Por que é que deixamos de amar só porque sim?

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Muitas vezes tenho saudades daquele amor inocente de quando se tem 16 anos e se acha que é impossível gostar-se mais de alguém do que daquela pessoa que não nos liga nenhuma, mas que sabemos, com toda a certeza, ser o amor da nossa vida. É um amor absolutamente inocente, assente em nada, às vezes em simples trocas de olhares, mas que nos cega, nos preenche os dias, as semanas, nos tolhe o discernimento e nos leva a fazer as coisas mais absurdas de sempre. Foi assim comigo, foi assim com os meus irmãos e amigos, e acho que é mais ou menos assim com quase toda a gente.

Nessa altura, em miúdo, achava inacreditável a forma condescendente como os adultos em geral tratavam este sofrimento, o que me deixava irritado. Pior: vinham sempre com aquela conversa do “sabes lá o que é a vida, e o que é amar alguém”.

Hoje, tornei-me no adulto que diz aos adolescentes “sabes lá o que é a vida, e o que é amar alguém”. Mas digo-o com uma certa inveja, a inveja de quem gostava dos tempos em que amar era a coisa mais simples e natural do mundo, porque não era bem amar, era amar à adolescente, com a inocência de quem ainda não foi torcido pela vida. E esse é um dos grandes problemas. A merda da vida, e a forma acelerada e atribulada como ela vai acontecendo, rouba-nos quase sempre esta capacidade de amar só porque sim, de amar de forma deslumbrada e sem freios. Temos sempre de ter muito cuidado com tudo, temos sempre de ir muito devagar, temos de ter sempre em atenção as intenções dos outros, temos sempre de enquadrar o nosso amor no nosso passado e no passado das outras pessoas, temos sempre de racionalizar tudo o que fazemos e sentimos, sendo que isso é precisamente o oposto de sentir. Pensar é uma coisa, sentir é outra. E quando crescemos damos por nós a pensar no que devemos ou não sentir, no que podemos ou não sentir, e não nos limitamos a sentir. E esse é um dos problemas de sermos gente grande.

Quando somos pais, passamos a conseguir lidar com o amor de forma diferente, porque normalmente temos o amor de uma mulher (ou marido), ou não, mas também o amor que sentimos e damos aos filhos. E aqui voltamos a sentir os efeitos do tal amor inocente de quando éramos crianças. Hoje em dia, não há manifestação maior de amor do que ver o Mateus a correr para mim quando o vou buscar à escola. E isso acontece todos os dias, como se não me visse há um mês, como se aquele fosse o momento mais importante da vida dele, a maior alegria que podia sentir. Aqueles sprints, acompanhados de um grito “paaaaai”, são, também para mim, o momento mais alto dos meus dias, e dão-me a certeza de que não há coisa melhor do que este amor natural, irracional, e que só está ao alcance de crianças que nunca viveram os soluços da vida. Não dura muito, mas enquanto dura é aproveitar.

17 Comentários

  1. Sim, “temos sempre de” isso tudo.
    Mas quero acreditar, temos de acreditar, acredito mesmo (!!), que um dia, quando for com @, deixamos de “ter sempre de”…

  2. Ricardo, viva.

    Este comentário tem o objectivo de pedir-lhe que, caso seja possível, considere a possibilidade de deixar alguma indicação da necessidade de preencher os campos A ou B. Não o fiz depois de ter escrito um longo comentário.

    Resultado: falhoua submissão do mesmo e já não consegui recuperar o que escrevi. É frustrante como tudo. 🙂
    Mto obrigada.

  3. Não acredito que alguém deixe de amar só porque sim. Aí não seria amor, mas uma paixão passageira. Também tive desses amores de 16 anos, quase todos platónicos, mas que, na altura tinham a força dum tufão. E não, não tenho saudades disso. O que eu constato (do “alto” da minha certa idade), é que os casais não se esforçam por manter o amor que um dia os uniu. Acho que o amor só por si não sobrevive às distâncias que se instalam, às palavras que não se dizem na altura certa, à rotina, às rabugices mútuas, às diferenças… O primeiro impulso é: “não estás bem, muda-te”. Porque ninguém está para fazer concessões, de parte a parte. Ou duma parte só. As relações tornaram-se descartáveis. É mais fácil. Porque é muito difícil manter e alimentar um amor. Dá trabalho. Exige muito. E poucos têm essa resistência, esse quase despojar-se de si, para ir ao encontro do outro. Porque a vida nos “engole”, suga-nos tantas vezes essa vontade de resgatar esse amor que sentimos já não estar lá pra nós. Quando damos por ela, somos quase desconhecidos, desemparelhados, daquele que foi o nosso amor maior. Aquele que um dia (que parece já bem distante) fazia o nosso coração bater mais forte, razão maior da nossa vida, já não está lá pra nós. Insisto, o amor é um exercício diário. Extenuante. Maravilhoso. Como dizia o poeta: “Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor, já se não passa absolutamente nada. E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração”. E sim, o amor é fodido. Mas é só dele que precisamos. Sempre.

