Bruno de Carvalho levou o Sporting por maus caminhos (e agora olha)

2
15075
É mais ou menos esta a imagem que tenho de Bruno de Carvalho; não um homem a festejar, mas a ameaçar bater em alguém

Quem me segue com o mínimo de atenção sabe que sou benfiquista, mas sou também apaixonado por futebol, pela forma como o futebol mexe com as pessoas e com a sociedade, por isso, sinto que está na altura de falar do grande rival, o Sporting.

Em primeiro lugar, (agora podia dizer “o Benfica”, mas seria uma piada fácil), vou referir-me ao Sporting como Sporting. Não vou fazer o que muitos sportinguistas fazem, que é chamarem “Carnide” ao Benfica, como se isso fosse uma grande ofensa, ou uma coisa altamente degradante. Acham mesmo que os benfiquistas se sentem muito ofendidos com isso? Não. É só estúpido, e pobrezinho. O Sporting é um grande clube, o terceiro clube com mais títulos de futebol em Portugal, tem milhões de adeptos e merece-me todo o respeito. Não é por ser do Benfica que penso de maneira diferente.

Agora, vamos lá ao que interessa. Nunca gostei da postura do Bruno de Carvalho. Chegou ao futebol com uma atitude hostil, de guerra, de confronto, como se essa fosse a única forma de alterar o que quer que seja. É mais ou menos o que fazem os putos bullys, que resolvem tudo na base da porrada, da intimidação, das ofensas, do levantamento constante de climas de suspeição. Tentou usar como desculpa para isso o facto de os presidentes recentes do Sporting terem tido durante muitos anos uma postura diplomática, sem que isso tivesse resultado em títulos, para dizer a toda a gente que o caminho não podia ser esse, teria de ser o do confronto e da guerra. É sobretudo por isto que não gosto de Bruno de Carvalho, nem acho que ele traga nada de bom ao Sporting nem ao futebol português.

Ao contrário de Pinto da Costa, que teve durante muitos anos uma postura parecida, Bruno de Carvalho não sabe usar a ironia, não sabe ser subtil, não sabe provocar sem ser óbvio, não tem uma argumentação inteligente, parece sempre um miúdo a fazer birrinha porque lhe querem roubar o chupa-chupa. Pior. Ao contrário de Pinto da Costa, Bruno de Carvalho não consegue legitimar a sua postura com títulos. Andar de peito feito a provocar os rivais, e a dar bicadas aqui e ali, até pode fazer sentido quando se ganha, e quando se ganha muitas vezes, agora quando se perde, e quando se perde quase sempre, parece apenas uma estratégia do desespero, de alguém que não tem ideias, não tem um projeto, não tem visão, é apenas triste e ligeiramente ridículo.

Outra linha estratégica de Bruno de Carvalho que não faz qualquer sentido é esta coisa de andar sempre com o Benfica na ponta da língua. Desde que assumiu a presidência do Sporting que Bruno de Carvalho tenta plantar a ideia de que o Benfica domina os bastidores do futebol, os árbitros, a federação, a liga, e que é por isso que ganha os títulos que ganha. E muitos sportinguistas vão nessa conversa. Mas nem todos. A isto, Bruno de Carvalho tem juntado sempre a ideia de que o Benfica é sempre levado ao colo pelos árbitros e, por outro lado, o Sporting é sempre prejudicado. Uma vez mais, muitos sportinguistas alinham nesta ideia, mas felizmente que há muita gente lúcida, e que sabe ver as coisas como elas são.

É verdade que no campeonato de 2013/2014, o Benfica foi algumas vezes beneficiado pelos árbitros. Mais do que os adversários. No ano passado, não acho que tenha havido grandes diferenças entre Benfica e Sporting — ambos foram mais vezes beneficiados do que prejudicados, mas, no final, a coisa ficou ela por ela. Agora, o que é mesmo verdade é que nos últimos três anos, o Benfica foi efetivamente melhor do que os adversários, e por isso é que foi campeão. Digo exatamente a mesma coisa em relação aos célebres anos do Apito Dourado. Sim, sabe-se que havia por ali muita corrupção e jogos de bastidores, mas a verdade é que o FC Porto era efetivamente muito melhor do que os outros, e era sobretudo por isso que ganhava.

Na época passada, o Sporting teve períodos brilhantes, jogou muitas vezes um futebol de enorme qualidade, mas perdeu o campeonato por culpa própria. Começou a perdê-lo no dia em que Jesus, de papo cheio, disse que Rui Vitória não era um treinador e não tinha mãos para guiar um Ferrari. Continuou a perdê-lo quando achou que os sete pontos de avanço que tinha sobre o Benfica davam para relaxar, e começou a perder pontos estúpidos (como aquele 2-2 em casa com o Tondela). E no fim perdeu-o quando foi derrotado em casa pelo Benfica, com o célebre falhanço do Brian Ruiz. Ou seja, os três principais fatores que levaram a que o Sporting perdesse o campeonato têm a ver, sobretudo, com erros próprios, e não com ajudas que o Benfica tenha tido.

