O problema não é o custo das ciclovias, é a falta de uma ciclo-educação

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Este sou eu, no decorrer da reportagem que fiz para a "Sábado" em outubro de 2012, a passar no Marquês de Pombal com a minha bicicleta

O PSD libertou esta quinta-feira, 8 de dezembro, um vídeo que está a incendiar as redes sociais, com gente contra e a favor. Podem vê-lo mais abaixo, mas, basicamente, o vídeo refere os milhões de euros que foram gastos em ciclovias em Lisboa e mostra que, em um dia inteiro de filmagens, foram registadas cinco passagens de bicicletas a circular nas ciclovias onde o PSD tinha as câmaras. Esta crítica, embora esperta, é obviamente uma visão fácil, demagoga e a puxar por uma reação instintiva do eleitor que não quer perder dois segundos a pensar num problema.

Ponto prévio: não sendo do PSD (nem de nenhum partido), nas duas últimas eleições legislativas, votei na coligação PSD-CDS, e nas últimas autárquicas em Lisboa votei no PSD. Ou seja, estou completamente à vontade para falar sobre este assunto. Mas vamos ao vídeo e já continuamos.

É muito simples apresentar o custo das ciclovias como um gasto supérfluo e desnecessário. Isso é nem sequer querer olhar para o verdadeiro problema da cidade, que é o trânsito caótico, o custo disparatado do estacionamento, a quantidade de carros que diariamente continuam a circular no centro de Lisboa (grande parte deles com apenas um passageiro), e os elevadíssimos custos ambientais que tudo isto traz. Agora, a bicicleta é a solução? No atual modelo de cidade, não, não é. E não é porque não se introduz um elemento totalmente estranho na vida das pessoas de um dia para o outro, esperando terem-se resultados imediatos — e a bicicleta, enquanto meio de transporte, e não um veículo recreativo, é um elemento estranho para os portugueses.

Em Portugal não há a cultura da bicicleta, até porque as cidades nunca se prepararam para as receber. Lisboa, por exemplo, sempre foi apontada como uma cidade em que era impossível andar de bicicleta, devido às muitas subidas e descidas, quando isso até não é bem verdade, mas isso é outra discussão.

O problema real aqui é a falta de investimento na cultura de utilização da bicicleta, aquilo a que no título deste post chamo de ciclo-educação. Não se pode, de repente, colocar 150 km de ciclovias na cidade e dizer aos lisboetas “pronto, agora usem a bicicleta”. Primeiro, é preciso muita comunicação, são necessários exemplos, referências para as pessoas, é preciso que os lisboetas entendam que, afinal, a bicicleta pode mesmo ser uma alternativa ao carro ou ao autocarro, e isso só acontece se houver, efetivamente, uma política de educação cívica. São necessários outdoors a promover a bicicleta, é preciso que haja gente que o faça e passe os exemplos, através do boca-a-boca, aos colegas de trabalho, é preciso que essas pessoas expliquem às outras como o conseguem fazer, e como até poupam dinheiro, gastam calorias e ganham saúde. É preciso que se explique às pessoas que 80 por cento dos trajetos que muitas pessoas que vivem em Lisboa fazem entre casa e o trabalho são, afinal, praticamente planos, porque as colinas ficam noutros sítios da cidade, é preciso explicar às pessoas que podem ter uma bicicleta elétrica, que ajuda nessas tais subidas, é preciso que as empresas comecem a perceber que, se calhar, dá jeito ter um balneário para os funcionários que se deslocam de bicicleta, ou pelo menos um duche numa das casas de banho, é preciso que se comunique bem todas as vantagens para a saúde das pessoas por andarem de bicicleta, é preciso que se explique como o ambiente vai beneficiar com a introdução da bicicleta como meio de transporte real e diário.

