Benfiquistas: nunca percam a coragem de questionar, de duvidar, de confrontar

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Um adepto que contesta uma direção não é alguém que quer desestabilizar, é alguém que quer o melhor para o clube

Como quase todos os benfiquistas, foi com muita emoção que assisti em direto à cerimónia de despedida do nosso grande capitão, Luisão. O fim da carreira de um homem que vestiu por mais de 500 vezes a camisola do Benfica teria sempre de ser assinalado de forma especial, única, e foi isso que aconteceu. Não me lembro de alguma vez o clube ter feito o mesmo com qualquer outro jogador, e Luisão merece-o por tudo o que nos deu ao longo de 15 anos.

Só que agora vem o mas e vêm os porquês. Sou só eu a achar muito estranho que a despedida de Luisão tenha acontecido a uma terça-feira à tarde, num evento à porta fechada, e com as bancadas completamente vazias? Sou só eu a achar estranho que o anúncio desta decisão tenha sido feito na véspera da cerimónia, e apenas 24 horas depois de o Benfica ter jogado na Luz, com 53 mil pessoas no estádio? Sou só eu a achar estranho que Luisão não tenha tido direto a uma despedida como a de todos os grandes jogadores, com a camisola vestida, dentro de campo, e com um estádio de pé a aplaudi-lo? Sou só eu a achar estranho que o Benfica tenha renovado contrato com Luisão por um ano, que o tenha inscrito na Liga, que tenha deixado fechado o período de contratações, e no final de setembro, com a época já a rolar, isto tenha acontecido? E sou só eu a achar estranho que ninguém do Benfica tenha explicado exatamente o que é que se passou aqui, por que raio é que isto tudo aconteceu desta forma?

Luisao

Não sei se foram as vitórias mais ou menos regulares da equipa de futebol profissional, se o sucesso cada vez maior da academia do Seixal, se os bons resultados das modalidades desportivas, ou se tudo isto junto, mas a verdade é que os benfiquistas têm vindo a perder progressivamente a capacidade de fazer perguntas. Mesmo quando é fundamental que alguém as faça. Hoje, não temos de esperar pelas Assembleias Gerais para o fazer, não temos de esperar que os jornalistas o façam nas conferências de imprensa, nos flash interviews ou nas zonas mistas (até porque a maioria evita “incomodar” as figuras do futebol com perguntas pertinentes, e prefere abordagens mais simpáticas, que não deixem os meninos amuados), podemos usar as ferramentas de comunicação que temos, como as redes sociais, os blogues ou as páginas de YouTube para colocar dúvidas, para exigir respostas e explicações. O Benfica é de todos os sócios, e os sócios têm o direito de perceber o que se passa dentro do seu clube, a forma como ele é gerido. Quando um sócio faz uma pergunta, ao contrário do que muitas vezes gostam de querer fazer crer, não está à procura de desestabilizar, não está a cumprir uma agenda, está mesmo só a tentar perceber se aquela decisão faz algum sentido e se terá sido a melhor para o clube. Pelo menos comigo é assim. E eu tenho muitas dúvidas, que já venho a acumular há muito tempo, mas sinto que é este o momento de começar a falar, porque é este o momento em que sinto, pela primeira vez, que o meu clube está a ser levado por um caminho em que não me revejo, demasiado perigoso, nubloso, obscuro, e para mim o Benfica tem de ser o contrário disso, tem de ser transparente, claro, sério, honesto, profissional. Não é um Benfica de esquemas, de jogos de bastidores, de lóbis, de pressões, de jogatanas de empresários, de chico-espertices, de artimanhas financeiras. O Benfica é gigante sem tudo isso, e se há coisa que eu gostava era que toda a gente percebesse que o Benfica pode continuar a ser gigante, pode continuar a vencer tudo, pode até crescer e ambicionar ainda a mais, sendo um clube limpo, honesto, verdadeiro, assente unicamente na força e na paixão dos seus adeptos, com uma gestão séria e profissional dos seus ativos e passivos, e com uma linha de comunicação focada no que interessa: o que se passa nos relvados, nos pavilhões, nos rinques, nas pistas de atletismo. 

