Quando a vida começa do zero

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Em miúdo, mudei de escola cinco vezes. Foram cinco recomeços. Cinco novas oportunidades. É isso que tento passar aos meus filhos.

Só este voltar pachorrento às rotinas de sempre — ir para o trabalho, levar os putos à escola, ao futebol, ao inglês, adormecer às dez da noite no sofá — é que nos dá a certeza de que o verão acabou, porque se confiássemos apenas nos termómetros jamais diríamos que era outubro profundo, já outono adentro.

Este regresso à vida é vivido por nós, adultos, de forma meio tristonha e até melancólica. Há quem lhe chame depressão pós-férias, mas para os miúdos, muitas vezes, a coisa é diferente. Pelo menos comigo sempre foi. Se havia momentos excitantes na minha vida eram estes, os dos primeiros dias de escola, o setembro, o outubro. Acho que vivi mais as coisas assim porque não tive propriamente aquela infância/adolescência tradicional. Passei anos e anos de escola em escola, de cidade em cidade, a conhecer sítios novos, pessoas diferentes, e cada recomeço era, para mim, uma nova aventura, mas também uma oportunidade de fazer tudo melhor do que no ano anterior.

Durante o preparatório e o secundário, nunca fui aquele aluno brilhante com 5 a tudo. Era um aluno ali entre o satisfaz bastante e o bom, com boas notas a Português, História, Inglês, Francês, Geografia, Estudo do Meio, mas depois era só mediano às matemáticas, biologias, físicas, químicas e essas coisas. Muito bom só mesmo a Educação Física, fraquinho a Desenho e mauzinho só a Música ou Têxteis (quem é que se lembrou de que Têxteis poderia ser uma boa disciplina para pôr no currículo dos putos? Ia tendo uma negativa à conta desta brincadeira — a minha sorte foi que a nota de Têxteis fazia média com a de Práticas Administrativas (onde se aprendia a datilografar, verdade).

O fim do verão era, por isso, um tempo de recomeços, de voltar a ter uma folha em branco à frente. Eram cadernos limpos e sem pontas dobradas, era a possibilidade de apanhar a matéria de Matemática desde o início, era poder voltar a ser um aluno aplicado, era um voltar ao zero, que foi uma coisa que sempre me atraiu. E é também esse espírito que gosto de passar aos meus filhos. Não gosto nada daquela coisa de dramatizar o fim de férias, de fazer com que os miúdos sintam que a boa vida acabou, acho isso um disparate. Voltar às rotinas do dia é voltar aos amigos, voltar a aprender coisas na escola, conhecer pessoas novas, e tudo isso é bom.

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Quando voltámos de férias, fui com eles ao Amoreiras Shopping Center para tratarmos daquelas compras intermináveis que são precisas fazer para a escola. A lista era uma coisa assustadora. Mas até esse dia tentei que eles o vivessem como uma aventura, uma experiência, porque sinto cada vez mais que uma das formas de afastarmos os miúdos dos telemóveis e de brincadeiras solitárias é envolvê-los em experiências desafiantes, coisas que os cativem. E, a bem dizer, ir às compras não é propriamente o programa mais desafiante do mundo para os miúdos. Foi por isso que criei uma espécie de jogo dentro do Shopping para os motivar. No Pão de Açúcar, pedia aos dois para serem os primeiros a encontrar determinado produto. “O primeiro a encontrar um caderno preto com linhas ganha 5 pontos”. E lá iam eles pelo corredor à procura do caderno. No final, quem conseguisse mais pontos tinha direito a um prémio (claro que acabo sempre por ter de dar prémios aos dois).

Depois do material escolar, fomos à Bertrand (a minha loja preferida) comprar livros. Desde que nasceu que o Mateus ouve todas as noites uma história antes de dormir, mas o Henrique já lê, mas está naquela fase (quase com 11 anos) em que a vida dele anda à volta do telemóvel. É o YouTube, são os jogos, as conversas com os amigos, e a leitura acaba por ficar um pouco para trás. Instituí, por isso, um sistema novo: horas certas para tudo. E os livros vão passar a ter hora certa. Lá escolheu mais um dos Diários de um Banana, que ele adora.

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Antes de almoço, fomos à SportZone, que está muito lindinha, toda renovada, tratar daquelas coisas para a ginástica, o basquetebol e a natação. O desafio é eu entrar na loja e conseguir sair de mãos a abanar. Não consegui. Lá trouxe mais um par de calções de corrida, que nunca são demais.
A minha maior batalha é mesmo a das refeições. Desde que passei a seguir uma dieta vegetariana restrita (vegana), que tenho tentado, aos poucos, fazer com que os miúdos se afastem de comidas processadas e com gorduras em excesso. Não sou fundamentalista, não os obrigo a comer todos os dias o que eu como, mas, devagar, tenho introduzido cada vez mais vegetais e leguminosas nos pratos, e cortado nas doses de hidratos simples (massas e arroz brancos), e proteína animal. Continuam a comer, mas muito menos. Não tem sido fácil, admito, e se calhar dedicarei todo um texto a isto. Muitas vezes vamos ao Bala, o mexicano que tem opção vegana (é só não escolher carne e queijo) ou ao Walk The Wok. O preferido deles continua a ser o novo Barracuda, que tem aqueles pregos que eles já comiam no Sea Me ou no Prego da Peixaria, e, banana como sou, de vez em quando lá os deixo ir lá. Também a comer gosto do sistema de jogo e de pontos, que os motiva, distrai e, lá está, torna um ato simples de comer numa experiência interativa entre todos. Bem melhor do que estar cada um no seu telemóvel.

Texto escrito em parceria com o Amoreiras Shopping Center

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