunal também. Para mim um doente esquizofrénico não é responsável pelos seus actos, mas sim as pessoas saudáveis que o rodeiam e que têm a responsabilidade moral e cívica de o tratar, nem que seja contra vontade do próprio. (não li a sinopse, tem que ser amanhã, numa hora com menos sono)

  17. E para que ninguém pense, que estou a defender as suas acções, nada disso.

    Pelo contrário! Obviamente que ele matou sete seres humanos, e independentemente das circunstancias ninguém tem o direito de tirar a vida a outra pessoa, e acho que sim, que deveria ser julgado por isso.

    Apenas acho que não terá sido da devida maneira.

    Tal como acho, que em muita coisa a justiça no nosso país é e está muito atrasada….

  18. Análise clínica? Sempre pensei que fosse avaliação clínica, ou melhor ainda, avaliação psiquiátrica ou psicológica.

    Análise clínica faz-se ao sangue, à urina/fezes, etc.

    Originalmente, "mata sete" é do conto popular "O alfaiate valente"; não haverá por aqui gente a confundir uma coisa com a outra?

  19. É sem dúvida uma historia que arrepia. E que se pensarmos bem, toda esta tragédia poderia ter sido evitada se a ajuda que ele tanto procurou talvez tivesse sido dada convenientemente.
    Ele procurou ajuda, procurou alguém que o ouvisse… mas ninguém se dispôs a tal.

    E é assim que estas tragédias se dão.

    Sim, são muitos SES… e se isto… e se aquilo.

    O que é certo, é que ele próprio sabia que estava doente.

    E apesar das circunstancias da vida, espero sinceramente que alguém o tenha ajudado a dominar os seus demónios..

  20. Este é um daqueles casos que não vai ter um final feliz. É digno de menção em qualquer programa de criminalidade do Zone Reality e muito mais. E nunca vamos perceber qual o verdadeiro motivo deste senhor. O ser "maluco" não explica tudo. Saber que estes psicopatas só podem levar, no máximo, com 25 anos de prisão, deixa-me com lágrimas nos olhos…

  21. Não conhecia esta história… a forma como a descreves-te está excelente,não consegui tirar os olhos do pc.
    Vejo várias histórias destas no Zone Reality passadas na Australia, o facto de ter sido em Portugal torna-a alvo de curiosidade. É certo que daria um bom filme!

  22. eu não tinha conhecimento da história , lembro-me apenas de ouvir falar uma ou outra vez , mas eram apenas curtas referências em comparação a crimes que apareceram posteriormente . por isso , quando li o outro post , já tinha sentido uma enorme vontade de me debruçar sobre o assunto e ler mais qualquer coisa .
    agora , com este , fiquei ainda mais curiosa .

  23. Arrumadinho, esta historia fatidica, relembrada no décimo aniversário do 11 de Setembro/11, adicionado às tragédias de vida, pessoais, está a por a minha dose (100mg)de Sertralina, à prova. Escreve poesia, que limpa e alimenta a alma. HÁ Mtº.,não leio,"aldeia". Obrigad.

  24. A última vez que soube de Vítor Jorge foi em 2009. Estava internado num hospital psiquiátrico nos arredores de Paris, depois de 10 tentativas de suicídio. Tinha uma namorada, Christine, que nunca soube se ela tinha conhecimento do passado dele. Entretanto já voltou a Portugal várias vezes mas foi sempre mal recebido pela comunidade. A filha mais nova deixou-o visitar as netas mas continuava sem o querer ver. O filho, Manuel, vive em Londres. É casado e já terá um filho. É o único que se relaciona com o pai.

  25. Gostei, cativou-me! 🙂

    A forma como a história se vai desenrolando está a meu ver, muito bem conseguida!

    Se fosse bem realizado seria um bom filme de certeza!
    Infelizmente ainda não vi um filme português que me cativasse realmente, pessoalmente não gosto nada das realizações portuguesas que são asneiras por todo o lado e por algum motivo faltam-lhe a essencia que um bom filme de se assistir deve ter.

    Catarina

  26. Acabei por ir investigar mais e vi agora num artigo do DN que ele acabou por imigrar para Inglaterra e posteriormente para França.Em Córsega (onde trabalhava como funcionário do aeroporto) tentou por 10 vezes o suicídio. As autoridades acabaram por receber informações sobre o seu historial por uma prima deste e desde então que está internado na ala psiquiátrica de um hospital de Côte d'Azur.

    Realmente é uma história completamente macabra, em que se devem tirar lições. Como o facto de a justiça, sistema de saúde e população em geral terem o dever de ficarem cada vez mais sensibilizadas para com as doenças psiquiátricas. E não se fazer de pessoas perturbadas motivo de chacota.

  27. Essa história está muito boa, e seria excelente se fosse bem explorada em filme. Há um filme que se chama Identity de 2003 com o John Cusak que explora o tema de múltiplas personalidades numa pessoa esquizofrénica, é o thriller muito bom. Parabéns pela escrita

  28. .. e também tenho de comentar esta..
    O chamado Mata-sete escreveu uma lista das pessoas que pretendia eliminar. Durante esse período, a Marinha Grande (minha cidade-natal) andou em pleno alvoroço, em especial aqueles que o conheciam.
    Entre eles o meu pai, que era colega de profissão (bancário) do mata-sete…
    Ainda hoje se conta essa história lá em casa e do medo em tal período, pois afinal de contas não se fazia a menor ideia dos nomes que constavam em tal lista..

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