Ou seja, o problema do investimento nas ciclovias não é o problema, de facto, o problema é que se começou a fazer o prédio pelo topo. Uma ciclovia degrada-se muito rapidamente, e antes de se ter investido tanto dinheiro na construção de tantos quilómetros de ciclovia, devia ter-se investido logo na tal educação das pessoas, em comunicar a bicicleta como alternativa ao carro. O que vai acontecer é que quando, efetivamente, muita gente perceber que pode mesmo usar uma bicicleta, terão passado alguns anos, e as ciclovias estarão esburacadas, velhas, serão muito menos seguras, e isso não ajudará ao crescimento do número de ciclistas.

Há muito tempo que sou adepto do uso da bicicleta em Lisboa. Em outubro de 2012, fiz uma reportagem para a “Sábado” para tentar contrariar a ideia de que era difícil andar de bicicleta em Lisboa, e acho que consegui provar isso. Basicamente, a reportagem consistia em saber quanto tempo é que eu demorava de bicicleta a chegar das principais zonas residenciais da cidade até às principais zonas de escritório. Exemplos: Campo de Ourique-Baixa; Parque das Nações-Saldanha; Benfica-Marquês; Alvalade-Parque das Nações. A distância maior que percorri de bicicleta foram 12 km, quase nunca tive de fazer grandes subidas, todos os trajetos foram relativamente rápidos, e em momento algum me senti em perigo. Com ciclovias será tudo muito mais fácil, verdade, mas tenho a certeza de que quando recomeçar a andar de bicicleta, e será mesmo muito em breve, até porque em janeiro irei mudar de escritório (e para as novas instalações já irei de bicicleta — agora não o faço porque consigo ir a pé para o trabalho), continuarei a sentir-me o maluquinho no meio dos automobilistas aborrecidos e stressados que proliferam na cidade.

7 Comentários

  1. Não concordo que seja fácil andar de bicicleta em Lisboa. Moro em Alto dos Moinhos, Benfica, e já experimentei vários trajectos para ir para a zona de Saldanha. Em nenhum deles me senti segura no trânsito, com alguns automobilistas a apitarem e outros a fazerem comentários. Andar de bicicleta nesta cidade não é para toda a gente. Apenas para aqueles que já têm bastante experiência, ou porque a família tem uma quinta onde pôde treinar desde pequeno, ou que aos domingos fazia passeios em família ou em grupos locais, sentindo-se assim mais confiante para explorar estes novos caminhos. A maior parte das pessoas não teve/tem essa possibilidade. O espaço para estas poderem andar à vontade e fazer brincadeiras é pequeno e depois enfrentar o trânsito é bastante medonho.
    Concordo sim que nas escolas se deve investir nessa educação. Não só pelo ambiente em si e desobstrução do trânsito, mas também pela saúde das pessoas e ainda para evitar problemas de civismo, pois as pessoas seriam muito mais calmas. Não obstante o facto de algumas pessoas mesmo assim quererem ir de carro por ser mais confortável, ao menos seriam mais respeitadoras (e na verdade mais admiradoras da atitude) dos ciclistas. Para isso é preciso que o Tuga passe a não chegar atrasado às coisas (isto está tudo interligado). Não é mesmo um conjunto de regras novas do código da estrada que fará com que os novos condutores o façam, porque as situações são ainda muito escassas (é como a situação de haver um animal selvagem na estrada).

  2. Mais do que informação, acho que antes deveria ser feito um estudo para perceber realmente o potencial deste meio de transporte para a mobilidade urbana.
    Digo isto porque moro em São Paulo (cidade muito maior que Lisboa) e o último Prefeito também desatou a construir ciclovias pela cidade. Eu moro e trabalho em bairros centrais da cidade e uso muito os transportes públicos que, dentro da cidade, funcionam razoavelmente bem. O principal problema (e acho que se verifica o mesmo problema em Lisboa) é a quantidade de pessoas e carros que entram e saem da cidade todos os dias. Ora, para estes casos, não acredito que as ciclovias resolvam grande coisa. Já a melhoria dos transportes públicos (tanto na cidade quanto nos acessos) seria uma alternativa bem mais interessante que também pode ser amiga do Meio Ambiente (se se optar por veículos elétricos, por exemplo).

