Vocês sabem lá o que é ter-me na cozinha num fim de ano

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Ter um Ecoponto à porta, a 5 metros de casa, é um luxo que infelizmente não tenho em Lisboa

Depois de no ano passado ter ficado em casa sozinho com o Mateus na passagem de ano — que acabou por ser muito divertido — este ano fui até ao Algarve com um grupo de amigos daqueles com muitos filhos. Ou seja, já lá vão os tempos em que a noite de Ano Novo era uma cena de adultos, com uns copos, música, malta a dançar e a comer. Isto agora é totalmente dominado pela criançada, com o Canal Panda, os tablets brinquedos espalhados por todo o lado, birras de sono, de fome, birras para comer, guerras de irmãos, de primos, comida a voar, pais em stresse, todo um filme que muitas vezes é de terror.

Este grupo é praticamente o mesmo com que já tinha passado férias em Agosto, em Espanha, por isso, já nos conhecemos bem, já estamos por dentro das rotinas de todos, das dinâmicas de grupo, de famílias, já topamos as manhas dos putos e dos pais, e já temos piadas específicas para cada adulto. Desde o verão que sempre que se querem meter comigo pegam pela minha comida, vegana. Eles falam, gozam, brincam, mas a verdade é que eu sei que, no fim de tudo, sentem um bocadinho de inveja de não terem a coragem de mudar e de seguir uma dieta mais saudável e equilibrada.

Neste fim de ano, praticamente tomei conta da cozinha. Para lá de cozinhar para todos, ainda me armei em polícia da reciclagem. Felizmente, a moradia onde ficámos tinha o seu próprio Ecoponto dentro da cozinha e à porta de casa, o que ajudou muito. De cada vez que alguém me vinha ajudar a fazer qualquer coisa, lá tinha de dar os meus gritos de alerta:

— Alto! Embalagens de plástico são no saco amarelo!
— O que é que a lata de atum está a fazer no saco verde? É no amarelo!
— Não, as garrafas não são no saco azul, são no verde.

Também aconteceu verem-me a despejar restos de comida dos pratos dos putos para um saco à parte e começarem a atirar tudo lá para dentro, até eu alertar que aquele saco era só para orgânicos, e lixo que não se pudesse reciclar, como os papéis de cozinha gordurosos.

Ao menos consegui instituir ali uma espécie de disciplina militar, que já ninguém deitava nada fora sem me perguntar antes em que caixote é que devia pôr determinado resíduo.

A única que se juntou a mim nesta tarefa foi a menina Cláudia, que, tal como eu, também é adepta da reciclagem lá em casa. E ainda me ajudou a humilhar os adultos quando fomos para a sala e mostrámos que o filho dela, de 4 anos, já sabe perfeitamente quais as cores dos caixotes em que se deve deitar determinados materiais, coisa que, vergonhosamente, muitos adultos não sabiam.

O resultado desta minha tomada de poder da cozinha foi só um: ao jantar, toda a gente quis comer a comida do vegan (que sou eu) e ninguém ligou nenhuma ao prato feito para toda a gente. Para contrariar a ideia instituída de que eu só como saladas, fiz um chilli vegano, com tomate, pimentão, feijão preto, feijão encarnado, cebola, alho, cogumelos, salsicha de soja, milho e molho de chilli, que acompanhei com nachos veganos (sem soro de leite) — foi unânime, estava ótimo. O resto do pessoal teve de se contentar com umas postas de salmão no forno sem grande graça acompanhadas de batatas mal assadas, que iam partindo um dente ao pessoal de tão duras (não fui eu que tratei delas). E agora apostas sobre o que sobrou e o que foi tudo abaixo? Pois, de chilli não ficou nada.

Durante dois dias, consegui obrigar um grupo de 12 pessoas a reciclar tudo o que era desperdício
Durante dois dias, consegui obrigar um grupo de 12 pessoas a reciclar tudo o que era desperdício

Na manhã seguinte, concluí a minha missão: foi só sair de casa e, mesmo à porta, tinha logo ali um Ecoponto à minha disposição. Era bom que em Lisboa fosse assim, mas tenho esperança de que em breve instalem um assim mesmo em frente ao meu prédio. Na verdade, já há cada vez mais spots para reciclar espalhados por todas as ruas. Até dentro dos prédios já começa a haver caixotes de cores diferentes precisamente para que se faça a reciclagem de forma mais instintiva. Pode ser que isso ajude a mudar mentalidades e que cada vez mais as pessoas entendam a importância que isto tem para o ambiente e, consequentemente, para a nossa vida.

Texto escrito em parceria com a Sociedade Ponto Verde

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