O senhor Canela vai ser sempre o senhor Canela

4
22905
FOTO: INÊS COSTA MONTEIRO/NIT
FOTO: INÊS COSTA MONTEIRO/NIT O senhor Manuel Canela vai continuar a ser o mesmo de sempre

O “Pesadelo na Cozinha” é um dos programas mais cativantes e bem feitos na televisão portuguesa e mostra aquela que é a realidade de milhares de pequenos restaurantes, tascas e cafés deste País. No fundo, acho que todos sabíamos que debaixo daqueles fogões e dentro daquelas cozinhas as coisas não eram bonitas, mas não tínhamos bem a noção de que pudessem ser tão horripilantes como nos parecem ser agora que as vemos em detalhe e planos aproximados das câmaras de televisão.

Adoro tascas, restaurantes de bairro, sítios onde tenho a certeza de que muitas das regras da ASAE não são cumpridas, e isso não me incomoda nada. Vou lá porque a comida é decente — às vezes é mesmo boa —, ou porque me desenrasca um almoço, ou porque tem uma boa relação qualidade/preço, ou só porque me apetece uma refeição mais a saber a comida da mamã, e nessas tasquinhas encontro isso. Não estou à espera que na cozinha haja um chef, mas uma cozinheira brutamontes, não estou à espera que o dono seja um restaurateur com grande visão de negócio, não fico incomodado se a comida me for levada à mesa por um empregado antipático, coxo, com nódoas na camisa.

Penso que este é o grande problema de “Pesadelo na Cozinha”, sobretudo quando se centra em episódios como este último, o do Canela, um restaurante em Campolide, Lisboa. O espaço é gerido pelo pobre senhor Manuel Canela, que acha que faz o melhor molho para bifes de sempre, pela sua mulher emotiva, que vive o negócio da família como uma extensão da sua vida, e pela dona Lina, a tal cozinheira brutamontes que anda nisto há uma vida e não acha graça nenhuma a isto de vir um chef armado em bom dizer-lhe como se fritam iscas.

FOTO: INÊS COSTA MONTEIRO/NIT
FOTO: INÊS COSTA MONTEIRO/NIT O restaurante voltou a ser mais ou menos o mesmo que era depois da saída do chef Stanisic

Não há programa de televisão que mude a vida dos Canela, nem o restaurante Canela, nem o senhor Manuel Canela, nem a dona Lina. Não há chef que consiga alterar hábitos de cozinha num espaço com sei lá quantos anos, não há produção que consiga ensinar uma pessoa como o senhor Manuel que o peixe ou a carne para grelhar não se podem pôr em cima da bancada, se foi sempre assim que ele fez, e também nunca ninguém o irá convencer de que se um cliente quer bacalhau à lagareiro ele não o vai fazer porque isso não está na ementa.

Estes programas de televisão são importantes para nos alertarem para algumas coisas que não sabemos, são importantes para que outros proprietários de restaurantes fiquem mais alerta para as suas próprias realidades, são importantes porque farão com que pelo menos durante um período de tempo os clientes se tornem um pouco mais exigentes, mas a verdade é que são apenas programas de televisão, entretenimento, são entradas de rompante na vida de pessoas, tipo furacão, que deixam tudo virado do avesso (ainda que para melhor), mas depois não asseguram um acompanhamento real para que as coisas efetivamente mudem. O “Pesadelo na Cozinha” não serve para mudar a realidade dos restaurantes, serve para ser um formato de televisão incrível — e é — que nos deixa agarrados a uma história construída com uma narrativa próxima da ficção, mas que assenta em factos reais. Todas as pessoas ali são personagens, todos os espaços são escolhidos com critérios testados, há guiões que nos apontam caminhos para onde se deve ir, há monólogos construídos para sustentar esses mesmos guiões, e o resultado disso tudo é um grande programa de televisão. Os senhores Canela desta vida tiveram ali alguém que lhes deu a mão por uns minutos, que lhe disse “olha, vai por ali”, mas foi só, e não é obviamente isso que irá mudar tudo. É por isso que os restaurantes Canela que têm aparecido no “Pesadelo na Cozinha” vão todos voltar a ser os mesmos restaurantes Canela que eram antes do programa, da mesma forma que os ex-gordos do “Peso Certo”, mais dia menos dia, voltam a ser gordos e a precisar de outro “Peso Certo”.

This is all about TV, not real lives.

4 Comentários

    • ahah eu quando li (já corrigido) pensei “ena, este pelo menos sabe escrever inglês”
      já percebi que a minha intuição estava certa

DEIXE UMA RESPOSTA