Respeita este emblema, meu menino

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Ao longo da minha vida profissional já fui muitas vezes maltratado, desrespeitado, sempre por pessoas, nunca por instituições. Já me senti injustiçado, humilhado, já senti muitas vezes que não me estavam a dar o valor que eu sei que tenho. E isto foi sempre por ação de pessoas.

Nunca disse, publicamente, nada que pudesse prejudicar quem me tratou mal, e sobretudo nunca disse mal de revistas, jornais, sites, televisões que, em determinado momento da minha vida, foram a minha fonte de rendimento. É tão só uma questão de respeito.

As palavras de Fábio Coentrão de ontem, após o jogo com o Benfica, revelam tão só a menoridade do homem. Fábio Coentrão é um homem pequeno, sem estrutura e equilíbrio intelectual, incapaz de diferenciar uma instituição como o Benfica da atitude de algumas pessoas que o possam ter prejudicado, e, sobretudo, é um homem curto de cabeça ao não entender que a forma como os adeptos do Benfica se manifestam à sua presença não é uma ação contra ele, é uma reação à postura que ele teve quando passou a representar o Sporting. Fábio Coentrão não tinha necessidade de dizer as coisas que disse quando assinou pelo maior rival do Benfica, para mais, sabendo que era muito querido por toda a gente no Estádio da Luz. Coentrão acreditava, penso, que iria fazer o resto da carreira no Sporting, e sabia que, com aquelas palavras, seria idolatrado pelos adeptos do Sporting. Só que as coisas não lhe correram como ele achava que iam correr, não foi o jogador que achava que ia ser, não conquistou os títulos que achava que ia conquistar e acabou por ver o seu clube do coração prescindir dele ao fim de um ano.

O Sporting, clube que Coentrão parece continuar a defender, esse sim, não tratou o jogador e o homem com o respeito que ele merece, não lhe deu o valor que apesar de tudo ele continua a ter, não pôs o sportinguismo de Fábio num patamar alto o suficiente para lhe oferecerem um contrato minimamente aceitável — e o minimamente aceitável era pagar-lhe o mesmo que o Rio Ave lhe paga (o que não será assim tão difícil de conseguir para um grande).

Acredito, sinceramente, que esta frustração de Coentrão tem uma razão: é minha convicção que ele sempre acreditou que o Benfica o iria resgatar ao Real Madrid, e que iria voltar à Luz um pouco como Rui Costa, adorado por todos, elevado ao estatuto de estrela, homem da casa. Isto era a expetativa dele. Mas não aconteceu. Nem fazia sentido que acontecesse. Quando assinou pelo Sporting, o Benfica tinha um Grimaldo em grande forma, tinha um Eliseu campeão da Europa, e provavelmente teria de investir num salário de pelo menos 2 milhões/ano para trazer Coentrão, um Coentrão preso por arames, vindo de um má época no Mónaco, e com visíveis problemas físicos, motivacionais, e de equilíbrio emocional. Era um risco demasiado elevado, logo, penso que é perfeitamente normal que o Benfica não o tenha ido buscar. Como acho normal que o Sporting o tenha feito, e acho normal que ele tenha aceitado o convite do rival, na conjuntura de então.

O que se seguiu depois é que ditou que, hoje, Fábio Coentrão seja dos jogadores mais detestados pelos adeptos do Benfica. O jurar amor eterno ao Sporting, o dizer que é do Sporting desde sempre, as demonstrações constantes de desrespeito ao Benfica, o falar a toda a hora, e em tom desagradável, do clube que o foi buscar ao Rio Ave, que o tornou num titular da seleção, que lhe deu um salário de príncipe, que o levou ao melhor clube do mundo, o Real Madrid. Os 30 milhões que ele rendeu ao Benfica são um bom dinheiro, mas significam, para o Benfica, muito menos do que aquilo que significou para a vida de Coentrão o que ele ganhou no Benfica. Não só em dinheiro, como em valores, prestígio e dimensão futebolística.

Quando Coentrão pediu a mão a Samaris para que ele o ajudasse a levantar-se do chão e Samaris não a deu, e sobretudo quando Samaris apontou para o emblema do Benfica, Samaris encarnou todos os adeptos verdadeiros do Benfica, aqueles que se tivessem Coentrão ali à frente só lhe diriam uma coisa: “Respeita este escudo, meu menino”. 

Este não é um texto sobre Samaris, mas também o é. Samaris tem mostrado ser um dos maiores benfiquistas no plantel, e tem-no demonstrado há muito tempo. Isso viu-se sempre nos detalhes e sobretudo nos dias negros. A forma como, do banco, saltava para dentro do campo a abraçar os colegas quando marcavam golos, a forma como, no final dos jogos, muitas vezes sem ter jogado, celebrava triunfos com toda a gente, não por ser jogador, mas por se benfiquista. Samaris passou pelo menos dois anos sem ser opção recorrente no Benfica, mas nunca, por um só momento, se leu uma declaração dele revelando insatisfação ou criando mal-estar no clube. Nunca. Samaris mostrou ter a tal estrutura intelectual, emocional, a solidez enquanto homem que Coentrão não tem, e dificilmente alguma vez terá.

Samaris é um jogador à Benfica, e jogadores à Benfica têm de continuar no Benfica, sobretudo quando aliam a essa chama grande categoria dentro do campo. 

Quando Samaris apontou para o escudo do Benfica e o mostrou a Coentrão não lhe disse apenas “Respeito, meu menino”, disse também que é ali que ele, Samaris, tem de jogar, porque é assim que ele merece continuar, de águia ao peito.

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