Resolução deste Natal: destralhar, destralhar, destralhar

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Depois de colocar os resíduos dentro dos sacos próprios, o Mateus adora ir comigo ao Ecoponto e meter os sacos nos sítios certos

Deve ser a pergunta que mais vezes me fazem: porquê O Arrumadinho? Normalmente, quem faz esta pergunta conhece-me há pouco tempo, porque não são preciso muitos dias de convívio comigo para adivinhar a resposta. Eu sou, efetivamente, muito arrumado, adoro ter as coisas organizadas, os DVD arrumados por ordem alfabética, as camisas penduradas por cores (das brancas para as pretas), e gosto sobretudo que os meus espaços sejam práticos e intuitivos, que não tenha de me levantar para ir buscar uma coisa de que preciso todos os dias e que está guardada longe do sítio onde vou precisar dela.

Exemplo: no meu escritório, as gavetas estão organizadas por prioridades de uso, ou seja, na primeira gaveta estão essencialmente coisas que uso todos os dias — canetas, post its, um bloco, uma caixa com moedas, um cabo para carregar o telemóvel, etc. Na última gaveta estão só as coisas ligadas ao café (cápsulas, chávenas e filtros da máquina) e pelo meio há uma só com faturas, recibos, documentos em papel, coisas ligadas à gestão corrente da empresa.

Em casa também sou assim. Agora imaginem o sofrimento de uma pessoa assim que vive com outra que é totalmente o oposto, e que ainda por cima todos os dias recebe mais e mais coisas de todas as marcas e mais algumas, tralha de todo o género, desde roupa a acessórios, bebidas, gadgets, brindes, isto TODOS OS DIAS. Resultado: a casa fica rapidamente um caos de caixas, caixotes, embrulhos, sacos de todos os tamanhos, que uma pessoa nem sabe para onde se virar. Agora, juntar a isto tudo o Natal, onde as criancinhas recebem dezenas de presentes, alguns enormes, que se juntam aos dos natais anteriores, aniversários, ou seja, também eles são uns acumuladores de cenas. Embora tenhamos uma casa grande, a tendência é ir acumulando tudo numa divisão mais pequena — que podia perfeitamente ser um quarto — mas que é usada como uma espécie de arrecadação gigantesca. Foi assim durante os últimos três anos. Até 26 de dezembro de 2017, o dia em que tudo mudou.

Tirei o dia a seguir ao Natal para arrumar a casa toda e ver-me livre de toneladas de inutilidades que andavam a ocupar espaço sem necessidade e que era preciso para coisas mais importantes. A decisão já estava tomada há uns dias, por isso, durante semanas, fui acumulando coisas que queria dar numa das divisões da casa, que estava vazia. Móveis, estantes, mesas de cabeceira, roupa, brinquedos, livros, eletrodomésticos, gadgets (um computador, a PlayStation 2, um sistema de som, dois leitores de DVD).

A 26 de dezembro, às 8 da manhã, dois senhores da REMAR foram lá a casa e levaram tudo. Estiveram mais de uma hora a carregar coisas para uma carrinha, ao ponto de a vizinha da frente ter vindo perguntar se nos estávamos a mudar. Pelo meio da confusão, o Mateus andava entretido a tirar todos os novos brinquedos das caixas, mas, como quase todas as crianças, dava tanto valor ao brinquedo como ao jogo que fiz com ele, o de ver quem conseguia juntar mais embalagens dentro dos três sacos de reciclagem: um para o papel, outro para os plásticos e latas e o terceiro para vidros. Ele fez disto uma verdadeira batalha. Andava por toda a casa à procura de papel para poder encher o saco dele. Já tinha açambarcado todo o papel de embrulho dos presentes, todos os sacos de papel para o saco azul dele, todos os jornais onde vinham embrulhadas coisas, todas as caixas plásticas, e depois foi à caça de extras.

— E este, posso reciclar?
— Não, Mateus, isso é a fatura da água.
— E este?
— Esse podes.
— Este?
— Não, isso é o cartão do ginásio do pai.
— Mas eu preciso de plásticos para o meu saco!

Ele levou a coisa tão a sério que até as pilhas andou a testar para ver se estavam boas ou se eram para reciclar. Ainda juntámos umas 30 que andavam espalhadas pela casa, dentro de gavetas, em caixas de brinquedos, que jamais seriam usadas porque nunca há paciência para as testar uma a uma a ver se estão boas.

E foi isto. A vantagem deste jogo da reciclagem é que assim tenho uma espécie de empregada doméstica só para o lixo, que ainda por cima mete tudo em sacos próprios, diverte-se e ainda faz questão de ir despejar tudo ao Ecoponto. E nem sequer tenho de lhe pagar.

Desde que comecei com este jogo caseiro de acumular coisas para reciclar dentro dos sacos próprios que noto que não só o Mateus como o Henrique estão muito mais despertos para esta questão ambiental. Fazem imensas perguntas, tomam a iniciativa de serem eles a reciclar, não só em casa como na rua, que era, para mim, o mais importante.

É verdade: há gente que acha que ir despejar o lixo ao Ecoponto é uma aventura incrível (estou a falar do Mateus)
É verdade: há gente que acha que ir despejar o lixo ao Ecoponto é uma aventura incrível (estou a falar do Mateus)

A sensibilização ambiental dos miúdos é um trabalho que deixamos ainda muito na mão das escolas e dos educadores, quando todos sabemos que as crianças aprendem muito mais facilmente pelo exemplo, e que nós, pais, somos os modelos para eles, os exemplos, os heróis, é a nós que eles querem copiar, por isso, tudo o que fazemos em casa é muito mais facilmente apreendido e repetido pelos miúdos.

Reciclar é daquelas coisas básicas, que custam praticamente nada, e que traz benefícios para todos. Separar os resíduos hoje é aquele contributo mínimo básico que devemos dar nem que seja para compensar toda a poluição que inevitavelmente vamos produzindo no nosso dia a dia. Se tiverem alguma dúvida em relação ao vosso ecoponto – localização, manutenção, devem contactar a vossa autarquia ou sistema municipal. No site da Sociedade Ponto Verde www.pontoverde.pt podem saber qual é, é só ir aqui

Texto escrito em parceria com a Sociedade Ponto Verde.

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