Eu não fui uma criança como as outras. E então?

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Mesmo com 42 anos, eu tinha a certeza de que o meu telemóvel iria tocar e do outro lado iria ouvir a minha mãe a dizer-me “Feliz Dia da Criança, meu amor”. É assim desde sempre. E este ano não foi diferente. É sobretudo nestes momentos especiais que muitas vezes olho para trás e sinto aquilo que tem sido a minha vida, o que tenho feito bem e mal, os caminhos que tenho seguido, e, como passámos agora pelo Dia da Criança, gosto também de recordar aquilo que eu fui enquanto criança. Infelizmente, fui menos puto do que deveria ter sido, tive de crescer à pressa, muitas vezes aos empurrões, mas também sei que se hoje tenho orgulho em mim e no meu percurso, devo-o também a essa realidade que foi a minha. Não foi melhor nem pior, excelente nem péssima, foi só a minha.

Estou longe de ser aquela pessoa que teve uma infância tranquila, com uma vidinha calma com os pais, fins de semana nos avós, férias em família no verão, natais com toda a gente à volta da árvore, tudo muito feliz e em grande harmonia. Os meus pais separaram-se quando tinha 4 anos, e a partir daí nunca mais tive uma vida normal, igual à da maioria dos meus colegas de escola. Aos 5 fui viver para Vilamoura com o meu pai e a sua nova companheira e foi lá que comecei a escola primária. Uns meses depois, ele mudou-se e eu fui atrás, por isso, transferi-me a meio da primeira classe e fui acabar o ano na Escola do Carmo, em Faro. Por lá ficámos quase quatro anos, durante os quais ia vendo a minha mãe, os meus irmãos, os meus avós e os meus primos nas férias, quando eles me conseguiam ir visitar, ou naqueles momentos especiais como o Natal, a Páscoa, essas coisas. Entre os 10 e os 13 anos, a minha vida foi um caos, sempre a mudar de cidade, umas vezes a viver com o pai, noutras a viver com a mãe, a fazer uns períodos numa escola, outros noutra, sempre com a mala às costas, sempre a separar-me dos amigos que ia fazendo. Acabei por estabilizar a minha vida depois disso, a partir dos 14, ao lado dos meus avós maternos, que acabaram por ser como os meus segundos pais, mas nesta fase já muito mais próximo da minha mãe, do meu padrasto e dos meus irmãos.

Não tenho nenhuma recordação de ser um miúdo infeliz ou de viver mal com esta instabilidade. Era a minha realidade desde sempre, e conseguia ser feliz com ela. Tinha as minhas referências, as minhas diversões, aprendi a distrair-me, a brincar e a viver bem neste caos. Hoje, quando olho para trás, sinto-me contente por nunca ter chumbado um ano, nem nunca me ter perdido em vícios e más companhias. Mas é também quando olho para trás que consigo identificar facilmente as pequenas coisas que me faziam feliz todos os dias. Os meus livros do Lucky Luke, do Astérix e as coleções da Disney, que eu devorava todos os dias, o meu computador Timex 2048, onde jogava Match Day, Mrs PacMan, Football Director, Chucky Egg ou Moon Alert, as minhas cassetes VHS com os filmes do Star Wars e do Indiana Jones, as tardes em casa a ver o Kit, os Três Duques ou o Clube Amigos Disney.

Uma das excitações da minha vida era quando, no Clube Amigos Disney, passavam uns desenhos animados que adorava, o “Ducktales”, que eram uma espécie de episódios do Indiana Jones protagonizados pelo Tio Patinhas e pelos sobrinhos-netos, o Huguinho, o Zezinho e o Luisinho. Quem via o programa, apresentado pelo Júlio Isidro, deve lembrar-se de que a maioria do tempo era dedicado a jogos, concursos, desafios no palco, e só de vez em quando é que havia desenhos animados, que era o que eu mais gostava. Via aquilo do princípio ao fim à espera dos bonecos. Era mais ou menos a mesma alegria que sentia quando havia um problema técnico qualquer na televisão e enquanto corrigiam metiam uns desenhos animados no ar só para encher. Faziam o meu dia.

Há tempos, entrei na sala e o Mateus estava sentado no sofá a ver o Disney Channel. Não prestei muita atenção, até ter ouvido um diálogo qualquer em que falavam do Tio Patinhas. Olhei para a televisão e ele estava a ver o Ducktales, numa nova versão. “O que é que estás a ver?”, perguntei-lhe. “É o PatoAventuras”, disse-me. Agora chama-se PatoAventuras. Sentei-me ao lado dele a ver, e ao mesmo tempo fui-lhe contando a história de como eu, em pequenino, já via aqueles desenhos animados, o que sinto que o ligou ainda mais à história.

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Hoje em dia, já há poucos desenhos animados que consigam este efeito, de cativar da mesma forma os pais e os filhos. Os filmes da Disney Pixar conseguem-no, também porque sabem tocar nos botões certos que comovem os adultos e captam a atenção das crianças, vão buscar referências que são próximas dos pais, mas que fazem sentido para as crianças. O “PatoAventuras” também consegue, por razões diferentes, sobretudo pelo universo ainda muito inocente em que se move, e que para os adultos de hoje é ternurento. A bonecada atual tem cada vez mais violência, tem cada vez mais mundo de hoje, e tem pouca magia, tem pouco daquilo que nos toca a nós adultos, e que faz falta às crianças quando são crianças, as emoções mais simples, a amizade, a cumplicidade, o esforço comum para se atingir um objetivo, a solidariedade, e continuo a encontrar isso tudo nos desenhos animados da Disney, como no “PatoAventuras”.

Quem quiser recordar o “PatoAventuras”, que basicamente são histórias protagonizadas pelo Tio Patinhas e pelo Huguinho, o Zezinho e o Luisinho, mas que também metem o professor Pardal, a Maga Patalójika, os irmãos Metralha e de vez em quando o Pato Donald, pode seguir os novos episódios, que começaram dia 4 de junho, de segunda a sexta às 18h30, no Disney Channel. Se a criançada aí de casa ainda não vê, vejam com eles. Vai ser bom para todos.

Texto escrito em parceria com a Disney.

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