O nosso ano de merda é o sonho de muita gente

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Uma das coisas boas que fiz em 2016: conheci Cuba

Como acontece com quase toda a gente nesta altura do ano, olho para trás e gosto de tentar perceber o que foi o meu ano, o que é que de melhor e pior me aconteceu, gosto de pesar as coisas boas e más e tentar fazer uma avaliação.

A minha perceção imediata é só uma: foi um ano de merda. É isto que me apetece dizer, é isso que eu sinto, que está na flor da pele. Foi isso que vim aqui escrever, que tive um ano de merda.

Só que entretanto pus-me a pensar, a olhar para as coisas em perspetiva. Deixei de me concentrar no meu mundinho — e esse é um grande problema de muita gente, meu inclusive — e tentei comparar o meu ano de merda com o de muita gente que me rodeia, com o de muita gente que eu não conheço, mas sei o que passou por verdadeiros dramas, com o de gente perdida no mundo, na vida, pessoas sem oportunidades, sem rumo, sem vida, sem um caminho, sem esperança. E afinal, o meu não foi um ano assim tão mau. Foi mesmo bom.

Há tempos, quando estive em Nova Iorque, em conversa com uma amiga que vivia lá, a Maria, falámos sobre o Dia de Ação de Graças, e o impacto que tem na sociedade americana. Por cá, não se liga ao Thanksgiving, ninguém se lembra sequer que esse dia existe, mas acho que está na hora de tentarmos trazer essa tradição para cá — faz mais sentido do que a do Halloween. O Dia de Ação de Graças é um dia em que nos limitamos a agradecer. É só isso. Agradecer pelo que de bom temos na vida, pelo que de bom nos tem acontecido na vida.

Sou ateu, por isso consigo desligar tudo isto de Deus e de uma ação religiosa. Não acho que devamos agradecer a Deus (os católicos dirão que sim, naturalmente), mas sim às pessoas que ajudaram a que a nossa vida, em determinado momento, fosse melhor. E aqui falo de toda a gente. Das pessoas que nos apoiaram nos momentos difíceis, que nos deram a mão, que foram sempre amigas, companheiras, cúmplices, que se sacrificaram por nós, que lutaram por nós, que estiveram lá quando precisámos, mas também das pessoas que, com pequenos gestos, nos fizeram acreditar na bondade, na justiça, na honestidade, num mundo melhor. Por isso, acho mesmo que é importante estarmos gratos, simplesmente estarmos gratos.

Sou extremamente otimista, mas também tenho uma costela que, por vezes, me leva a olhar para as coisas menos boas. Foi por isso que vim aqui escrever que tive um ano de merda. Só que não me resigno a isso. Vou sempre continuar a olhar para o que de melhor a vida tem, para as pessoas boas, para os acontecimentos bons, para os momentos incríveis, para os que têm corações cheios, para os dias de 2016 que não irei esquecer. Agora que penso nisso, posso ter a certeza de que tive um ano muito bom. Só tenho, por isso, de estar grato. E estou.

6 Comentários

  1. O Thanksgiving teve origem num evento concreto, que ocorreu nos atuais Estados Unidos. Tem pouco ou nada a ver connosco. Já o Halloween pelas origens europeias e tradições, tem muito mais a ver connosco.

  2. Hoje, enquanto caminhava até ao café onde ia almoçar, ia a fazer essa mesma reflexão. O ano de 2016 foi um ano de merda! Mas, logo de seguida, bastou-me “olhar para o lado” (não literalmente, até porque ia sozinha) e perceber que, afinal, não foi assim tão mau…
    PS: Não gosto de sushi e o meu mail é do hotmail 😀

  3. Acho que devemos criar uma petição para o dia de ação de Graças! Agradecer muito. Porque somos privilegiados mesmo. Basta olharmos para outro lugar que não seja o nosso umbigo.
    F.S

  4. Acho essa perspectiva enganadora porque nivela por baixo. Com o mal dos outros podemos sempre bem.
    Também tive um ano de merda, e ajuda-me mais pensar na segunda sugestão: agradecer o que tenho e o que consegui.

    • Pode crer, Manuel. Tive um ano de merda, e 2017 está a começar “em grande ” e são coisas que não desejo a ninguém. O texto, quanto a mim, tem destinatários específicos e,não, gente com problemas à séria.

  5. No fundo é isso mesmo. Se sairmos do nosso mundo, percebemos que somos uns sortudos.
    E devemos sempre agradecer por isso. No meu caso, a Deus, aos meus meus e aos que me rodeiam. Sou católica.
    Mas não sendo, e respeito perfeitamente a fé (ou não) de cada um, agradecer aos que nos rodeiam.
    Que 2017 seja também um grande ano.
    Um beijinho Ricardo.

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