O meu direito à desmotivação

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Correr é uma das coisas que mais prazer me dão na vida

O corredor não é só aquele que salta da cama de madrugada e sai alegremente para uma corrida. Também é aquele que um dia não o consegue fazer. Ao longo dos últimos seis meses, e depois de ter corrido três maratonas em três domingos consecutivos, não tive a força e a determinação que são precisas para continuar a correr, a treinar, não consegui saltar alegremente da cama, muitas vezes até saltei, mas para fazer outras coisas. Desmotivei-me, andei desmotivado, perdi força, resistência, entusiasmo, ganhei peso, gordura, maus hábitos alimentares. Tornei-me num corredor que não corre, mas que continua a adorar corrida. Perdi algumas das provas de que mais gosto — a São Silvestre, a Meia de Lisboa, a Corrida do Benfica —, não fiz a Maratona de Sevilha, que ando a querer fazer há anos, e entrei numa espécie de loop em que é difícil sair.

Há tempos, escrevi uma crónica para a edição portuguesa da revista “Runner’s World”, a bíblia dos corredores, que em falava disso mesmo, da desmotivação que por vezes nos consome e nos puxa para baixo, mas também do direito que devemos sentir a passar por isso, sabendo que vamos dar a volta.

Porque nós, os que corremos, percebemos como os outros não percebem o orgulho que sentimos quando temos a força de deixar a cama para trás e saímos para uma corrida. Falamos pouco disso — deixamos os elogios à nossa força de vontade para os outros —, mas a verdade é que nos sentimos especiais, muito provavelmente porque somos especiais. Só que aquilo que esses outros não sabem, e de que nós também falamos pouco, é dos momentos na vida de um corredor em que ele não tem essa força para ser um corredor. Acontece, acontece muito, e isso não nos diminui, pelo contrário, é isso que nos torna corredores.

Correr faz parte da minha vida, e muito do que sou hoje sei que o sou porque corro, porque isto de correr me moldou, transformou. Tenho a sorte de me ter apaixonado pelo alcatrão há 25 anos, quando as corridas não eram ajuntamentos pop (nada contra, atenção), quando na linha de partida éramos meia-dúzia de incompreendidos.

Ao longo deste tempo, foram muitas as vezes em que perdi a vontade, em que não fui forte nem capaz de me motivar para ir para a estrada. Queria, queria muito, precisava da corrida, precisava muito, mas não era capaz. O despertador tocava e, como acontece com quase toda a gente, desligava-o e virava-me para o outro lado. A desmotivação vencia e isso irritava-me, fazia-me miserável, infeliz, deixava-me embrenhado numa espécie de manto de derrota que de certa forma me envergonhava. Achava que aquela sensação de impotência, de incapacidade de superar a desmotivação iria durar para sempre. Achava, mas também sentia que muito provavelmente iria chegar um dia em que isso iria passar. A verdade é que esse dia chegava sempre, e não demorava assim tanto quanto isso.

É aqui que está a linha que determina quem é um corredor ou um runner ocasional, daqueles que andam nisto por modas, e que hoje correm mas amanhã estão no CrossFit, e depois no ioga em suspensão e daqui a três meses numa aula de Gravity (nada contra, força nisso, desporto sempre). Os mais de 20 anos de estrada fizeram-me saber que um corredor tem o direito à desmotivação, sobretudo porque tem a consciência de que essa mesma desmotivação é temporária e quase necessária para que nunca se desista. Um corredor “para”, mas não desiste. Um corredor diz “agora não”, mas não diz “nunca mais”.

Tal como em todas as relações de amor, é importante que saibamos que em alguns momentos da longa vida conjunta iremos ser menos felizes, iremos ter chatices, arrelias, discussões, mas também sabemos que, inevitavelmente, tudo voltará a ser como dantes. A relação de um corredor com a corrida também é isso, e é essa a fórmula de um amor saudável.

É mais ou menos neste ponto em que me encontro. Não estou no dia zero, mas quase. Já fiz o mais importante, já dei os primeiros passos, voltei à estrada, voltei a sentir a liberdade de correr, voltei a traçar objetivos e a fazer planos. Por agora, só digo uma coisa: estou de volta.

3 Comentários

  1. É uma boa comparação. É como o amor, nunca é perfeito por não ter chatices, dias maus, mau feitio e outros que tais. É saber ver a perfeição no meio dos momentos menos bons, também. Pode haver discussões mais sérias, mas se é amor, volta sempre! 🙂

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