Hoje foi o primeiro dia do resto de uma nova vida

Há quatro anos despedi-me para me lançar num novo desafio. Agora, fiz o mesmo: deixei uma vida confortável, um projeto de sucesso para arriscar tudo numa aventura.

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Os meu últimos meses têm sido passados assim, em cafés, por aí, a ler, a ver coisas, a inspirar-me

Faz por esta altura quatro anos que comecei a mudar de vida. Passei cinco meses em casa após o nascimento do Mateus, e aproveitei a licença de paternidade para estruturar um projeto novo, que na minha cabeça iria ser a maior plataforma digital de lifestyle em Portugal. Na altura, era editor de lifestyle da revista Sábado e percebi que havia um vazio gigantesco de oferta digital de conteúdos desta área. As pessoas continuavam a ter de ler a Time Out, a Sábado ou a Visão em papel para saber quais eram os novos restaurantes onde ir, os eventos mais fixes, as lojas que iam abrindo um pouco por todo o lado, ou seja, a oferta de informação ia em contra-ciclo com a vida cada vez mais tecnológica das pessoas.

Poucos dias depois de ter regressado da licença, entre o Natal e o Ano Novo de 2013, resolvi apresentar o meu projeto à recém chegada direção da Sábado, que olhou para ele com aquela importância com que olhamos para um folheto comercial que nos colocam na caixa do correio ou no pára-brisas do carro. Depois de cinco meses a estruturar a ideia, depois de tantos planos que ia fazendo na minha cabeça, depois de ter colocado uma dose generosa de ambição naquele projeto a reação foi qualquer coisa como “ah, está bem, logo se vê”. Durante quatro meses, não só nunca mais me falaram da ideia, como ainda me quiseram pôr a editar uma área da revista de que não gostava, para a qual não tinha vocação, que não tinha nada a ver com o meu perfil, e, por isso, recusei-me a aceitar “sugestão”.

Em abril de 2014, inspirado por um cartaz que vi na primeira temporada do “Fargo” — onde se lia a frase “What if you’re right and they’re wrong?” — decidi ir ao mercado à procura de um investidor que acreditasse na minha ideia. Já tinha um nome em vista, sabia a que porta ir bater e, duas semanas depois, após uma única reunião, deram-me o OK: “Vamos embora, vamos fazer isto”. E assim foi. Despedi-me da Sábado, juntei meia-dúzia de pessoas talentosas e, juntos, criámos a NiT.

Este cartaz, que vi na série "Fargo", inspirou-me a mudar de vida
Este cartaz, que vi na série “Fargo”, inspirou-me a mudar de vida

Os meses seguintes foram os mais estimulantes da minha carreira. Fazer nascer um projeto do zero sem muito dinheiro, com uma página de Facebook com zero fãs, sem muita gente para trabalhar, num escritório na Baixa de Lisboa onde nos tapávamos com mantas por causa do frio foi um desafio do caraças. Quando arrancámos, fomos criticados e gozados por muitos jornalistas, deram-nos seis meses de vida, chamaram-nos um projeto amador que mais parecia feito por estudantes universitários, riram-se de nós, mas eu sempre acreditei que um projeto como o da NiT, um site de breaking news de lifestyle, com um enfoque no que é novo, com notícias curtas e de consumo rápido sobretudo em mobile, tinha o seu lugar, e o seu lugar iria ser, mais cedo ou mais tarde, no topo. O tempo deu-me razão. A NiT é hoje um projeto de referência e um case study de sucesso.

Neste Verão, voltei a ter aquele desejo excitante de criar algo novo, de voltar ao zero, de sentir outra vez aquilo que me entusiasmou tanto nos primeiros meses da NiT, a excitação da incerteza, a adrenalina de ter uma folha em branco à frente e poder escrever o futuro, indicar um caminho. Durante algumas semanas, fui arrumando ideias, pensando no que queria para a minha vida, rabiscando uns conceitos, mas porque também me conheço sabia que só deixando tudo o que estava a fazer conseguiria ter disponibilidade física, mental e criativa para poder criar. Então, voltei a fazer o mesmo que havia feito três anos antes: vendi a minha quota, deixei todas as funções executivas na NiT e na empresa que detém a NiT (a MadMen) e fui à minha vida.

