Crónica de um homem numa loja de sapatos

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Quando recebi o press release do evento, confesso, fiquei preso na palavra sushi. Não li mais nada. Era qualquer coisa da Zillian e sushi.

Como é normal nestas coisas, sabia que a minha mulher tinha recebido o mesmo mail. E tinha a certeza que, metendo sapatos, ela o iria ler. Mas o dia foi passando e nunca mais me lembrei do assunto. Nem ela me falou sobre isso.

À noite, quando estava a consultar o telemóvel, passei por aquele mail e lá estava a palavra sushi. Estávamos perto da hora de jantar. E então, estranhando o facto de ela não dizer nada, arrisquei a pergunta:

— Hoje não havia uma coisa qualquer na Zillian?

— Sim. Vamos passar lá daqui a pouco.

É sempre bom quando sou informado das coisas que vou fazer nesse mesmo dia.

— Ah, está bem.

Ela não estranhou este meu repentino ataque de boa vontade, este aceitar de bom grado uma coisa da qual normalmente fujo a sete pés, que são os chamados “eventos”.

Quando estávamos a chegar, fiz-me de parvo.

— Isto não tinha qualquer coisa a ver com sushi? Tenho ideia de ter lido no press que sim, ou estou a fazer confusão?

— Sim, sim, vai haver sushi.

— Ah, boa.

Entrámos e deparei-me com o pavor de todos os homens: uma loja a transbordar de mulherio em fúria atrás de sapatos. O chão dos corredores estava instransitável com sabrinas, sapatos, botins, botas, padrões de pele, de zebra, de cobra, de leopardo, pretos, castanhos, amarelos, tudo, de todos os géneros e feitios.

— Vê se encontras o 37 destes! — gritava uma miúda para a amiga que andava a varrer as prateleiras com os olhos enquanto ia recolhendo sapatos atrás de sapatos, que nem sei bem como conseguia segurar naquelas mãos de criança.

— Não há! Só 38! — respondeu.

— Traz os 38.

Cá está uma coisa muito feminina: é totalmente indiferente o número que calçam, desde que gostem dos sapatos. “Calço 36, mas só há 35? Não faz mal, sofre-se um bocadinho”. “Calço 38 mas só há o 40? Não faz mal, não ficam assim tão largos (mas se calhar é melhor pôr um algodão aqui à frente para dar volume)”.

Outra cliente, enquanto olhava para o espelho, com uma funcionária ao lado. “Não sei se gosto destes”, dizia, mirando o pé de chinesa enfiado nuns botins tigresse. “Tem iguais mas em zebrado”, dizia a funcionária. “Pois, já experimentei. Também tenho algumas dúvidas…”. Lá acabou por pegar nos dois e juntar a mais sete ou oito pares que tinha reservado. “Levo todos. Depois logo se vê”. Mulheres. Sapatos.

Observar este fenómeno de natureza social feminino era o meu passatempo enquanto esperava que a minha mulher fizesse o mesmo que todas as outras: experimentar sapatos, botas, botins, de todos os feitios e padrões.

— O que é que achas destes? — perguntou-me.

— Gosto. Acho que são diferentes, ficam bem com umas calças de ganga mais justas ou umas calças pretas de cabedal — arrisquei.

— Hum… não sei.

Dois minutos depois.

— E estes?

— São engraçados, mas não há de outra cor? Estou um bocado farto de sapatos pretos com tachas.

— Há em castanho claro. Vou buscar.

— Gostas?

— Sim, muito melhores.

Cinco minutos depois já tinha novamente no pé os primeiros botins.

Seis minutos depois tinha uns botins iguais mas noutro padrão.

Sete minutos depois já eram umas sabrinas.

Oito minutos depois outras sabrinas praticamente iguais (embora as mulheres digam sempre que são totalmente diferentes).

Nove minutos depois eu já tinha perdido a vontade de opinar. Voltei-me novamente para a fauna que me rodeava.

Continuei na minha observação, fascinado com aquele frenesim, com a loucura feminina perante um universo de sapatos com descontos. Afinal, o evento era isso, um desconto de 30 por cento.

Saímos da loja aí uma hora depois de termos entrado. Comi três rolinhos de sushi. Mas saí preenchido com aqueles minutos de observação do comportamento sociológico das mulheres perante sapatos a preços reduzidos. Fiquei com pena de não ter filmado. Teria valido muito a pena.

12 Comentários

  1. Como eu me ri a ler este texto.
    para já parabens porque há poucos blogs de homens (a meu ver)
    depois esta ideia de descrever o local está fabulosa
    e realmente nos mulheres é muito assim – nao tem 38 tras 40 xD

  2. Essa coisa ou melhor esse comportamento, tem um nome… é o chamado masoquismo! Tão o evento é sobre calçado, primeira “red flag”, depois metem o sushi, o chamado queijo na ratoeira, depois levas com um afiambranço da patroa de fininho (sim, sim, vamos lá passar daqui a pouco), ou seja, segunda “red flag” e mesmo assim decidiste ir?! Opah eu sinceramente, nessa a minha esposa não me apanhava! Se o evento fosse “lingerie discount” e sushi… era uma “win/win” aí ainda me apanhavam (provavelmente já sem o convite tácito da esposa), mesmo assim não sem antes ver as letrinhas pequenas a ver se o evento dizia respeito a lingerie feminina, porque o que parece bom demais para ser verdade, geralmente traz água no bico!

  3. É por estas que o meu pai não acha piada que eu veja o blog da tal Pipoca mais doce, eheheh … diz ele que me dá sempre ideias novas para lhe gastar o dinheiro !!!

  4. Adorei! Tenho para mim que um homem nunca há-de entender o fetiche da mulher por um par de sapatos! São sempre precisos mais, e ansiamos pelo dia em que possamos comprar um par de Louboutins, ou uns Jimmy Choo, ou uns Giuseppe Zanotti… Bem sei que custam os olhos da cara, e que não valem esse preço… Mas, lá está… Isto das mulheres e dos sapatos é mesmo um fenómeno!

  5. O que eu me ri! Que óptima descrição 🙂
    Infelizmente não posso dar-me ao luxo de ter tantos sapatos, mas imagino a vontade de o querer ter.

  6. Tem muita paciência. Eu tenho o “dom” de entrar numa loja e encontrar logo o que quero sem estar lá uma hora e confesso que quando vou com outras pessoas que ficam duas horas a remexer (às vezes sem intenção de comprar) que até fico claustrofóbica e à beira de um ataque de nervos.

  7. Não fales do que não sabes, pá! Vê lá se queres que organize um boicote a esta barraca. Ah, e não percebes nada de sapatos, só te pergunto a tua opinião para sentires que fazes parte e tal e coiso. Sonso.

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