Não te deixarei morrer, Sporting-Benfica

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Há alguns dias que andamos todos a pensar no mesmo, mas por razões diferentes. Nós, porque o que mais queremos é o título de campeões. Eles, porque o que mais querem é que nós não conquistemos o título de campeões. Os outros, porque precisam que nós percamos para poderem ser campeões.

O Sporting-Benfica de sábado é o jogo do ano, o jogo que interessa de igual forma aos três grandes, aos rivais de sempre. Mas porque em Portugal os jogadores de futebol têm tanta importância como os que só querem ver a barraca a arder, este é o jogo mais perigoso de que me recordo nos últimos tempos, e isso preocupa-me.

Se há uns anos, um dérbi era essencialmente uma luta dentro de campo, com golos, fintas, jogadas incríveis, momentos memoráveis, goleadas, reviravoltas, discussões de café antes, durante e depois do jogo, hoje em dia um Sporting-Benfica é muito mais triste, e centra-se cada vez menos naquilo que importa: o futebol, os golos e os jogadores. E a culpa é de quem? É nossa, como é evidente.

Quem me lê com alguma regularidade sabe que não embarco em conspirações, não me agarro a arbitragens, não procuro razões obscuras para justificar sucessos ou insucessos das equipas. Acredito, genuinamente, que os campeões são as equipas mais regulares e quase sempre vencedores justos. Não há Apitos Dourados que me convençam de que o FC Porto não era, de longe, a melhor equipa em Portugal nos anos 90 e na primeira década de 2000, como não há discursos de colinho que tirem o mérito ao Benfica nos últimos campeonatos que ganhou.

O problema é que a massificação das conversas de café, que passaram a programas de televisão, o tempo de antena que cada vez mais canais dão a gente que não interessa nada, que só quer incendiar o futebol, que só quer ver a tal barraca a arder, que só quer espalhar mensagens “políticas” que interessam aos seus clubes, os reis da conspiração, da marosca, da insinuação, tudo isso, está a estragar o que é mais genuíno e honesto no futebol, a inocência da jogada, da finta, do golo. E é disso que eu gosto, do jogo, da competição, da bola que bate no poste, da que entra, da defesa milagrosa, do frango, do golo que nunca se esquece.

Se fizer um esforço para me tentar lembrar de dérbis que vi ao longo da vida, só me consigo lembrar de coisas dessas:

— O golo do Cardozo do meio da rua em Alvalade quando fomos lá ganhar 4-1.


— O golo do Brian Dean de cabeça noutra vitória por 4-1;


— A finta do João Pinto sobre o Vujacic que deu o 2-2 ao Benfica no 6-3;


— A chuvada monumental que apanhei em Alvalade quando perdemos 1-0 com um golo do Beto;


— O golo magistral do Balakov aos 9 segundos numa noite de nevoeiro;


— Os dois golos a meias do Cadete com o Beto, na estreia pelo Benfica;


— Aqueles dois golos do Jardel (o do Sportig) na Luz, a poucos minutos do fim, que transformaram um tranquilo 2-0 num 2-2 (com um penálti manhoso, manhoso);


— A vitória por 2-0 em Alvalade a 1 de dezembro de 2006, poucas horas antes de nascer o meu primeiro filho, com golos do Ricardo Rocha e do Simão;


— Os 2-0 que demos na Luz a 27 de setembro de 2008, na primeira vez que senti que me podia apaixonar pela minha mulher, com golos do Reyes e do Sidnei;


— O minuto 70 do ano passado na Luz, quando o estádio se levantou de pé a puxar pelo Benfica, que perdia 3-0;


— O golo do Luisão que nos garantiu a vitória por 1-0 e praticamente nos deu o título em 2005;


— A magistral jogada do Gaitan que criou um golo mágico do Lima, em pontapé de moinho;

E podia continuar aqui durante um dia inteiro.

Para mim, futebol é isto, um dérbi é isto, e aquilo que me faz ir aos estádios é isto. São estes os momentos que eu recordo por muitos e muitos anos, não são os foras de jogo mal assinalados, não são os penáltis por marcar, não são os golos anulados, não são as insinuações do Pina, do Guerra, do Serrão, não são as provocações do Bruno de Carvalho, não são os cânticos de ódio, não é triste figura que muitas claques fazem.