  4. Tu queixas-te da falta de amor, a Pipoca queixa-se que já ninguém a espera no aeroporto, não será hora de fazerem as pazes e assumirem que são o amor da vida um do outro? Posso estar a ler coisas que não existem, mas parece-me que andam os dois um bocadinho tristes. Vá lá, a vida é demasiado curta para um grande amor se perder assim. Desculpa se me estou a intrometer, mas sigo os dois e é o que eu acho.

      • Pensei no mesmo. O amor não acaba assim, têm um filho, e vocês pareciam feitos um para o outro. Arrumadinho, tu és muito engraçado, mas olha que a Pipoca não vai ficar muito tempo disponível. Não é todos os dias que se encontra uma mulher bonita, divertida, bem resolvida e inteligente. Se gostas dela não a deixes escapar. Sejam felizes!

  5. O amor pelos filhos é sim o mais natural e mais inocente que podemos sentir. Mas gosto de pensar que não está só ao alcançe das crianças, nós também o podemos sentir, tanto é que o sentimos pelos filhos. E sentimos a cada novo amor. Ou não é assim? Quem passa por uma separação ou por um desgosto de amor não volta a amar como antes? Eu não sei as respostas mas deixa-me triste saber que isto acontece. Ou será que para o conseguir é preciso primeiro serem capazes de fechar um ciclo? Enquanto não estiver fechado…dificilmente conseguem avançar. Quantas vezes nos questionamos sobre um amor antigo como se ele ainda estivesse um pouco aceso no coração? Isto acontece porque esse ciclo não foi devidamente fechado. O coração é elástico mas não é tanto (só para os filhos! :)). Por isso minha gente toca a fechar esses ciclos para abrir novos e melhores. A vida é só esta (dizem) por isso temos de seguir em frente sem bloqueios do passado. Não devemos esquecê-los porque fazem parte de quem somos e muito contribuiram para o nosso crescimento, mas também não devemos deixar que eles nos travem ou bloqueiem.
    Eu não espero um dia precisar de ler estas palavras, mas se um dia passar por algo assim, quero ter alguém que mas diga! Por isso Força e Avançem. Boa sorte.

  6. “…rouba-nos quase sempre esta capacidade de amar só porque sim…” mas quando conseguimos perceber e escrever isto (e o resto do parágrafo), com esta clareza, talvez possamos, também, recuperar essa capacidade de amar mais com o coração e menos com a cabeça.

  7. Meu Deus, que texto tão acertado. Não há dia em que não pense no que descreves nestas linhas. A verdade é que é impossível deixarmos para trás a bagagem que a vida nos impõe e, por causa disso, nunca mais nos permitimos a viver o amor da mesma maneira. Parabéns pelo post. Está tudo aqui. Muitos parabéns.

  8. Continuo a sentir mais do que penso. Apesar de todas as vezes em que já me espetei ao comprido, e apesar de saber que a probabilidade disso voltar a acontecer é grande. Sei (à posteriori sabemos sempre) que já houve várias vezes em que devia ter usado mais a cabeça, em vez de deixar que os sentimentos me toldassem o discernimento. Mas sei também que, se voltar a acontecer, volto a ver tudo com óculos cor-de-rosa, e a guardar o discernimento na gaveta.

  9. Somos nós mesmo que complicamos. Esse Amor inocente ate pode deixar de existir mas surge outra forma de Amor uma forma mais madura e com outros atractivos. Diz-lhe quem também já passou por tudo o que descreve… por um casamento que parecia ter falhado mas que poucos anos depois foi recuperado. E foi recuperado com aprendizagem e para uma vivência a dois muito muito melhor. Também existia um filhote que sem ser apenas a razão para tal ajudou a ver tudo em perspectiva e com outros olhos. O tempo cura, o tempo ajuda a resolver, o tempo é facilitador mas claro é preciso querer… querer a dois.

  10. Sábias palavras, penso exactamente assim, revejo-me em tudo o que li. É difícil experienciar o amor depois de umas quantas experiências de vida.

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