Este não é o meu Benfica. É hora de parar, pensar e agir

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“Se um filho cometer um crime, um pai deve entregá-lo à polícia ou ajudá-lo a fugir?” Já ouvi esta pergunta muitas vezes, em diferentes contextos, e não há uma resposta correta. Umas pessoas entregavam o filho, porque é isso que é correto fazer, e porque ao ter de responder pelo erro isso poderá ajudá-lo a encontrar o caminho certo; outras não, outras jamais seriam capazes de entregar um filho e davam a vida para o proteger, para o esconder, fosse ele inocente ou culpado. Eu faço parte do primeiro grupo. Eu entregava-o.

Ninguém é mais benfiquista do que eu. Não aceito lições de benfiquismo seja de quem for e ninguém me poderá vir dizer que a minha opinião é errada, até porque não há opiniões erradas, há apenas visões em que umas pessoas acreditam e outras não, mas são ambas válidas.

Há muitos meses que me sinto triste com a forma como o Benfica tem sido sucessivamente envolvido em processos judiciais. Uns casos parecem-me frágeis, e vejo-os claramente como tentativas de levantar poeira com o objetivo de descredibilizar e desestabilizar o Benfica enquanto instituição (o caso dos vouchers, por exemplo), outros preocupam-me e fazem-me pensar muito sobre o futuro do Benfica, sobre a forma como eu olho para a frente e vejo o Benfica. O caso dos mails foi um deles, este caso E-Toupeira é outro, e bastante mais grave.

O meu Benfica, o Benfica que eu defendo, que eu quero, é um Benfica forte e sólido em todas as áreas. É um Benfica com uma grande equipa de futebol profissional, com muitos portugueses, com muitos jogadores formados no clube, que lute todos os anos pelo título e que tenha ambição europeia. É um Benfica que consegue tudo isto com competência, superioridade, elegância, mas também lealdade, fair play e respeito por todos os adversários.

O meu Benfica é também um Benfica com uma grande academia de formação, que luta pelos títulos nacionais de todos os escalões, e capaz de gerar talentos para as equipas B, de sub-23 e senior, mas também com capacidade de formar e transferir jogadores para o estrangeiro, trazendo receita à SAD.

O meu Benfica é um Benfica com equipas que lutem pelos títulos nacionais nas principais modalidades desportivas, sobretudo aquelas que têm mais tradição e que são mais queridas aos sócios, como o basquetebol, o andebol, o voleibol, o hóquei, o atletismo e o futsal.

O meu Benfica é um Benfica com uma grande equipa de marketing, capaz de criar campanhas e ações que ajudem a ligar os sócios ao clube, enchendo o nosso Estádio da Luz e o nosso pavilhão da Luz.

O meu Benfica é um Benfica com uma grande equipa de comunicação, que saiba levar as palavras certas dos nossos atletas e representantes até aos sócios, solidificando a relação entre adeptos e clube. Mas é também uma equipa de comunicação unicamente focada no Benfica, que não se meta na vida dos nossos adversários, que respeite toda a gente e todas as instituições, mesmo que essas pessoas e instituições não respeitem o Benfica.

O meu Benfica é um Benfica com uma direção forte, que saiba defender em todos os momentos os interesses desportivos e financeiros do Benfica, que demonstre em todos os momentos a ambição de chegar mais longe, de levar o Benfica ao topo nacional e internacional. Uma direção totalmente focada no Benfica, que não se envolva em tricas menores, em jogos de comunicação e bastidores, que saiba ter elevação, que tenha uma postura de dignidade e respeito por todos os clubes. Uma direção que olhe para o Benfica como um todo, e não apenas como uma equipa de futebol que tem algumas modalidades desportivas a orbitar à volta. Uma direção que trabalhe unicamente para que o Benfica atinja os melhores resultados desportivos dentro das regras e das leis, sem procurar a todo o momento razões externas que justifiquem episódios de insucesso que o clube possa ter.

O meu Benfica é o maior em tudo, no talento dos seus atletas, na elevação dos seus dirigentes, na qualidade dos seus profissionais em todas as áreas, no respeito pelos adversários, pelas instituições sociais, judiciais e políticas e pelo desporto em geral.

Nasci em 1976, tenho uma recordação ténue do Benfica do início dos anos 80, mas tenho memória da final da Taça UEFA perdida para o Anderlecht. Mas ainda hoje consigo lembrar-me de onde estava, do que fiz, de como celebrei os golos de jogos do Benfica em 1987, 88 (como naquela noite de maio de 1988, quando abri a janela de casa dos meus avós e fiquei vários minutos aos berros a gritar “goloooooooooooo”, até ficar sem voz, depois do golo do Vata ao Marselha que nos pôs na final da Taça dos Campeões Europeus).