Disse que a culpa de o futebol estar mais perigoso é nossa, e é verdade. É nossa porque nos deixamos ir em discursos de ódio, continuamos a valorizar a opinião de uns patetas incendiários que só querem lançar discussão, levantar suspeitas, desviar a atenção do que interessa, que é o jogo, a qualidade do futebol, as vitórias e derrotas, as substituições certas e erradas, porque falando do que é paralelo, e não do essencial, protegem-se direções, presidentes, e acalmam-se os sócios, os adeptos, que se agarram a essas idiotices para justificar os insucessos, e não permite que esses mesmos adeptos discutam o que é evidente: a falta de competência de jogadores, plantéis, treinadores e dirigentes.

Este sábado, que o jogo me dê muitos momentos para recordar por muitos anos. De preferência dos bons.

5 Comentários

  1. Ricardo, que tema tão sensível… 🙂 Eu sou do Sporting. Não sou nenhuma adepta ferrenha, daquelas que vê todos os jogos, nem que segue à risca todas as notícias do seu clube (neste aspecto, talvez até siga mais o Real Madrid, mas isso muito mais por culpa da minha Ronaldite incurável, é um problema:) ) No entanto, acompanho com assiduidade os resultados, vejo alguns jogos, vou asistindo a alguns programas de televisão. Posto isto, eu concordo com Tudo o que escreveu! O que devia ser um desporto muitas vezes transforma-se num enxovalho público de acusações, muitas delas sem sentido. Todavia, o fenómeno da corrupção deportiva existe no futebol, e é muito preocupante que muitas vezes saia impune. Adiante, que isso são outras histórias. Eu sou Sportinguista, mas não tenho nada contra os outros clubes. Acho que, por uns e outros existirem é que os clubes se tornam melhores e essa concorrência é saudável. Não nutro sequer particular gosto, e envergonha-me até, que os clubes se agridam tanto uns aos outros, ao ponto de haver confrontos físicos nos estádios e isso é mesmo deplorável. Agora Ricardo, este ano, vou ser franca, gostava que o Benfica não ganhasse. Não digo isto com aquela cegueira estúpida de Sportinguista que não ganha nada há anos (vamos ganhar a bota de ouro, se tudo correr bem, já não é mau!), mas honestamente, acho que o meu clube é tão, mas tão gozado pelos benfiquistas que este ano, desculpe-me, mas estou-me a borrifar. Sabe, aquele sentimento, só para “calar” aqueles amigos que passam a vida a gozar comigo por causa do meu clube, ou aqueles amigos que passam a vida a postar no FB “mêmes” a gozar com o Sporting. Já não tolero, estou mesmo farta. Eu sei que isto é futebol, as pessoas de outros clubes podem achar exactamente o mesmo em relação ao Sporting, mas este é o meu clube o que é que eu hei-de fazer? 🙂 Acho até que este é o primeiro ano em que isto me acontece! Não me bata, sim 🙂

  2. “Eles, porque o que mais querem é que nós não conquistemos o título de campeões.” A sério?
    Raramente comento, ate porque cada um pode opinar como quiser, mas esta generalizacao ja me toca e parece abusiva. Acha mesmo que o que um sportinguista mais quer é que o Benfica nao ganhe o campeonato? Pense outra vez…
    Sou sportinguista (já tera percebido), ferrenha e convicta. Claro que quero que o Benfica perca amanha, mas so porque joga com o Sporting. O meu companheiro é benfiquista, ferrenho e convicto. Imagina-se, portanto, que os dias de dérbi sao para nós cheios de emoção e vividos muito intensamente.
    Apesar disso, embora o nosso clubismo nos defina, ele nao nos limita. Por isso, a vida, pelo menos a minha, passa por muito mais do que o que possa acontecer a qualquer outro clube que nao seja o meu. Esta ideia obsessiva de que os sportinguistas sao todos anti-benfica e essa generalizacao grosseira é nao so desnecessaria como limitada.
    Repito, a minha vida passa por muito mais. Acredito que a sua também…

  3. Romântica inveterada daqui!!!

    A torcer para que aquele “que me podia apaixonar pela minha mulher” seja sinal de que ainda o é e vai continuar a sê -lo.

    🙂

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