Como seria a minha vida se tivesse feito outras escolhas?

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Ontem de manhã, durante a festa de aniversário do meu filho mais velho, e enquanto jogava basquetebol contra uns dez putos, reencontrei uma ex-namorada com quem falo muito raramente, e que só vejo quando nos cruzamos (quase sempre) no metro, quando calha. Falamos durante uns minutos, apenas o tempo de chegar a carruagem que um dos dois está à espera (curiosamente nunca apanhamos o metro na mesma direção).

Quando a vi, ela vinha com o filho mais novo pela mão, e eu estava suado, sujo, todo despenteado, com uma bola de basquetebol na mão e a criançada toda a olhar para mim, à espera que eu continuasse o jogo. Lá lhes dei a bola, conversámos um pouco, mostrámos os respetivos filhos um ao outro, e ela foi para a festa de outra criança qualquer (estavam a decorrer umas dez ao mesmo tempo).

Aquela conversa de circunstância deixou-me a pensar sobre as opções que tomamos na vida, e como elas mudam mesmo tudo e nos levam para caminhos diferentes. Aquela miúda (que não é bem miúda, tem a minha idade) foi durante onze anos a pessoa mais importante da minha vida. Foram onze anos, não foram seis meses, não foi um ano, nem dois, foram onze anos. É muito tempo. E ainda por cima foram onze anos fundamentais no desenvolvimento da minha personalidade. Começámos a namorar no final do 11.º ano, com 17 anos, e separámo-nos aos 28, quando já vivíamos juntos e trabalhávamos. Na altura, e embora continuasse a sentir um profundo respeito, amizade e carinho por ela, entendi que seria melhor para os dois se nos separássemos. E foi o que aconteceu. Essa decisão, acabou por mudar a minha vida, não sei se para melhor ou para pior, mas a verdade é que mudou muita coisa.

Pouco antes dessa separação, tinha estado perante outra decisão importante. Era editor do jornal “A Bola”, uma publicação estável, onde gostava de trabalhar, sentia-me muito confortável, mas um jornal desportivo obriga a uma rotina de horários que tem muito pouco a ver comigo (entrar muito tarde, e sair muito tarde). Tive então uma proposta para ser editor-executivo no “24horas”, que estava a crescer muito, e por onde já tinha passado uns anos antes, entre 1998 e 2000. O convite vinha de um dos meus melhores amigos, com quem queria muito voltar a trabalhar, e o projeto parecia-me muito engraçado, sobretudo porque ia encontrar pessoas de enorme talento. Aceitei mudar.

No final de 2013, quando era editor na “Sábado”, apresentei à nova direção da revista um projeto que entendi ser o necessário para fazer crescer a publicação em papel que estava a editar, a “Tentações”, a revista de cultura e lazer que sai com a “Sábado”, e que agora se chama “GPS”. O projeto passava por criar um novo produto digital, na área do lifestyle, ocupando assim uma lacuna brutal que existia no mercado. Não só a minha ideia não foi acolhida com particular entusiasmo, como, uns meses depois, foi-me “proposto” que deixasse a “Tentações” e passasse a editar uma outra área da revista com que me identificava muito pouco, e que me não me estimulava profissionalmente. Dois meses depois, peguei no tal projeto mal recebido pela direção e fui à procura de um investidor que o quisesse financiar. Encontrei. Despedi-me da “Sábado” e lancei a NiT.

Mas e se em todos estes momentos eu tivesse decido de maneira diferente? Como é que seria a minha vida hoje? Seria melhor? Seria pior? Igual certamente não seria.

Tal como toda a gente, já estive perante dezenas e dezenas de situações em que é preciso decidir. Esquerda ou direita? Ir em frente ou esperar? Arriscar ou jogar pelo seguro? Falar ou ficar calado? Insistir ou desistir? Perder a cabeça ou ter juízo?

Quando penso em tudo isto, encontro quase sempre um padrão no meu comportamento: opto quase sempre pela mudança. Não tenho medo de mudar, de arriscar, de fazer diferente. Já dei muitas cabeçadas na parede, e tenho a certeza de que as irei continuar a dar, mas também tenho a certeza de que aprendo com todos os erros, e saio sempre mais forte quando me levanto após uma queda.

É engraçado como em Portugal a ideia de errar, de falhar, está quase sempre associada a fracassados ou perdedores. Percebi, ao ler vários livros de gestão e marketing, que isso é mesmo uma visão muito nossa, porque lá fora, sobretudo nos Estados Unidos, não há nenhum empresário, empreendedor ou marketeer de sucesso que não se tenha espalhado já algumas vezes ao longo da carreira. Todos falharam, todos fizeram asneiras, mas todos souberam usar esses erros como armas, como momentos necessários no processo de aprendizagem.

Hoje, olho para trás, e consigo identificar dezenas e dezenas de erros que cometi desde que criei a minha empresa, e lancei a NiT. Se pudesse recomeçar tudo, tenho a certeza absoluta de que faria muita coisa de forma diferente, e conseguiria criar um produto melhor e mais de acordo com as minhas ideias, que é aquilo que tenho vindo a fazer ao longo do tempo. Mas remediar é sempre diferente de criar algo novo.

Ao contrário do que acontece com muita gente, a mudança, para mim, funciona como um propulsor de energia, de adrenalina, um estímulo que me leva a fazer coisas diferentes, a sair da famosa zona de conforto e, invariavelmente, a aprender. E de aprender não tenho medo, nunca.

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