Eu e os centros comerciais

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Para muitos homens, assumirem que gostam de ir a centros comerciais ou a casamentos é mais ou menos a mesma coisa que terem de elogiar o ponta-de-lança do clube rival: jamais o farão. Isso seria quase como amputarem-lhes parte da masculinidade.

Eu contrario esta regra: gosto. Gosto de centros comerciais e gosto de ir a casamentos. Mas se para gostar das bodas me basta um argumento — a mesa de queijos — para o prazer de ir a centros comerciais há muitas explicações. A primeira é a sensação de estar rodeado de pessoas e opções. Adoro isso. Muitas vezes, gosto de ir almoçar sozinho a um centro comercial, precisamente porque consigo ver centenas ou milhares de pessoas (e eu adoro de observar pessoas) e posso ir às lojas de que gosto sem ninguém me chatear. Uma das vantagem do centro comercial é que não preciso de pensar muito bem naquilo que me apetece fazer: na altura, logo se vê, porque haverá seguramente uma opção para isso. Outra: em alturas como esta, em que estão menos 18 graus na rua, ali posso andar sem luvas, cachecol, gorro, duas camisolas e um casacão.

Com uma ou outra excepção, gosto de quase todos os centros comerciais. Mas há um para o qual sou muitas vezes levado, ora pela minha mulher, ora pelo meu filho, e que já entrou nas rotinas cá de casa, o Dolce Vita Tejo. Quando digo isto, muita gente me pergunta: “Mas o que é que o Dolce Vita Tejo tem assim de tão fascinante?”, ao que eu gosto de responder: “Mas o que é que o Dolce Vita Tejo não tem?”. Eu explico.

Um vai para a KidZania…

Para começar, tem a KidZania, essa perdição para todos os putos (podia dizer também adultos, sim, porque conheço muitos que morrem de inveja dos filhos e também gostavam de andar ali a brincar naquelas coisas em miniatura — eu sou um deles, admito). Mas se para alguns pais é um sacrifício ir com os putos à KidZania, para mim, é um misto de alegria e tristeza. Alegria porque aquela pequena cidade para os miúdos é verdadeiramente fascinante, um mundo ao qual eu nunca tive acesso, um universo de brincadeiras diferentes e didáticas que mesmo que se repitam todos os meses deixam sempre os putos encantados. O meu filho mais velho, que está quase a fazer 7 anos, implora-me todas as semanas para o levar lá. Já conhecemos a KidZania de trás para a frente, ele já foi polícia, bombeiro, pizzeiro, banqueiro, dentista, operador de caixa, jornalista, médico, já trabalhou no McDonald’s, no supermercado, já fez sumos e gelados, já tirou a carta de condução, já conduziu, jogou à bola, já foi actor, tudo e mais alguma coisa, sei lá quantas vezes, mas continua a querer voltar. Lembro-me de uma ou duas vezes termos ido lá com relativamente pouco tempo — duas ou três horas — e ele não ter tido muito tempo para percorrer as profissões todas. Quando tive de o arrancar de lá, porque tínhamos mesmo de ir embora, saiu em lágrimas, e eu com o coração partido.

Mas eu compreendo isto, sobretudo, porque me vejo no lugar dele, com sete anos, e tudo aquilo pela frente, todas aquelas experiências, a miudagem a correr de um lado para o outro, as brincadeiras, os fatos das profissões, no fundo, é como se fossemos nós os Playmobil, em vez de estarmos a brincar com eles.

… a outra para a Primark…

A nossa rotina familiar no Dolce Vita Tejo é quase sempre a mesma: eu vou para a KidZania com o miúdo, a minha mulher vai para a Primark. Já chegou a acontecer ela demorar tanto tempo na Primark como ele na KidZania para se ver os dramas que eu por vezes vivo à espera daquela mulher. Nesses dias, também aproveito para espreitar a zona de homem (que aqui é muito decente, ao contrário da maioria das lojas de roupa, que guardam um cantinho para a secção masculina) e sobretudo de criança, que é muito boa. A cada mudança de estação, lá encho o saco com mais roupa de Verão ou de Inverno, porque nestas idades — entre os 4 e os 9 — os putos parece que crescem todos os dias uns cinco centímetros.

… e eu fico-me pela Specialized e pela Sport Zone…

Se o miúdo tem a pancada da KidZania e a minha mulher da roupa e dos sapatos, eu tenho a das cenas de desporto (acho que é mais ou menos comum aos homens). E então aproveito os momentos em que ela anda pela Primark para ir à Specialized, que fica mesmo ao lado, e que é um mundo para quem gosta de bicicletas. Eu sou daquelas pessoas totalmente nabas em mecânica, mas fico fascinado com tantos acessórios que existem para as bicicletas e dou por mim a ficar interessadíssimo numa nova corrente, num guiador aerodinâmico ou nuns pedais de competição, mesmo que tudo isso tenha muito pouca utilidade para mim. É que a minha bicicleta é vintage (é muito melhor do que dizer velha, certo?), e foi-me oferecida pelo meu sogro, que foi ciclista e chegou a correr duas voltas a Portugal em bicicleta. E foi na Specialized que a recuperei, mandei pintar, comprei-lhe um banco, uns punhos e uns pedais novos e ficou maravilhosa.

