Maratona de Nova Iorque: a aventura (parte I)

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O momento em que cortamos a meta não tem preço. A descarga de adrenalina e o descontrolo emocional são coisas que só quem já passou por isto conhece

Correr a Maratona de Nova Iorque era um daqueles sonhos que eu sabia que iria concretizar, mas achava sempre que só o conseguiria lá para os 50 anos, não sei bem porquê. Quando a minha mulher me ofereceu a inscrição para a prova — presente de aniversário — fiquei verdadeiramente eufórico (embora ela proteste sempre por estes meus estados de euforia serem sempre vividos com demasiada serenidade, sem pulos e guinchos).

No início do Verão iniciei um plano de treinos duro para tentar estar no máximo da forma em Novembro, altura em que iria correr a maratona. A coisa começou muito bem, o julho e o agosto até foram bastante produtivos, e cheguei ali ao início de setembro a conseguir registos muito simpáticos. Só que depois veio a desgraça. Aproximava-se a altura do lançamento da NiT, as reuniões passaram a ser diárias e constantes, os problemas para resolver, de todos os níveis, não paravam de surgir, e, tal como aconteceu com o blogue, também as corridas ficaram para trás.

Foi uma semana sem treinar, depois outra, com uma ou outra corrida, mas sempre coisas curtas e pouco intensas. O plano de treinos foi à vida, a forma começou a baixar e os dias pareciam cavalgar em direção à data da prova sem que eu me sentisse preparado.

A meio do mês de Setembro fui até Tomar fazer o trail dos templários. Eram 30 km, com muita subida, e achei que poderia ser uma boa prova para voltar aos meus treinos regulares. Claro que penei que nem um urso para fazer o trail com dignidade, sem muitas paragens e com um tempo decente. Consegui, mas fiquei com a certeza de que se quisesse ir a Nova Iorque fazer boa figura teria de voltar urgentemente aos treinos. Não voltei.

Vou só ali fazer a Maratona de Lisboa

Chegou Outubro e, doido com sou, achei que era boa ideia inscrever-me na Maratona de Lisboa. A minha amiga Magda Lourenço puxou por mim e pediu-me para ir a acompanhá-la naquela que seria a sua primeira maratona. Disse-lhe que sim, mas que iria fazer apenas 28 km, que seria uma etapa de preparação para Nova Iorque. Muito bem.

Partimos de Cascais, num ritmo ligeirinho, e logo aí aos quatro ou cinco quilómetros senti aquele desconforto de quem não tem treinado, com pequenas dores aqui e ali, um sinal de que o corpo se calhar não está muito virado para grandes esforços. Aguentei, superei isso, e a verdade é que nos 20 quilómetros seguintes andei sempre bem. Viemos pela marginal até Lisboa, sempre a um ritmo simpático — 5’10”, 5’20” — e cheguei aos 28 quilómetros, ali perto de Alcântara, ainda com energia e sem aquela sensação de que não aguentaria mais. Decidi que iria correr até aos Restauradores, e depois desistiria e iria para casa (a prova só terminava no Parque das Nações). Continuei. Passei pelo Rossio, com 32 km de corrida, já com o corpo a entrar na reserva, só que depois comecei a ouvir uma vozinha que me dizia: “Então, pá? Estás a 10 quilómetros de terminar uma maratona e vais desistir? Quem corre 32 corre 42”. Isto não é muito normal. A vozinha costuma dizer-nos, sim, para desistirmos, e temos de ser fortes para a contrariar. Mas naquele dia aconteceu o contrário. Fui em frente. Já perto de Santa Apolónia tive consciência de que não só ainda tinha algumas forças como até estava a fazer um tempo interessante, e que se mantivesse o ritmo até iria conseguir terminar abaixo das 4 horas, o que seria um recorde pessoal. Falei com a Magda, percebi que ela também estava bem, e resolvemos acelerar o passo. Ajudou o facto de nessa altura a maratona cruzar-se com a meia-maratona, e a estrada, de repente, encheu-se de corredores, o que é sempre muito mais motivador do que correr sozinho.

As pernas começaram a tremer já quase a chegar ao Parque das Nações. Ao quilómetro 41 o relógio marcava 3h53m. As pernas continuavam a doer, e não me obedeciam às ordens para acelerar. Sabia que tinha de ser mais rápido se ainda quisesse chegar antes das 4 horas. Dei tudo o que tinha nos últimos 1200 metros e consegui cortar a meta em 3h58. A Magda ainda teve forças para sprintar nos últimos 300 metros e deixou-me para trás.

A sensação de chegar ao fim sem ter treinado, só com base no esforço mental e na experiência de corrida deixou-me feliz, orgulhoso. Cortar aquela meta foi como soltar um “foda-se, consegui” vindo mesmo cá do fundo. Não há preço que pague isso, e só mesmo quem já terminou uma maratona sabe do que estou a falar.

Seis de Outubro, terminava a minha quarta maratona, segunda de 2014. Faltava menos de um mês para Nova Iorque. O treino, esse, estava mais atrasado do que nunca.

TO BE CONTINUED…

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Eu e a Madga a passarmos na zona dos Restauradores

9 Comentários

  1. Sinceramente, eu gosto é de andar de bicicleta e não percebo como correr atrai tanta gente, mas a verdade é que está para ficar e para primeira maratona menos de 4 horas não é mau (efectivo deve ser à volta de 3h:40m), portanto parabéns!

  2. Ricardo muitos parabéns pela maratona.
    Já agora, será que um dia podia fazer um post sobre os melhores acessórios para correr? Tipo os ténis mais adequados e já agora falar um pouco das meias de compressão que devemos utilizar.
    Agradeço muito e continuação de boas corridas 🙂

  3. O arrumadinho está a contar participar na Meia Maratona Manuela Machado em Viana do Castelo no próximo dia 18? Gostava muito de o ver por lá! Saudações minhotas

  4. Estamos sempre a conseguir superar-nos mas para isso é necessário que tenhamos espirito de sacrifício!
    Mais uma vez parabéns pelo rp conseguido nesta maratona! Abraço 😉

  5. O meu marido começou a correr há um ano e meio e eu segui-lhe o exemplo há uns meses. No natal lembrei-me dessa prenda da Pipoca e dei-lhe de presente a inscrição na meia maratona de Florença em abril. Eu vou fazer os 10km. Juntamos o útil ao agradável, fazemos uns dias fora sem os miúdos, numa cidade que ainda não conhcemos e damos uma corridinha 🙂
    Parabéns pela maratona, deve ser mesmo uma sensação única!

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