Com que então ninguém foi índio na viagem de finalistas, é isso?

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Quando ouvia dizer que havia pessoal a dormir na praia em Benidorm era isto que eu imaginava... é, não se confirmou

Temos muita sorte em vivermos num País em que só a nova geração é que tem índios que destroem hotéis nas viagens de finalistas a Torremolinos ou Benidorm. Felizmente, os pais destas criancinhas foram e são todos uns santos bem comportados e, por isso, há 25 ou 30 anos, quando foram às viagens de finalistas deles, passaram as tardes na praia a tocar viola e a beber Sumol e Tango, e recolheram ordeiramente aos apartamentos à meia-noite, porque na manhã seguinte era preciso acordar cedo para ir para a praia apanhar sol (mas qb, protegidos pelo protetor, e muitas vezes de T-shirt vestida e panamá na cabeça, que assim é que está bem).

Se há coisa que me irrita é isto de se achar que hoje é tudo uma merda e que antigamente é que era tudo bom, bonito e feito como deve de ser. E há aqui uma enorme diferença entre dizer isto e estar de acordo com aquilo que os putos fizeram em Espanha. Foram uns otários, verdade, fizeram merda, certíssimo, devem ser castigados pelas asneiras, pois bem, mas fizeram isto tudo porque são uns putos estúpidos, como todos éramos quando tínhamos 16 ou 17 anos. É que há relação direta entre uma coisa e a outra, entre ser parvinho e ter idade de fazer coisas parvinhas, e é essa a realidade das crianças de 16 ou 17 anos, como estas que foram à viagem de finalistas a Espanha.

Vamos à minha história. Fui à minha viagem de finalistas, a Benidorm, com 17 anos, no final do 11.º ano, ou seja, em 1992. Era um miúdo relativamente atinado, bom aluno, nunca fui dado a grandes maluqueiras, não era grande adepto de discotecas, nunca bati em ninguém, nunca tinha, sequer, apanhado uma bebedeira, nunca tinha ido para a cama com uma miúda, no entanto, naqueles dias, foi a puta da loucura. Fui para os copos todas as noites (mesmo que fosse para beber coca-colas), andei a dançar o “La Kabra” e o “No Limite” na discoteca Top of The Pops até de manhã, com um lenço na cabeça, tipo pirata, tentei beijar uma belga bêbeda (sem sucesso), enrolei-me com a Márcia, de Sines, acordei deitado na praia, e numa das noites em que dormi na sala, porque o Nuno estava no quarto, apareceu-me à frente a Patrícia, semi-nua, depois de ter pinado com o Nuno, o que foi uma cena particularmente entusiasmante.

No quarto ao lado do nosso havia festas todas as noites, houve um extintor aberto no corredor, pessoal a saltar de varanda para varanda (para aí num oitavo andar), enfim, todo um Carnaval montado, muito pouco diferente dos Carnavais que se montaram no ano seguinte, e no outro, e no outro, e no outro, até hoje.

Se há sítio para se fazer merda é em Benidorm, ou Torremolinos. Se há altura para se fazer merda é na viagem de finalistas, quando se tem 16 ou 17 anos. Atenção: não estou a dizer que tem de se fazer — eu não fiz merda da grossa, fiz só coisas parvas — o que estou a dizer é que isso vai acontecer sempre, porque os putos de 16 ou 17 anos estão na idade de fazer asneiras, da afirmação, da gabarolice perante as miúdas, de se armarem em campeões, e não há prevenção alguma que mude isto.

Cabe-nos, enquanto pais, fazermos o nosso trabalho, sensibilizarmos os nossos filhos para terem algum juízo e não se meterem em asneiras e trabalhos neste tipo de viagens, mas se formos entrar na onda alarmista e catastrófica não só não iremos impedir que estas coisas aconteçam, como vamos estar a contribuir para que os nossos filhos vivam numa redoma de proteção, onde não irão aprender com os erros nem com as asneiras, não irão dar cabeçadas na parede, não irão aprender a ser responsáveis, estaremos no fundo a ajudar a criar uma geração de totós. Eu, pelo menos, não quero isso para os meus filhos. Prefiro que façam merda qb quando têm idade para o fazer, que levem nas orelhas quando têm de levar, que a vida lhes dê uns estalos bem dados (e não eu), e com isso far-se-ão melhores homens.

11 Comentários

  1. Dá-me vontade de rir, pois existe diferença, no meu tempo os miúdos não eram arrogantes, não faltavam ao respeito aos mais velhos, também havia excessos, mas não nos sentíamos seres superiores nem tínhamos o nariz empinado, aliás no meu tempo havia sacrifício e os nossos pais nem sequer tinham dinheiro para pagar esses excessos, essas das viagens de finalistas é muito recente, nem sequer se pode chamar de tradição, pois na altura haviam festas no final do ano lectivo, pois quem tinha dinheiro para esbanjar eram os betinhos da altura. Agora que ganha com isso são as agências e os empresários de hotelaria que organizam essas viagens.

