Se os meus filhos quiserem ganhar-me que façam por isso

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Facto 1: sou extremamente competitivo.

Facto 2: tenho muito fair-play, aceito quando perco e não fico a chorar as derrotas.

Como é que estas duas realidades convivem? Convivem bem. Mas convém enquadrar melhor tudo isto com o título que leram lá mais em cima. Vamos lá.

Adoro jogos, competição, brincadeiras que determinam uma vitória ou uma derrota. E os meus filhos saem a mim. Os dois estão constantemente a querer competir em tudo e mais alguma coisa, até nos momentos mais simples e que aparentemente nada têm que ver com um ambiente competitivo. O Mateus, por exemplo, faz de tudo um jogo para ver quem ganha. Quer ser o primeiro a chegar ao prédio, o primeiro a subir as escadas, o primeiro a entrar em casa, o primeiro a chegar ao quarto. Mais: até quando vai fazer chichi quer que eu faça ao mesmo tempo do que ele para ver quem acaba primeiro. É, ele é este tipo de criança.

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Até a fazer puzzles o Mateus quer competir: “Vamos ver quem encontra primeiro a peça?”

Quando vejo isto percebo bem a quem é que ele sai. Também sou mais ou menos assim: competitivo e infantil. Desde sempre gostei de incutir este espírito nos miúdos, tentando, ainda assim, que o vivam de forma saudável. Ninguém gosta de perder, e não devemos ficar conformados com as derrotas, mas temos de as aceitar, e temos de saber que se quisermos ganhar temos de dar o nosso melhor.

Levo esta teoria mesmo à letra. Sou aquele pai que raramente deixa os filhos ganharem só porque sim. Mesmo quando facilito um bocadinho, dou luta até ao fim, e faço-os ver que só conseguiram a vitória porque deram tudo, e mereceram-na. Mas muitas, muitas vezes, ganho-lhes e faço-os conviver com o fracasso e a derrota, faço-os perceber que há gente melhor, mais capaz do que eles, tentando, claro, não lhes ferir a auto-estima.

O meu filho mais velho, o Henrique, talvez por já ter 10 anos, leva isto mais a peito. Jogamos muitas vezes PlayStation (sobretudo PES e NBA) e é raro ele ganhar-me, porque eu também dou tudo para o vencer, e não facilito de todo. Chego ao ponto cruel de marcar cestos ou golos e festejar na cara dele só para o provocar. Ele fica fulo, mas depois faz o mesmo quando consegue bons resultados, sempre com um espírito de competição saudável e em tom de brincadeira. Mas nem sempre é assim.

Há dias, novamente a jogar NBA, escolhi uma equipa mais fraca (os Spurs) e ele optou por uma fortíssima (a equipa clássica dos Lakers dos anos 80/90). Levou uma tareia monumental. Eu dei mesmo tudo, e a poucos minutos do fim tinha para aí 20 pontos de avanço. Ele começou a amuar, e a amuar, e a amuar, até que desistiu. Começou a aparvalhar, a fazer lançamentos do meio-campo, a jogar de forma completamente displicente. Foi aí que parei o jogo, larguei o comando e lá lhe dei o sermão do “temos sempre de lutar e acreditar até ao fim, dar o nosso melhor em todas as situações, mesmo quando já não podemos ganhar“. Ele estava irritado, mas lá me ouviu. Não joguei mais com ele nesse dia, para ele aprender, e a verdade é que nunca mais se repetiu: já levou outras tareias monumentais e deu sempre tudo até ao fim.

Claro que quando digo que nunca os deixo ganhar estou a exagerar. Claro que deixo, porque é importante eles perceberem que o esforço que fazem é muitas vezes recompensado. Mas nunca o faço de forma totalmente despropositada, nem continuada. Mesmo quando ganham uma vez, depois voltam a perder, e nunca sentem que é uma coisa fácil.

O Mateus é mais pequeno, e não entende tão bem estes conceitos de competir/ganhar/perder. Por isso, tenho com ele uma atitude mais pedagógica e menos competitiva. Jogamos muitas vezes, a tudo e mais alguma coisa, mas para mim o mais importante é que ele nunca desista dos jogos a meio, que lute sempre por um objetivo e que perceba que há uma relação causa-efeito entre o esforço que ele faz e os resultados que alcança.

Muita gente confunde o facto de se ser competitivo com o ter mau perder. Não acho nada que tenha de ser assim. Uma coisa é não gostar de perder (e eu não gosto, como acho que ninguém gosta) outra bem diferente é protestar as derrotas, culpar o mundo por não se ter ganho, criar teorias absurdas para justificar o insucesso. Como pai, acho que tenho a responsabilidade de preparar os miúdos para o mundo que vão encontrar, precisamente um mundo cada vez mais competitivo, em que diariamente vão ter de dar o melhor deles para ganhar, mas que, muitas vezes, vão acabar por perder. E não há mal nenhum nisso.

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