  3. Sou completamente a favor dos benefícios da utilização da bicicleta no dia a dia na cidade de Lisboa. Vivo no concelho de Oeiras e venho todos os dias de carro para Lisboa, deixando-o estacionado num dos parques para estacionamento diário criados pela Emel. Aí pego na bicicleta e faço o restante percurso até ao trabalho evitando muito trânsito na zona das avenidas novas e dinheiro com o estacionamento.

    Vejo a criação destes parques de estacionamento, evitando a entrada no centro da cidade e articulação com outros meios de transporte (metro, autocarro, bicicleta) pouco explorada. Os parques existentes são reduzidos e têm sempre muita procura, porque também têm um preço razoável (2€/dia). Penso que esta alternativa para tirar carros do centro da cidade devia ser mais explorada e divulgada, pois os seus custos acabam por ser reduzidos para a autarquia, face à resolução a curto prazo dos problemas da rede de transporte na região de Lisboa e a sua articulação para as periferias da cidade, que em regra estão muito mal servidas.

  4. Da janela do meu trabalho desde as 8h da manhã (hora de entrada) até às 17.00 (hora de saída) garanto-lhe que a ciclovia está vazia. Por onde pedalam os senhores ciclistas? Pela estrada. E quando se aborrecem com as buzinadelas, andam pelo passeio.
    Zona da Av. Duque d’Ávila: ciclovia, local onde as pessoas adoram passear. Sim, as pessoas levam os carrinhos de bebé para andar na ciclovia. Pessoas idosas, porque adoram o piso da ciclovia. Uma pessoa conhecida que já vi a questionar o porquê da falta de ciclovias a caminhar na mesma para não estragar os sapatos, ou porque é uma idiota. Ou porque segue a máxima, faz o que te digo, não faças o que eu faço.
    Zona da Av. da República, ciclovia nova, onde abundam carros parados em cima da mesma (no fim de semana teria sido um dia em cheio para polícia) e pessoas que preferem usar o passeio para andar de bicicleta. Porquê? Nem quero saber.
    Não somos um povo educado. Gostamos de fazer de contas que somos, mas no fundo, continuamos os parolos de sempre.

  5. Já que não quero ser amigo desse senhor para lhe escrever umas quantas coisas. as 7 colinas só existem para quem nunca andou de bicicleta. Actualmente conseguimos atravessar, cruzar e andar ao redor de lisboa, quase sem subidas assentuadas. Esses gajos são uns ingnorantes, que agora dizem não ter atacado as ciclovias mas sim a mobilidade depois de atacar as mesma 5 bicicletas que dizem ter observado. hahahahah. A questão é que os portugueses só irão perceber as vantagens de todas as ciclovias concluídas e as actuais existentes, quando realmente este projecto estiver acabado. a partilha de bicicletas espalhas por toda a lisboa será um dos maiores desfechos que observaremos no fim deste projecto. A mentalidade das pessoas ainda precisa de uma década de evolução, no entanto ja existe uns milhares de pessoas que tudo fazem quando podem levar a sua bicicleta.. Abraços. Um ciclista.

  6. De um modo mt simples, acho q as coisas podem ser feitas de 5 modos:
    1- Só promoção, sem infraestruturas
    2- Primeiro a promoção, e só depois as infraestruturas – como tu defendes
    3- A promoção em simultâneo com as infraestruturas
    4- Primeiro as infraestruturas, e só depois a promoção
    5- Só infraestruturas, sem promoção

    A CMA terá optado pela 4 ou 5.

    Acho q será mais ou menos consensual q as opções 1 e 5 não funcionem lá mt bem.
    Mas não explicas pq é q tu defendes a 2, e não a 3 ou a 4. É com base em casos de estudo de outros locais? De uma análise a outro tipo de coisas, e extrapolada para a mobilidade em bicicleta?

  7. Já tentei fazer percursos aqui no Porto de bicicleta é realmente muito difícil, não só por não existir ciclovias, ou quando as há são no meio de avenidas, ou encostadas aos passeios onde acabam por servir de estacionamento a automóveis. O pior de tudo é sermos alvos fáceis e frágeis na mira de condutores frustrados..

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