Será que os miúdos de hoje sabem o que é a magia de abrir um caderno novo?

0
2919

Não sei se os miúdos hoje sentem a mesma isso, ou se é uma coisa geracional, mas uma das memórias que guardo com mais carinho da infância era a daqueles dias antes de começarem as aulas em que íamos com os pais à papelaria buscar os novos manuais escolares e comprar os cadernos, as canetas, as réguas, o compasso. Era uma espécie de segundo Natal para mim. Adorava folhear os livros pela primeira vez, espreitar a matéria bem mais à frente para ver o que aí vinha, sentir o cheiro do papel novo, escrever pela primeira vez o meu nome no livro, para o identificar.

Com os cadernos tinha uma relação ainda mais obsessiva, que explica um pouco o porquê de ainda hoje me considerar um homem arrumadinho. Invejava mesmo aquelas miúdas (sim, eram sempre miúdas) que tinham os cadernos bonitos e direitinhos o ano inteiro, com os apontamentos das aulas todos escritos com cores diferentes, tudo muito certinho. Os meus cadernos eram invariavelmente daqueles mais manhosos, com um formato ali entre o A5 e o A4, beges, e que tinham escrito CADERNO DIÁRIO, com um traço por baixo para se colocar o nome da disciplina. Era o que havia. O que eu queria mesmo era ter aqueles cadernos A4 da Oxford, todos bonitos e resistentes, em cores diferentes, com ou sem argolas. Ao fim de duas semanas de aulas, os meus cadernos ranhosos já tinham as pontas das folhas dobradas, já estavam meio sujos, e isso fazia-me perder o entusiasmo, sobretudo quando olhava para as colegas que tinham esses cadernos da Oxford e eu os via ainda como novos. Aquilo partia-me o coração.

Agora que sou crescidinho já posso ser eu a escolher os meus cadernos (sim, eu continuo a usar cadernos e blocos)
Agora que sou crescidinho já posso ser eu a escolher os meus cadernos (sim, eu continuo a usar cadernos e blocos)

Há dias, fui com o meu filho mais velho, de 11 anos, viver essa experiência tão maravilhosa para mim que era a de comprar o material escolar. Percebi que do lado dele o entusiasmo não é o mesmo que eu tinha quando era da idade dele. Mas ainda assim foi satisfeito. Para lá daquela lista interminável de material que se tem sempre de comprar, levei-lhe uma pilha de cadernos daqueles que eu sempre quis ter, e de vários formatos. Escolheu um caderno de cada cor para cada disciplina, em formato A4, e ainda levou uns mais pequenos, A5, para exercícios. E o melhor: comprei-lhe um daqueles cadernos com argolas e separadores, onde podemos ter apontamentos de várias disciplinas. Ui, o que eu adorava isto quando era puto.

Claro que quando o Mateus viu os cadernos do irmão também quis iguais, e lá tive de lhe arranjar dois para ele ir praticando a escrita, porque este ano já vai começar a aprender a ler e a escrever. Em casa, estamos a treinar a escrita do nome. Para aí há um mês, já sabia ler sempre que via o nome dele, e já era capaz de desenhar as letras pela ordem certa. Mas as férias deram cabo disso. Pedi-lhe para escrever o nome dele e pronto, foi a desgraça.

MTAES. É assim que o Mateus acha que se escreve o nome dele (o que as férias fazem aos putos)
MTAES. É assim que o Mateus acha que se escreve o nome dele (o que as férias fazem aos putos)

Acredito mesmo que estes detalhes podem fazer diferença no entusiasmo com que encaramos o estudo. Da mesma forma que têm impacto no trabalho do dia a dia. Sou, desde sempre, uma pessoa do papel, mesmo tendo adotado todas as ferramentas digitais que me permitem trabalhar com mais eficiência. Mas não há página de Word que se equipare a uma página em branco de um caderno. Não sei se é por ser uma pessoa de letras, das palavras, por sempre ter adorado escrever, mas a verdade é que quando vejo um caderno em branco sou invadido por uma súbita vontade de escrever, de criar, e quero acreditar que com os meus filhos possa acontecer o mesmo. Isto porque acredito mesmo no impacto da folha em branco, e não tenho dúvidas que ter um caderno bonito e organizado dá muito mais prazer em estudar do que ter meia dúzia de rabiscos e arabescos impercetíveis num caderno todo sujo e dobrado, que muitas vezes anda no bolso de trás de calças (era um clássico dos bad boys no meu tempo de escola — invariavelmente, eram péssimos alunos).

Uma folha de um caderno em branco é, para mim, um enorme estímulo criativo
Uma folha de um caderno em branco é, para mim, um enorme estímulo criativo

Felizmente que ainda não chegou o dia em que nas escolas os putos só vão escrever ao computador, felizmente que ainda se cultiva o ato de escrever e criar com as mãos, porque começa a ser assustador ver gente que já não sabe pegar numa caneta, já não sabe o que é a magia de sentir o cheiro a papel novo.

O Mateus anda todo entusiasmado com o reinício das aulas, mas um pouco assustado com isto de aprender a ler e escrever
O Mateus anda todo entusiasmado com o reinício das aulas, mas um pouco assustado com isto de aprender a ler e escrever

Texto escrito em parceria com a Oxford.

DEIXE UMA RESPOSTA