  2. Não concordo nada com essa desculpabilização dos jovens. Eu também fui para Espanha na viagem de finalistas do 12º ano, há 15 anos atrás, para Loret de Mar. Também apanhei bebedeiras com os meus amigos. Ficávamos com ressaca, riamos de coisas parvas, iamos para discotecas a noite toda, havia festas de dia, cantavamos alto, dormimos alguns dias na praia, faziamos fogueiras na praia, comiamos porcarias, pintámos o cabelo, havia namorados, flirts, fumávamos. Mas não destruimos [falo de mim e dos colegas da minha escola – uma escola pública do distrito de Lisboa – e do que vi nesse ano] apartamentos, não saltámos de varandas, não riscámos paredes, não destruimos extintores, não incendiámos coisas, não furámos o tecto dos quartos. Sabiamos os limites, tinhamos respeito (por nós e pelos outros). Divertimo-nos muito, foram dias loucos, com excessos próprios da situação, sim, mas não fui/fomos vândalos… Acho que há “merda” aceitável para ser feita aos 17 ou 18 anos e “merda” inaceitável…

  3. Discordo totalmente. Ter “direito” a fazer merdices só pq se é jovem não cabe em lugar algum como justificativa para vandalismo ou outra parvalhada qualquer. E na sua época…”saltar de varanda para varanda (para aí num oitavo andar)”… era normal? Bonito, se tivesse morrido algum aí já não era assim tão …tão…fixe! 😉
    Enquanto houverem pessoas (pais ou não) a justificarem este tipo de atitude (de miúdos do passado ou dos de hoje em dia), no mundo tenderá a haver menos respeito pelo próximo. O seu direito, ou de qq pessoa, de fazer merdices, termina quando começa o direito do outro de não ser obrigado a aceitar as merdices de putos imbecis e irresponsáveis e que nunca ouviram um NÃO dentro de casa.

  4. Infelizmente, tenho que discordar da sua visão, eu também fui a viagem de finalistas, e apesar de ainda não ter filhos, está quase, mas ainda não, espero pelo menos transmitir aos meus filhos o que os meus pais me transmitiram que é diverte-te, brinca, faz asneiras, mas com o mínimo de responsabilidade e respeito pelos outros e por ti próprio!
    Não digo que esta geração seja melhor ou pior que a minha, mas no entanto há muitas amostras de que esta é realmente muito mais mal formada, e não é em termos acadêmicos, porque agora são estudantes de “profissão” até quase aos 35 anos, do que a minha, porquê quando eu fazia asneira o meus pais não vinham me defender, vinham antes educar-me.

  5. Ser “índio” não é ser vândalo. E estes miúdos são vândalos. São vândalos na viagem de finalistas, são vândalos nos transportes públicos, são vândalos nas ruas quando deixam o lixo todo na rua e andam com colunas aos altos berros. São vândalos. Não há desculpa. E se calhar por 20 ou 30 pagaram os outros 900.

  6. Ricardo, se assim o posso chamar, somos da mesma idade, por isso da mesma geração, também fui a essas viagens de finalista que descreve, também me excedi em alguns momentos, contudo nunca estragamos nada, fazíamos a parodia na rua e na praia, sem nunca importunar o descanso das pessoas, não estou a dizer que eramos melhores, não, apenas diferentes, agora parte-se muito facilmente para a estupidez sem nunca calcular o risco. Posto isto, digo, sou diretora hoteleira, sim um hotel pequeno numa terra pequena, e também já passei por cenários idênticos precisamente com espanhóis, não queira saber o desalento ao deparar-se com o hotel “destruído”, porque simplesmente alguém se lembrou de ser otário em troco de nada… prejuízos incalculáveis, quartos desativados, reservas para check-in sem essa possibilidade, colocação de hóspedes noutras unidades hoteleiras… dinheiro nenhum paga isso, mas nenhum mesmo! Deixem-nos de desculpar o indesculpável, querem vandalizar, chamar atenção, armarem-se em os maiores, sim façam mas sem chatear minguem, o que podia ter sido soberbo, sim porque as viagens de finalistas ficam-nos para sempre na memória, não passou de uma expulsão…venha-nos Deus…gente do meu país, divirtam-se, enrolem-se, façam trinta por uma linha, mas sempre na condição de se divertirem para mais tarde recordarem.

  7. Acho mais infeliz este título. Afinal, o que é ser “índio”? É ser arruaceiro?
    Entendo o contexto, mas a comparação não é bonita.

  8. 100% de acordo! Não fui à minha viagem de finalistas, os meus pais não me deixaram com muita pena minha, por isso não vivi em primeira mão essa experiência, mas quem foi contou-me o que aquilo tinha sido. E a verdade é que tivesse sido em 1992, 2002 ou 2012 tenho a certeza que foi tudo dentro do mesmo género. Já sabemos que a viagem de finalistas é um exagero por si só. Foi assim, é assim, e tenho a certeza que continuará a ser! Se acho que os miúdos estiveram bem? Não, não acho. Se acho que devem ser chamados à atenção e até castigados por isso? Sim acho! Mas não venham ser falsos puritanos de que estes miúdos são selvagens, horríveis, e que a geração está perdida, porque se calhar antigamente não vieram uns bons grupos para casa mais cedo porque não havia a visibilidade que há agora!

    https://jusajublog.blogspot.pt/

  9. Completamente de acordo. Só que vandalismo é vandalismo. Por norma um jovem bêbado tem instintos de vandalismo, então há que prevenir. Se as viagens de finalistas têm obrigatoriamente que ser regadas com muito álcool, então o alojamento deveria ser em locais anti-vandalismo: campismo, divãs em pavilhões industriais, tendas dentro de campos de futebol. As “raves” seriam nas Arenas, em Espanha nesta altura do ano até estão livres, no meio de um pinhal etc… Assim não haveria perigo de destruição da propriedade alheia. Se as claques de futebol são tratadas como uma “manada”, os finalistas terão que ter um tratamento como “vândalos”. Mas que fique bem claro, eu também já o fui, não há problema nenhum em por uma vez na vida serem tratados como aquilo que geralmente têm tendência a ser. Eu caso fosse gerente de um Hotel, nunca aceitaria um grupo de finalistas, algum de vós aceitaria? Mas torno a repetir, eles são adoráveis, são bons moços, só que enquanto finalistas…

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