Depois disso, vivi intensamente o pesadelo de 1994 em diante, e até 2004. Isto para dizer que eu sei o que é ser adepto de um Benfica que bateu no fundo, eu sei o que é estar no Estádio da Luz ao lado de 15 mil pessoas a ver uma equipa com o Jorge Soares na defesa, o Jamir no meio-campo ou o Pringle no ataque. Por isso, consigo olhar para o Benfica de hoje e perceber o caminho que foi feito, muito graças ao trabalho do atual presidente, Luís Filipe Vieira. Não reconhecer este trabalho, a mudança profunda e estrutural que aconteceu no Benfica, é simplesmente não querer ver o óbvio.

Sou sócio efetivo do Benfica há quase 10 anos e tenho o meu lugar cativo no estádio
Sou sócio efetivo do Benfica há quase 10 anos e tenho o meu lugar cativo no estádio

O atual Benfica tem muitas, muitas coisas que referi acima, tem na essência aquilo que eu quero para o meu Benfica. Mas está longe de ter tudo. Aliás, nos últimos tempos falta-lhe mesmo muito do que considero essencial para que o Benfica não seja apenas uma boa equipa de futebol, mas sim o clube sério, justo, elevado, capaz, honesto que eu defendo que o Benfica deve ser.

Jamais alguém me convencerá com o argumento de que o Benfica faz o que os outros fazem, e quem não o faz fica para trás. Jamais alguém me convencerá de que para se ser o maior clube é preciso dominar os jogos de bastidores, controlar a política, a justiça, a arbitragem, a liga, a federação, o que for. Não acredito e, sobretudo, não quero acreditar nisso. Gosto demasiado de desporto e de futebol para querer acreditar nisso e querer que o meu clube pense e sinta isso. Sou dos que preferem não ganhar sempre, mas ganhar muitas vezes, e de forma leal, honesta, respeitadora e elevada.

Jamais alguém me convencerá de que o Benfica tem ganho tudo o que ganhou porque é o “dono disto tudo”. Mentira. O Benfica ganhou muito do que ganhou porque, em campo, foi quase sempre melhor do que os seus adversários. Teve melhores equipas, foi mais competente, mais regular, teve mais qualidade, jogou melhor futebol. Da mesma forma que defendo que apesar do escândalo que foi o Apito Dourado, eu sei que aquele FC Porto dos anos 90 ganhou o penta por uma única razão: era muito melhor do que os outros. Houve fatores externos? Houve. Houve trafulhices? Houve. Houve vários jogos em que o FC Porto foi escandalosamente beneficiado? Houve. Mas o FC Porto ganhou tudo por causa disso? Não. Ganhou porque era melhor. Com o Benfica dos últimos anos passa-se a mesma coisa.

Ouvi atentamente a declaração de Luís Filipe Vieira ontem à noite, depois de a Benfica SAD ter sido acusada no caso E-Toupeira. Foi a primeira vez, em vários meses, que ouvi um discurso mais sereno, menos incendiário, mais racional, e que vai mais ao encontro daquilo que eu acho que devem ser as declarações de um presidente de uma instituição como o Benfica. A estratégia de comunicação do Benfica nos últimos anos tem sido um desastre, e tem ido no sentido totalmente oposto daquilo que eu defendo. As cartilhas, os Pedro Guerras, as insinuações constantes, as teses das cabalas, tudo isso é um desastre. O ponto mais baixo aconteceu após o caso dos E-mails, quando os comunicados do Benfica por um lado negavam o conteúdo dos mails divulgados pelo diretor de comunicação do FC Porto e por outro diziam que o clube tinha sido vítima de um crime informático. Que sentido é que isto faz? Ou fomos vítimas de um crime, e o que é divulgado sobre o conteúdo dos mails é verdade, ou aquilo que andam a dizer que está nos mails é tudo inventado, e não há necessidade de virmos dizer que fomos vítimas de um crime informático.

Esta época, o Benfica mudou claramente de estratégia de comunicação, e passou àquilo que eu chamo de Bruno-de-carvalhização. O Benfica andar a comentar nas redes sociais, a fazer comunicados, sobre erros de arbitragem em jogos dos adversários é por um lado pequenino, por outro muito tonto e por fim tremendamente triste. O meu Benfica não é isto, não faz isto, tem elevação, respeito, e preocupa-se unicamente consigo.