Assim de repente, sem pensar muito sobre o assunto, deixo aqui 10 das muitas dúvidas que tenho vindo a acumular. São só assim as mais gritantes, mas há tantas, tantas mais.

  1. Porque é que a direção do Benfica não legaliza de vez as duas claques que, semanalmente, ocupam as suas zonas nas bancadas dos topos do Estádio da Luz? Luís Filipe Vieira disse há tempos que não sabia que o Benfica tinha claques. Pois bem, eu vou ao Estádio desde pequeno, e posso então apresentá-las: senhor Presidente, fique a conhecer os No Name Boys e os Diabos Vermelhos.
  2. Porque é que o Benfica é recorrentemente um dos clubes no mundo que faturam mais em venda de jogadores e continua a ter um passivo que não anda longe dos 400 milhões de euros, um dos maiores do mundo em clubes de futebol?
  3. Como é que o Benfica tem coragem de escrever num comunicado oficial que a saída de Paulo Gonçalves se deve “a razões de natureza pessoal, em especial a necessidade de se dedicar à sua defesa num processo judicial”? Tomam os adeptos por mentecaptos?
  4. Como é que ainda ninguém veio explicar a transferência de Garay, que, ao que parece, foi oficializada por perto de 5 milhões de euros, mas, afinal, terá sido de perto de 13 milhões?
  5. Como é que um departamento de prospeção tão bom como o do Benfica traz para o clube jogadores que acabam por não jogar um único minuto pela equipa principal, e que muitos deles ficam durante anos e anos ligados contratualmente ao clube, como João Amaral, Chiquinho, Mato Milos, Patrick Vieira, Hermes, Rakip, Arango, Benitez, Marçal, Taraabt, Francisco Vera, Candeias, Salvador Agra, Mukhtar ou Harramiz? Qual é o objetivo? É certo que não é para jogarem na equipa principal, nem sequer na equipa B, senão, pelo menos, tinham a oportunidade de fazer a pré-época (e muitos nunca a fizeram, ou fizeram uma, e nunca mais tiveram essa oportunidade).
  6. Porque é que o Talisca, que era uma estrela na Turquia, e que é hoje uma das maiores estrelas na China, com um número de golos verdadeiramente impressionante, nunca mais voltou a ter uma oportunidade no Benfica? É um jogador nosso, com um valor de mercado que não deve andar longe dos 30 milhões de euros, que atua numa posição onde temos claramente carência de jogadores, e que podia perfeitamente ser titular na nossa equipa?
  7. Como é que o Benfica cede à força de Jorge Mendes, que durante anos colocou no clube jogadores sem o mínimo de classe com a única intenção de os tentar valorizar em vendas futuras, como são os casos de Filipe Augusto, Danilo, Bebé, Oscar Benitez, Jonathan Rodriguez, e conseguiu levar da Luz a preço de saldo jogadores como Bernardo Silva, André Gomes, Rodrigo, Oblak, João Cancelo ou Hélder Costa? E como é que alinha em esquemas de Mendes que promove a rotatividade de jogadores entre os clubes que domina, como o Rio Ave, Valência, Benfica, Mónaco ou Wolverhampton?
  8. Como é que o Presidente do Benfica tem a coragem de dizer numa assembleia-geral de sócios que os sócios que o contestam não merecem o clube que têm, como se o ato de contestar não significasse unicamente uma vontade de melhorar o que está mal no clube?
  9. Porque é que o Benfica afastou um dos seus adeptos mais carismáticos e queridos por toda a gente, Ricardo Araújo Pereira?
  10. Como é que o Benfica continua a alimentar comentadores nas diversas televisões como Pedro Guerra ou José Calado, que em nada dignificam o clube ou o futebol em geral? 

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