Se ainda tiver tempo tento passar por todas as lojas de ténis e pela Sport Zone, talvez a loja que mais aborrece a minha mulher, sobretudo porque eu gosto de ver todas as novidades em suplementação alimentar, o que eu compreendo que possa ser chato, mas é mais ou menos a mesma coisa que nos acontece quando vocês vão àquelas lojas de acessórios totalmente desinteressantes e gostam de ver cada colar, cada brinco e cada pulseira.

… ou pela Zara, a H&M ou a Sfera

Como os meus gostos não se resumem a futebol, corridas e bicicletas, também gosto de algumas lojas de roupa de homem. O Dolce Vita Tejo também tem essa vantagem: tem as lojas a que mais vou — a Zara e a H&M — mas também a uma outra que infelizmente só existe aqui, a Sfera. Conheci a Sfera em Espanha, numa altura em que nem havia Dolce Vita, e sempre tive imensa pena de não haver em Portugal. É capaz de ser das lojas (para homem) com melhor relação qualidade-preço. É um pouco mais cara que a H&M e mais barata do que a Zara, mas com uma oferta muito diversificada e materiais mesmo bons. Também gosto da Blanco, que no Dolce Vita costuma ter todos os tamanhos e óptimas oportunidades nos saldos.

17 Comentários

  1. Adorei este post hehe…especialmente a parte da Kidzania por trabalhar lá sou suspeita, mas de facto é muito gratificante gerar sorrisos naquele mundo à parte tão educativo e divertido. 🙂

  2. Nem sei bem por onde começar… não entendo como é que num país com o nosso clima há quem teime em se enfiar em centros comerciais. Faz frio? Pois, estamos no Outono… Agora num centro comercial não estamos em lado nenhum, é um mundo artificial em que alguns estão proibidos de entrar: a temperatura é controlada, o acesso a pedintes é controlado… É surreal. E como “em família” se cada um vai para seu lado?

  3. Pergunta muito sincera e necessária neste tempo de maior contenção na carteira: o que encontram de boas peças na Primark? Tu e a Pipoca podem fazer um post sobre roupa de lá? Ideias. por favor. Sei que a maioria consegue encontrar coisas giras lá e se calhar o que me custa é saber conjugar 🙁

  4. O meu marido tambem adora centros comerciais e lojas, eu, pelo contrario, não gosto mesmo nada das 2 coisas. Não está sozinho! está muito bem acompanhado. uma fiel seguidora do seu blog.

  5. Pois é, tenho a informar que o Arrumadinho não é o único. O meu querido marido gosta de centros comerciais, gosta mesmo! Pronto…também não vai ao ponto de gostar de andar lá naqueles dias em que até os corredores do Dolce Vita, que são largos, estão apinhados de gente, mas isso também prefiro evitar. A estratégia no meu caso é ir durante a semana à noite ou ao fim-de-semana logo às 10h! 🙂
    Quanto a ele arranja sempre uma boa desculpa para irmos a um centro comercial e é por isso que estou prestes a sair do trabalho para rumar ao Allegro!

  6. Eu tb gosto de ir a centros comerciais. Não gosto é de andar de loja em loja, acompanhado, a ver coisas que não me interessam nada. Por isso, o andar sozinho, tem os seus beneficios.

    Com a crise isso vai ser mais dificil. Sabes que há marcas que obrigam os lojistas a facturar uma percentagem sobre as pessoas que entram na loja? Ao ponto de quem trabalha lá pedir para os amigos não entrarem na loja e dessa forma aumentarem o número sobre o qual terão que vender? Detesto entrar numa loja e ter os lojistas todos em cima de mim a olhar para tudo o que faço. Nestas lojas não se devem safar muito comigo…

  7. Quem me dera que o meu namorado fosse assim! Parece que tem aversão! Quando vai a um centro comercial cmg passado no máximo uma hora já está a dizer que se quer ir embora! E entrar em lojas de roupa cmg? Nem pensar! Eu vou lá para dentro e ele fica cá fora sentado a secar e muitas vezes sentado ao lado de outros namorados/maridos na mesma situação! A Pipoca é realmente uma mulher de sorte! 😉

  8. Também conheci a Sfera em Espanha e os meus dois filhos a maioria dos artigos que ainda hoje vestem é dessa loja (vestiam, uma vez que a partir dos 11-12 anos escasseia a oferta), contudo, existe no Corte Inglês em Lisboa há muitos anos, embora com uma variedade reduzida !

  9. Salvo erro, também existe Sfera no El Corte Ingles, de criança existe de certeza, compro a roupa deles para os meus filhos e também concordo que tem um ótima relação qualidade/preço, mas acho que há também um stand de homem (é verdade que pela limitação de espaço deverão ter apenas parte da coleção, mas mesmo assim é melhor que nada).

  10. Acho que vais passar a ter de ir ao Dolce Vita sem a Pipoca, aindo no outro dia ela disse que já não tinha razões para lá ir, uma vez que já à Primark no Colombro e Blanco no Chiado 🙂

  11. Acho que é a primeira vez que oiço (leio) de um homem que gosta de centro comerciais, e lojas de roupa em particular. Surpreendida pela positiva. Infelizmente, acho que os homens devem pensar que se gostarem de tal ( ou se o assumirem) ficam menos masculinos…
    Sorte a da Pipoca!

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