O meu Benfica também não é um Benfica que assobia para o ar quando se fala de legalização de claques, é um Benfica responsável que faz tudo para que os jogos de futebol sejam espetáculos sérios, seguros, onde a assistir estão pessoas de bem, famílias, crianças, gente respeitadora e com fair-play, e não bandidos que vão ali só para ofender ou arranjar confusão. O lugar dessa gente é fora dos estádios.

O meu Benfica não se vende a empresários de futebol, não se deixa usar em esquemas de valorização de jogadores, e de rotatividade de atletas que vestem o nosso Manto Sagrado só para fazer favores a este ou aquele agente.

O meu Benfica é totalmente transparente em todas as operações que faz, tem uma gestão profissional dos seus ativos (os jogadores), e compra e vende atletas unicamente com o intuito de melhorar a qualidade do plantel ou fazer mais-valias significativas para a SAD que ajudem o clube a crescer. Pode enganar-se em contratações, como todos os clubes se enganam, desde que o engano seja legítimo e não seja evidente que só aconteceu porque quisemos pagar um favor a um empresário (Filipe Augusto, Danilo, Bebé, entre tantos outros).

Não é por estar triste e revoltado com o que se está a passar que deixarei de ir, sempre que possa, apoiar a minha equipa, os meus jogadores
Não é por estar triste e revoltado com o que se está a passar que deixarei de ir, sempre que possa, apoiar a minha equipa, os meus jogadores, que não têm culpa alguma do que se passa nos bastidores

Volto ao início. O processo E-Toupeira é, para mim, mais doloroso do que ter uma dupla Hassan-Marcelo no ataque. O que está na acusação é demasiado grave para que nós, benfiquistas, possamos achar que isto é tudo normal e que só fazemos o que os outros fazem. A Justiça hoje não é a Justiça de há 10 ou 20 anos, é uma Justiça muito mais independente, forte, justa, que não olha a poderosos ou a poderes para agir, e é isso que eu quero e espero dos órgãos judiciais. Sinceramente, é-me indiferente se a Benfica SAD e o senhor Paulo Gonçalves vão ser condenados ou inocentados, porque uma coisa para mim é evidente: são culpados. Podem ser inocentados (o que eu não acredito que vá acontecer), mas nunca serão inocentes. Para mim, é evidente que a Benfica SAD sabia das ações do seu assessor jurídico. É óbvio que ele não agiu por sua própria iniciativa sem dar cavaco a ninguém. É a minha profunda convicção (e não certeza, porque não sou juiz, nem estou na posse de todos os dados da investigação). E o meu Benfica não faz este tipo de coisas, não pactua com figuras como as de Paulo Gonçalves, pelo contrário, afasta-as, não as quer a minar a reputação do nosso clube.

Por mais voltas que dê à cabeça, não consigo entender como é que ao dia de hoje, mais de 24 horas depois de ter saído a acusação, a Benfica SAD ainda não se demarcou de Paulo Gonçalves, como é que ainda não o despediu, e como é que Paulo Gonçalves ainda não se demitiu do Benfica. É evidente que dos 79 crimes de que é acusado, ele será condenado por muitos deles. E ser assessor jurídico do Benfica não é compatível com ser um condenado por crimes desta gravidade. Tudo isto me faz uma confusão tremenda.

Por tudo isto, não vou ser um dos que vão acatar o pedido de união feito pelo nosso presidente. Recuso-me a aceitar os argumentos da Benfica SAD, a atitude de total presunção e prepotência que tem tido nos últimos meses, disparando para todo o lado, quando eram evidentes os buracos nos nossos telhados de vidro. Felizmente, penso sempre pela minha cabeça, interpreto tudo o que vejo, tudo o que ouço e tudo o que leio, e consigo tirar as minhas próprias conclusões, não preciso que venha alguém ligado ao Benfica dizer-me qual é a versão oficial em que devo acreditar.

Assim, sou dos que defendem que chegou a hora de os benfiquistas fazerem uma profunda reflexão sobre tudo o que se está a passar e começarem a discutir qual é o Benfica que querem para o futuro, pegando no que está bem feito, tentando tornar excelente o que já é bom, e eliminando tudo o que está a deteriorar a imagem e reputação do nosso clube, já há alguns anos.

Ninguém gosta mais de um filho do que o seu pai. Mas se for preciso entregá-lo um dia à polícia para que ele saia dali mais forte, mais honesto, mais homem, é isso que deve ser feito.

Benfica, sempre.

2 Comentários

  1. Gosto mesmo de si, Ricardo.
    Só tenho pena de que não seja Sportinguista. Mas também, se fosse, seria perfeito. Como todos sabemos, there is no such thing.

    Saudações desportivas.

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