Maratona de Munique: aos 8 km já estou neste estado?

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Quando decidi meter-me neste de desafio de correr três maratonas em 15 dias, estava convencido de que a última, em Munique, seria a mais dura, aquela em que terminaria em pior estado, precisamente por causa do desgaste acumulado.

Acabei a Maratona de Lisboa  em grande sofrimento, e os dias seguintes foram complicados. Ao contrário do que havia acontecido em Berlim, fiquei cheio de dores musculares, com as pernas pesadas, e com o passar dos dias a coisa não melhorou à velocidade que eu achei que iria melhorar. Na quarta-feira, quatro dias antes da Maratona de Munique, fiz o meu único treino da semana, em que tentei testar as pernas com algumas variações de ritmo, fazendo um treino curto mas diversificado. Fiz alguns minutos a passada lenta, alguns sprints curtos, séries de 3 a 4 minutos em velocidade alta, enfim, tentei quase todos os cenários, só para ver como as pernas respondiam. Ao fim de 30 minutos, voltei a sentir uma dor na parte posterior das coxas, quase como se os músculos continuassem presos, e cheios de ácido, que tinha de eliminar. Fiquei apreensivo, e decidi que era melhor tentar repousar ao máximo até domingo, e não correr mais. Foi o que fiz.

Viajei para Munique no sábado à tarde, cheguei já perto das 19 horas, e fui jantar a casa de uns amigos, o David Storch e a Eunice, que vivem por lá. Claro que a conversa andou sempre à volta das corridas, e o David, que já correu 35 maratonas, e várias vezes a de Munique, lá me deixou todos os alertas para a prova. O que mais me preocupou foi mesmo o da altitude. Disse-me que Munique está 500 metros acima da linha do mar, e que isso tem alguma influência na nossa capacidade de ingestão do oxigénio, o que se reflete depois no rendimento em corrida. Fiquei a pensar naquilo. Foram deixar-me ao hotel, muito perto da zona da partida, e deitei-me cedo, para tentar dormir pelo menos oito horas.

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O meu kit maratona, que preparo sempre de véspera: calções, ténis, camisola sem mangas, relógio, camisola polar descartável, flipbelt, dorsal, gel e proteção para os braços

No dia seguinte, lá cumpri com as minhas rotinas antes da maratona (pequeno-almoço cheio de hidratos lentos, proteínas e gorduras), creme gordo nos pés, axilas, mamilos e virilhas, relógio, e pus-me a caminho da partida. Cheguei faltavam 15 minutos para saírem os primeiros atletas, da box A (a minha era a D). Fui deixar o saco com as calças de fato de treino e a sweat à zona de entregas e dirigi-me à minha box.

O objetivo central desta corrida era mesmo o de terminar. Não ia para fazer tempos, não ia com nenhuma jogada em mente, queria só ser capaz de acabar três maratonas em 15 dias. Ainda assim, e porque sou muito competitivo, não sou pessoa de me ir a arrastar, e decidi que iria tentar fazer 3h30, o que dá um ritmo médio de 5’00” (ou seja, fazer 1 km em 5 minutos).

O início da corrida foi lento, e não deu para grandes aventuras. Mesmo sem ter muitos participantes (5/7 mil), os corredores foram todos por uma estrada estreita à volta do Estádio Olímpico, e foi impossível ultrapassar quem quer que fosse. Foi tudo ali em carneirada, a ritmos baixos, e não havia muito que se conseguisse fazer. Como não ia para fazer tempo, não stressei e deixei-me ir. No final do primeiro quilómetro ia com uma média de 5’40”, já um pouco atrasado para os meus objetivos, mas nada de grava. Faltavam 41.

A corrida estabilizou e, como sempre, não tive grandes sensações nos primeiros quilómetros. Sentia-me bem, mas um pouco pesado, sem a frescura de Berlim ou Lisboa. Achei, ainda assim, que isso iria passar, porque é muito comum sentir-me assim nas maratonas. Aos 8 km, senti pela primeira vez uma dorzinha na parte posterior da coxa esquerda. Fiquei preocupado. Faltavam 34 quilómetros e já estava a correr há quase 40 minutos, ou seja, ainda tinha tudo pela frente, e se a coisa piorasse era bem possível que não conseguisse terminar a corrida. Tentei pensar noutra coisa (quando não se corre com música, pensa-se em muita coisa).

Aí por volta dos 12 km, a prova entra no maior parque da cidade. Deviam estar uns 5 ou 6 graus, e a parte do parque foi sempre à sombra, o que me deixou com algum frio. Embora o percurso fosse bonito, não havia muita gente no parque a puxar pelos corredores, e às tantas o trilho tornou-se um pouco repetitivo e aborrecido. As dores nas pernas começaram a aumentar ligeiramente. Saímos do parque perto do km 20, e não se pode dizer que me sentisse muito bem. Aqui acho que já era mais uma coisa de cabeça do que de pernas. Normalmente, nestas alturas começo a pensar em formas de desistir com dignidade.

— Faço até aos 30, e depois desisto, mas pronto, 2 maratonas e 30 km de outra já é bem bom.

São coisas destas que me passam pela cabeça. A verdade é que nunca desisti de nenhuma corrida (só abandonei uma meia-maratona de Lisboa, ao km 17, depois de ter feito um duplo entorse do tornozelo esquerdo, o que me parece argumento razoável).

Passei à meia-maratona em 1h47m, perfeitamente dentro do que estava à espera. A cabeça foi levada para outros pensamentos, e as dores começaram a desaparecer, como por magia.

Cheguei aos 30 km na altura em que a corrida passou mesmo pelo centro de Berlim, com a magistral catedral à nossa frente, as avenidas cheias de gente, muita animação, e aquilo deu-me um boost interessante. Comecei então a acelerar ligeiramente o passo, e passei a andar a ritmos na casa dos 4’40”, quando até aí andava nos 4’50” a 4’55”. O que me estava a piorar um pouco as médias eram os abastecimentos. Como eram feitos a copo, isso obrigava-me a ter de andar uns metros enquanto bebia a água ou o hidratante, e isso fazia com que, naqueles quilómetros, as médias fossem sempre para os 5’20” ou 5’25”.

Não senti a altura crítica (os 37 ou 38 km), sinal de que, afinal, estava fisicamente bem, os músculos não tinham sido consumidos por ácido, continuava a ter glicogénio muscular e isso deu-me a confiança de que precisava para acelerar para a meta. Pelas minhas contas, iria terminar precisamente em 3h30, mas, já agora, fiz por baixar um bocadinho. Acelerei e os meus três últimos quilómetros foram mesmo os mais rápidos de toda a maratona (4’35”, 4’30” e 4’24”).

Cortei a meta dentro do estádio olímpico de Munique cheio de força, sem dores, feliz, precisamente 3h29m24s depois de ter partido. Mais um desafio que me enche de orgulho. Agora venha a Maratona do Porto, a 6 de novembro.

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