Passei os últimos meses em casa, em cafés, esplanadas a organizar ideias, a definir conceitos, a ler muitos livros, a observar comportamentos de pessoas, a analisar sites, para tentar encontrar o meu caminho. Aproveitei para viajar — porque as viagens dão-nos dimensão, fazem-nos maiores —, passear, estar com os meus filhos, a minha mulher, ir ao cinema, a concertos, ao teatro, a restaurantes, voltei a correr, fiz mais duas maratonas, vivi a vida como não me lembro de a ter vivido nos últimos 20 anos. E foi muito, muito bom. Foram quatro meses incríveis. O resultado também foi este: descobri um novo caminho, encontrei uma nova ideia, lancei-me num novo desafio. Estruturei novamente um projeto digital, com um enfoque diferente daquilo que existe no mercado, fui buscar ideias aos livros que li, a coisas que descobri em viagens, a séries que fui vendo, à vida real das pessoas, inspirei-me nos problemas que não têm resolução e que nos atormentam, nos pequenos e grandes dramas do nosso dia a dia e montei tudo numa apresentação.

Tal como havia feito com a NiT, fui à procura de um investidor e encontrei quem acreditasse em mim e se entusiasmasse com o meu projeto. Sobretudo nos últimos dois meses, temos trabalhado todos os dias para que a ideia salte do papel para a vida de todas as pessoas. Esse momento chegará daqui a algumas semanas. E eu não podia estar mais entusiasmado.

Nos últimos dias, mesmo nestes momentos mais mortos de Natal e Fim de Ano, tenho lido muitos textos, feito muita pesquisa online para tentar encontrar coisas boas que se fazem fazendo um pouco por todo o mundo, mas também para ir começando a afinar o registo de texto que vou querer para o novo projeto. Por mais tecnológico que possa ser, há coisas que eu ainda prefiro fazer à antiga; gosto muito mais de ler livros em papel do que em tablets ou kindles e continuo a sentir-me muito mais confortável a editar textos usando uma caneta e tirando notas, fazendo sublinhados, bolas, dando indicações específicas sobre modificações que gostava que fossem feitas. O que normalmente faço é pouco ecológico: imprimo e escrevo a caneta na folha.

Desde que tenho o Surface Pro isso mudou; agora uso a Surface Pen, que me permite fazer exactamente isto (escrever com caneta diretamente no ecrã) e ainda tem a vantagem de poder partilhar logo a página com as minhas anotações à mão com a pessoa que me enviou o texto. O que tenho feito também é visitado sites, lido artigos interessantes, sublinhado partes que me parecem relevantes e importantes e, depois, partilhado esses links com as minhas notas com pessoas que vão trabalhar comigo.

Usar a Surface Pen tem mudado a minha forma de trabalhar (e tem ajudado o ambiente)
Usar a Surface Pen tem mudado a minha forma de trabalhar (e tem ajudado o ambiente

Esta funcionalidade tem mudado, mesmo, a minha forma de trabalhar, e tenho a certeza de que vai ser difícil voltar atrás. Mesmo que no escritório passemos a usar computadores de outras marcas — ainda não está decidido — tenho a certeza de que vou continuar a andar com o meu Surface sempre na mala. Primeiro, porque é mais leve do que um livro, depois, porque almoço imensas vezes sozinho e, quase sempre, levo o computador para poder ir adiantando trabalho, lendo coisas na net ou — também acontece — acabar de ver um episódio da Netflix que comecei na noite anterior (antes de cair para o lado de sono). E o meu Surface serve-me para isto tudo, porque em 1 segundo consigo passá-lo de tablet a computador ou vice-versa.

Sim, eu vejo Netflix ao almoço
Sim, eu vejo Netflix ao almoço

Outra coisa maravilhosa que descobri já depois de o ter usado algumas vezes: a Surface Pen tem um íman que faz com que a possa deixar agarrada ao Surface (isto é perfeito para uma pessoa como eu que nunca sabe onde estão as coisas — telemóveis, chaves, cartões, essas coisas). Acho que estou a dar bom uso ao meu presentinho de Natal.

Hoje, foi o primeiro dia em que me sentei no novo escritório com as três primeiras pessoas que contratei para o projeto (ainda estou em fase de análise e entrevistas para fechar a equipa). Para elas, foi o primeiro dia, o começo de tudo, para mim, foi apenas um passo novo, um degrau importante num caminho que ainda nem sequer começou, que eu sei que vai ser duríssimo, mas que me vai dar um gozo do caraças. Mesmo que corra tudo mal.
Texto escrito em parceria com a FNAC

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