E agora algo sério

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Quem me conhece sabe que não sou nada corporativista. Sou muito crítico em relação à classe jornalística, irrita-me a postura de muitos colegas de profissão e chateia-me, sobretudo, aquela coisa muito comum entre nós de achar que estamos acima seja de quem for.

Os jornalistas são pessoas como as outras, com as qualidades e defeitos de toda a gente, uns são inteligentes, outros estúpidos, há gente boa e gente má, uns competentes outros incompetentes, uns talentosos outros não, uns corruptos e outros sérios.

Temos um código de conduta, uma ética e deontologia a seguir, mas o que nos deve guiar é, sobretudo, o bom-senso. Sempre achei que havendo bom senso é tudo mais fácil. E não me tenho dado mal.

Uma das coisas que sempre apontei aos meus colegas de profissão foi a vontade de criticar e apontar o dedo aos concorrentes, quando todos sabemos que qualquer publicação tem telhados de vidro. Há uns anos, o jornal onde trabalhava moveu uma perseguição absolutamente ridícula ao maior jornal nacional, dedicando-lhe uma coluna diária, com ataques por vezes rasteiros e que me envergonhavam. Fui contra desde o primeiro minuto, manifestei-me sempre contra, precisamente, porque conhecia as nossas fragilidades, porque sabia que aquilo que estávamos a dizer dos outros era o mesmo que nós próprios já havíamos feito.

Nos jornais, nas revistas e nas televisões, o melhor é aquele que consegue chegar mais eficazmente ao seu target, o que consegue reunir mais leitores para os quais se dirige. É por isso que há muitos anos defendo que o jornal mais bem feito em Portugal é o “Correio da Manhã”. É aquele que melhor consegue entender os seus leitores, o que melhor edição faz de notícias, já que consegue, de ano para ano, vender cada vez mais, quando todos os outros descem. Isso não se faz à conta de notícias sensacionalistas ou especulativas. Faz-se porque quem dirige o jornal, quem o edita, sabe o que está a fazer, sabe para quem está a falar e o que lhes deve dizer.

Apesar de o meu mundo ser o dos jornais, onde trabalhei durante 14 anos, agora estou envolvido noutra guerra, a das revistas. Chamo-lhe guerra no sentido figurado, porque para mim isto não é guerra alguma. A guerra é connosco mesmos, é a de, de dia para dia, tentarmos fazer o nosso trabalho o melhor possível para quando chegarmos às bancas termos os assuntos mais interessantes, as abordagens mais originais, criativas, trabalhadas. O leitor, depois, decidirá quem é o melhor. Não é por dizermos que somos bons que as pessoas vão acreditar nisso. Acreditam se comprarem o produto e ficarem satisfeitas.

É nisso que acredito e vou continuar a acreditar. Podem apontar o dedo à publicação onde estou, atacá-la como quiserem, que a minha defesa será sempre feita em banca, produzindo um produto em que acredito, e em que espero que os leitores acreditem. Há quem pense de maneira diferente, quem ache que é muito mais eficaz apontar o dedo, deixando-se ficar na comodidade de quem sente que não tem concorrência. Geralmente são esses os primeiros a cair, porque enquanto uns riem os outros trabalham.

1 Comentário

  1. ói, ia aqui escrever algo sobre dicotomia(sim, dicotomia, qual é o problema?) entre visão/sábado, mas ali o Nelito roubou-me as palavras.

  2. Na minha opinião a Sábado ainda tem de se esforçar mais. As edições desta semana são exemplo do que não gosto na Sábado: A Visão faz capa com um trabalho de investigação sobre a rede de lavagem de dinheiro, a Sábado faz capa sobre como os cães são mais espertos do que o que pensamos.
    Apesar da Sábado ter um grafismo muito bem feito, todas os artigos que apresenta "roçam" o tema e geralmente não adiantam nada de novo ao tema. A Visão tem sempre artigos bem elaborados e que adiantam sempre mais qualquer coisa sobre o tema, daí preferir a Visão.
    Fica a minha opinião.

  3. O CM até pode ser bem feito, mas se aquilo é um jornal… então prefiro viver na ignorância. Pessoalmente não gosto do género. Mas vá, vale pela revista… a Vidas! 🙂

  4. Não poderia estar mais de acordo com este post.Tenho vários amigos a estudarem Ciências da comunicação e é o que mais lhes peço para fazerem quando exercerem a sua profissão. Contudo, tenho que dizer que o Correio da manhã não aplicou o seu bom-senso em várias notícias por si publicadas nos últimos meses em relação a acontecimentos passados na Universidade do Minho. Mas não há nada perfeito.

  5. Concordo com o que dizes, que o Correio da Manhã sabe muito bem estruturar-se para ir ao encontro dos seus leitores. Ok. Mas dizer que não se faz à custa de notícias sensacionalistas ou especultivas (quanto a esta última podemos dar o benefício da dúvida)… depois de um post tão bom, não te ficava mal mais um bocadinho de honestidade intelectual (ou, apenas, menos imparcialidade) quanto a esse ponto.

  6. Aplaudo o texto e é transversal a outras áreas, como a banca onde trabalho.
    A Sábado desde há alguns anos a esta parte é para mim a melhor, e a unica que compro. No meu caso, roubou lugar à Visão, e não apenas por causa do conteúdo, mas também pelo designer gráfico (não sei se é este o termo correto). Nunca leio é as curiosidades do topo das páginas, passam-me sempre despercebidas. Sobre o Correio da Manhã não tenho uma opinião muito bem formada, mas acho que o coloco num paralelismo com a tv no patamar daqueles programas da manhã e da tarde dos canais generalistas portugueses – julia pinheiro, fatima lopes, goucha, etc, etc. – dizem que produzem o que o povo quer ver, e o povo vê o que produzem!!
    Todavia, nada do que vem no CM é mentira, é o q acontece no país!

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