Maratona de Berlim #01: a certeza de falhar

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Este era o cenário magnífico de fim de tarde em Telavive, Israel

Sempre que há um Mundial ou um Europeu de futebol, os jornais e as televisões fazem aqueles trabalhos sobre as principais ausências. Muitas vezes, grandes jogadores ficam de fora por coisas verdadeiramente estúpidas, perdem competições com que andam a sonhar há anos por lesões que não lembram ao diabo. Dificilmente alguém baterá o antigo guarda-redes da seleção espanhola Cañizares, que ficou de fora de um mundial porque, no estágio, deixou cair um frasco de perfume num pé e fraturou-o.

Isto tudo a propósito de quê? Daquilo que estou a sentir neste momento, a pouco mais de 72 horas da Maratona de Berlim. Sim, eu posso bem ser o novo Cañizares. Já vão perceber porquê. Primeiro, o que ficou para trás.

Comecei a preparar a Maratona de Berlim no final de Maio, quando estive em Israel. Vinha de quase três meses de total inatividade, estava uns quilinhos mais gordo, ainda atravessava aquela fase horrível das alergias e excessos de pólens no ar, mas decidi que não podia continuar a adiar mais o regresso aos treinos. Assim, lá para 28 ou 29 de maio, quando estava em Telavive, Israel, decidi voltar a calçar os ténis.

Durante cinco dias, e sempre às sete da manhã, corri entre 6 e 10 quilómetros, a ritmos miseráveis, verdade, mas corri, que era o mais importante. Os anos que já levo de corrida fizeram-me perceber que muitas vezes o fundamental é começar. Estar à espera do momento certo é um erro, porque muitas vezes não há momento certo, há sempre outra coisa qualquer que nos irá parecer prioritária.

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O hotel Pestana Colombos, em Porto Santo, onde ainda consegui correr quando voltei de Israel

Nos meses seguintes, e até final de agosto, consegui cumprir com um plano mais ou menos rigoroso de treinos que me fizeram acreditar que iria conseguir atingir o meu objetivo: terminar a maratona na casa das 3h10m. Pois, mas não. E ainda não é agora que vamos à história do Cañizares — isso é depois.

A 28 de agosto entrei de férias, e andei, em família, a fazer um tour pelo interior de Portugal, muitas vezes a chegar a um destino às nove da noite e a sair de lá na manhã seguinte, às nove ou dez. Ou seja, o tempo para treinar foi quase nenhum.

Ainda consegui correr em Fornos de Algodres, e só eu sei o que penei a trepar a serra, e voltei a correr o no último dia, em Guimarães, manifestamente pouco para quem andava a treinar seis vezes por semana, sempre ali perto dos 50 a 60 quilómetros por semana.

Mas o pior veio depois. Na semana seguinte fomos para a República Dominicana, e eu ainda tive esperança de que houvesse por ali um bom estradão ou uma praia plana que permitisse dar umas corridinhas, nem que fossem cinco ou seis quilómetros diários, só para manter o ritmo. Não. Nada. Nem estradão nem praiinha que permitisse correr. Resultado: sete dias sem mexer o rabo, a duas semanas da maratona. Voltei com uma certeza: jamais conseguiria atingir o meu objetivo de cortar a meta ali pelas 3h10m. Tive a certeza disso quando regressei e participei na Corrida da Linha, este domingo, 18 de setembro. A prova tinha apenas 10 km, mas, para treinar, resolvi fazer 20. Antes da prova corri 10, em ritmo ligeiro, a a acompanhar um grupo de amigos, e depois tentei puxar mais forte na prova. Aguentei-me bem até aos 8 km, com um ritmo simpático a rondar os 4’10”, mas nos últimos dois quebrei completamente e fui para os 4’25” e 4’33”. Para atingir o objetivo das 3h10m em Berlim teria de fazer os 42 km a uma média a rondar os 4’32”/4’35”, o que parece, agora, impossível.

Agora é que é a cena Cañizares.

Já tudo isto me parecia muito mau, mas tornou-se ainda pior esta semana. Terça-feira passada, dia 20 de setembro, comecei a sentir uma dor forte muito estranha, no dedo grande do pé direito. Parecia-me uma dor na articulação do dedo. Sempre que punha o dedo no chão doía-me imenso. Não liguei muito, achei que iria passar. Ontem, quarta-feira, as dores aumentaram. Comecei a ficar preocupado e lembrei-me de Berlim. Hoje, quinta-feira, a três dias da corrida, sinto ainda mais dores. E por que é que isto aconteceu? Porque esta semana sentei-me numa cadeira diferente no trabalho. Tenho passado os dias numa cadeira mais dura, mais baixa do que a minha, que faz com que assuma uma postura, sentado, muito diferente. Em conversa com o meu colega João Campos, que também é corredor, falei-lhe desta dor. Ele olhou para mim e disse:

— Já viste como é que estás sentado?

Percebi, então, que estava a trabalhar com a ponta do pé toda dobrada e a forçar a articulação do dedo grande, mas desta vez do pé esquerdo. Troquei as pernas, fiz o mesmo com a direita, e senti aquela dor horrível. Ou seja, passei dois dias nesta posição e fiz aqui uma tendinite ou algo do género que me deixou assim.

Corri para a Farmácia, enchi-me de Voltaren, e agora é esperar que até domingo a coisa vá ao sítio. Vamos ver. O que é certo é que as corridas que tinha programadas para hoje, amanhã e sábado (uma ligeirinha) muito provavelmente não vão acontecer. Tudo a ajudar.