Quando me perguntam porque corro, eu conto esta história

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No momento em que ia no meu limite, a caminho do Terreiro do Paço

Eram só três metas: correr três maratonas num ano, bater o meu recorde pessoal numa delas e baixar dos 40 minutos numa prova de 10 quilómetros. Estabeleci-as em janeiro de 2015 e sabia que pelo menos duas delas iria atingir. O objetivo mais complicado para mim era sem dúvida baixar dos 40 minutos numa corrida de 10 quilómetros. Tinha perdido várias oportunidades, e já só me restava a Corrida Montepio, uma das minhas favoritas, com um percurso que adoro, e ao qual estou habituado.

Aquela manhã despertou com um temporal — claro. O mundo uniu-se para me tramar. Cheguei à partida cedinho porque antes da minha prova havia a Corrida Pelicas, e levei o meu filho mais velho, as minhas sobrinhas e uns amigos a participar, para ver se eles ganham o bichinho das corridas. Eles correram, depois fui eu.

Estava completamente encharcado, já com os ténis ensopados, e isso diminuiu-me ligeiramente a confiança. Felizmente, consegui partir bem à frente, o que é sempre uma vantagem para quem quer fazer bons tempos. A partida foi nos Restauradores e decorreu tranquilamente. Consegui posicionar-me numa zona boa, sem muita gente por perto, o que me permitiu ir ao meu ritmo. Sabia que se conseguisse ir ali a um ritmo de 3’50’’ a 3’55’’ durante 8 quilómetros, muito provavelmente atingiria o meu objetivo.

Cheguei ao Cais do Sodré, com uns 2 quilómetros nas pernas, e dentro do que tinha planeado, a sentir-me bem, o que me foi reforçando a confiança. Só que o pior estava para vir.

Devia ter passado o quilómetro 6 há pouco tempo quando senti os primeiros sinais de fadiga. Não era músculo, era pulmão. Não andava a treinar para correr tão rápido, e comecei a sentir os efeitos do ritmo elevado (fiz um dos quilómetros a 3’35’’). Olhei para o relógio e vi que tinha cumprido o km 7 em 4’10’’ e estava no meu limite do esforço. Não rendia mais. Nestes casos, que custa mais é mesmo ter de vencer a guerra mental, aquele jogo entre a cabeça e o coração, em que a cabeça diz para abrandar mas as pernas têm de se recusar a aceitar as ordens e obedecer ao coração, que pede por tudo para que não desistamos de lutar. Mas eu sabia que ia ser quase impossível. Passei o km 8 nos meus limites do esforço, e fiz 4’08’’. Ainda faltavam dois.

“Não vai dar. Vou morrer na praia”, pensei. Abrandei ligeiramente, baixei a cabeça e deixei-me ir, resignado. Isto durou uns 20 segundos. “Não. Dois quilómetros podem ser 7 minutos, 7 minutos e meio. Não consegues dar tudo em 7 minutos? Não aguentas 7 minutos a sofrer, por muito que doa? Aguentas. Se não aguentares, pelo menos lutaste até ao fim”. Quem corre sabe que isto é mesmo assim, estes pensamentos são reais, esta luta é constante. Aceitei o meu próprio desafio.

Voltei a erguer a cabeça e fui com tudo. Chovia cada vez mais, sentia os pés a boiar dentro das sapatilhas, mas isso agora era acessório. Foquei-me no relógio e dei tudo o que tinha. O quilómetro 9 foi melhor: 4’04’’. Talvez ainda desse. Era só mais um quilómetro. Cheguei ao Terreiro do Paço arrasado, descompensado e a correr já só por instinto. Entrei na Rua da Prata, virei logo na primeira para a Rua Augusta e passei o arco. Olhei em frente e vi a meta. Por cima, o cronómetro: 39’48’’. Doze segundos para cortar a meta. Acho que nunca corri tão rápido na vida. Acelerei como um louco e cheguei à meta: 39’59’’. Parecia aquela coisa de filme em que alguém corta o fio da bomba 1 segundo antes de ela rebentar. Cumpri. Fechei o ano com os meus três objetivos alcançados. Abri os braços, levei-os ao ar, e, naquele momento, senti-me o vencedor da prova.

Quando muita gente pergunta “por que é que corres”, tenho vontade de responder que corro, também, para sentir estas coisas, que só quem corre é que consegue sentir.

A sensação de atingir um objetivo para o qual trabalhámos muito não cabe numa imagem
A sensação de atingir um objetivo para o qual trabalhámos muito não cabe numa imagem

Desde 1993, já participei, seguramente, em mais de 100 corridas oficiais, de estrada e de trail, e de todo o tipo de distâncias, dos 5 aos 57 quilómetros. De cada vez que alguma destas provas se repete, lembro-me do momento em que a corri. Mas claro que há umas mais especiais do que outras. Nunca me esquecerei da primeira meia-maratona, em Setúbal, quando tinha 16 anos e que me valeu uns três dias sem me conseguir mexer. Nem da primeira maratona, em 2012, da Serra de Sintra até Belém, que me levou umas intermináveis 4h19m. A primeira ultra-maratona, o Ultra-Trail Noturno da Lagoa de Óbidos, em que comecei a correr às 21h30 e só terminei depois das cinco da manhã. De 10 km, lembro-me sempre desta, a Corrida Montepio.

Dia 22 de outubro lá estarei novamente. Levo os miúdos para participarem na Corrida Pelicas e depois, lá vou eu para a prova principal. Desta vez sem objetivos, só mesmo para desfrutar. Quem quiser, pode inscrever-se aqui.

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