A tudo isto, Bruno de Carvalho tem juntado uma postura pouco séria e rigorosa do lado financeiro. Se até consigo compreender a ideia de pagar 5 ou 6 milhões por ano a Jorge Jesus (um grande treinador, apesar dos defeitos), muito acima do que um clube como o Sporting pode pagar, já acho calamitosa a guerra estúpida que Bruno de Carvalho abriu à Doyen, e que vai custar 15 milhões de euros a um clube com pouco dinheiro. Uma vez mais, a estratégia foi o bullying, o ir à guerra, o não querer negociar, o dizer ao mundo que o Sporting era o herói que luta sozinho contra o mal que existe na humanidade. Pois, mas depois há regras, contratos, e essas coisas chatas que é preciso cumprir, e quando não se cumpre há coimas, indemnizações e prejuízos.

Por fim, há o lado de gestão desportiva, onde Bruno de Carvalho tem revelado competência. Contratou sempre treinadores com qualidade (Jardim, Marco Silva e Jesus), fez bons negócios (o empréstimo de Nani e a venda de Rojo), a contratação (e venda) de Slimani, o bom negócio com João Mário, a contratação de Coates, Brian Ruiz e Schelotto (não é brilhante, mas tem uma boa relação qualidade-preço), a recuperação de Bruno César ou o empréstimo de Joel Campbell. Deu alguns tiros ao lado, mas isso todos dão.

Com esta boa gestão desportiva, Bruno de Carvalho conseguiu unir os adeptos, recuperou muita confiança dos sócios, voltou a encher o estádio de Alvalade, e criou um clima incrível à volta da equipa. O presidente sempre achou que com a boa gestão desportiva conseguiria ganhar os títulos que levariam a que o seu discurso de permanente hostilidade fosse legitimado junto dos adeptos. Só que isso não aconteceu. Os títulos não chegaram, e isso muda tudo.

Ontem, não vi o jogo entre o Sporting e o Braga. Vi apenas, na televisão, as entrevistas a alguns adeptos que estavam a sair do estádio. E a quem é que quase todos apontavam o dedo? A Bruno de Carvalho. Não era tanto aos jogadores ou ao treinador. Era ao presidente. Este é o preço que se paga por se andar demasiadas vezes com o peito cheio de ar, quando não se é humilde, não se reconhecem erros, quando se culpa o mundo e não se para um segundo para olhar para dentro. Quando as promessas dão em nada, quando tudo começa a desmoronar e chega a hora de procurar culpados, já se sabe para onde é que todos vão olhar.

Há muito tempo que digo que o verdadeiro desafio do Sporting nascerá no dia em que tudo estiver a correr mal. Aí sim, se verá se os sócios e adeptos vão continuar adormecidos ou encantados com o discurso de vitimização e os contos de fadas, se todos se irão unir à volta do projeto de um homem ou de um clube. E parece-me que esse desafio é agora. Pela primeira vez desde que Jorge Jesus assumiu o comando da equipa, o Sporting enfrenta um período verdadeiramente negro: está fora da Europa em dezembro, está a oito pontos do primeiro lugar no campeonato, tem uma folha salarial muito elevada, perdeu todos os recursos do caso Doyen e tem à perna uma indemnização de 15 milhões, os adeptos começam a revoltar-se e a deixar de estar unidos à volta da equipa, o balneário já não revela a união dos tempos gordos, e o presidente começa a sofrer verdadeira contestação.

Qual é a saída? Não sei. Sei, sim, que os caminhos por que Bruno de Carvalho tem levado o Sporting são maus caminhos. E os maus caminhos levam quase sempre à desgraça.

2 Comentários

  1. Preocupa-te mais em falar do Orelhas, porta 18, corrupção encarnada… tens muito mais material para as tuas dissertações se te virares para o outro lado da segunda circular.

  2. Boa noite, li com atenção o seu texto e, sem entrar em grandes polémicas, apraz-me destacar o seguinte. Sou Sportinguista e obviamente que não concordo na forma de discurso de BC, mas ao nível do conteúdo/ mensagem que BC quer passar, está lá. Sabe quantos campeonatos ganhou o FCP entre 1984/1985 e 2011/2012? 20. Onde estava o poder do futebol? Será que existia uma clivagem tão grande que justificasse os 20 campeonatos obtidos pelo FCP? Onde está a influência do futebol actualmente com “jogadas” de bastidores e influência na Comunicação Social. Refere que “… Chegou ao futebol com uma atitude hostil, de guerra, de confronto, como se essa fosse a única forma de alterar o que quer que seja. É mais ou menos o que fazem os putos bullys, que resolvem tudo na base da porrada, da intimidação, das ofensas, do levantamento constante de suspeição”. Como lhe referi anteriormente, não concordo com a forma, mas por outro lado, tem pessoas ligadas ao SLB que têm posturas deploráveis e, que não o vejo retaliar. Diz-me “mas não é o presidente do clube”. Deixo-lhe esta pergunta “Será que o futebol português precisa de pessoas frontais e que dão o corpo às balas ou prefere que existam pessoas responsáveis que agem como toupeiras e que tudo está normal?”. Obrigado, cumprimentos PS. P.S.) na última entrevista, com 4 paginas, de LFV a um jornal desportivo, LFV falou mais de 50% de BC e do Sporting.

DEIXE UMA RESPOSTA